“Nosso Fiel Traidor”: Thriller Narra Esquema da Máfia Russa

Durante uma viagem com a esposa ao Marrocos, o professor universitário Perry conhece o carismático Dima, membro do alto escalão da máfia russa e responsável por comandar um poderoso esquema internacional de lavagem de dinheiro. Buscando proteger sua integridade e a de sua família, Dima pede ajuda a Perry para entregar informações confidenciais ao MI6 (Serviço Secreto Britânico), em troca de asilo político na Inglaterra – envolvendo o docente e sua companheira em um perigoso jogo de espionagem internacional.

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O prólogo de Nosso Fiel Traidor desperta certa curiosidade, sim – pena que o restante do filme não acompanha a boa introdução. Adaptado do best-seller homônimo escrito por John le Carré, Nosso Fiel Traidor sofre por sua falta de originalidade: tudo o que se vê ao longo de quase duas horas de fita é mais do mesmo, uma reciclagem batida de elementos que, individualmente, são até interessantes. O thriller flerta com o cinema hitchcockiano (é inevitável a comparação com o clássico O Homem Que Sabia Demais) e também com o gênero noir de outrora – mas as escolhas equivocadas da diretora Susanna White fazem com que a atenção do público logo se esvaeça. A história tenta, a todo custo, forçar um clima de mistério e suspense (principalmente através da eficiente trilha de Marcelo Zarvos) e até o consegue em determinados instantes. O roteiro, entretanto, se revela confuso e Nosso Fiel Traidor definitivamente não avança, se tornando um produto para lá de enfadonho.

Mas Nosso Fiel Traidor não é, de tudo, um desperdício. Amparado por uma fotografia caprichada e um elenco competente (Ewan McGregor é o protagonista, enquanto Stellan Skarsgard dá vida a um Dima extravagante), sua trama não deixa de ter seus atrativos para aqueles que se propuserem a acompanha-la – e tiverem paciência, é claro. Filme fácil, Nosso Fiel Traidor parece ter sido encomendado como um grande presente: envolto a uma embalagem de primeira, seu conteúdo não chega, no entanto, a surpreender. Daí, a percepção só depende de você: é aceitar ou se decepcionar.

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Cortina Rasgada

Acho engraçado quando leio por aí que os últimos trabalhos de Hitchcock não foram muito empolgantes. Tudo bem, depois de Os Pássaros, de 1963, o cineasta não criou nada muito original ou grandioso, mas ainda assim temos que admitir que seus filmes subsequentes não são, de fato, ruins como a maioria argumenta – apenas um entretenimento menor. Cortina Rasgada, lançado três anos após o último clássico hitchcockiano citado anteriormente, pode não ser o melhor exemplar da carreira de Alfred mas, se analisado isoladamente, consegue agradar ao público muito mais que grande parte dos pipocões americanos da atualidade.

01O cenário político nunca foi uma temática muito proeminente na filmografia de Hitchcock, que só destacou essa vertente em seus filmes “propaganda” realizados durante a Segunda Guerra Mundial. Mas mesmo nessas obras, o tom político das histórias soava muito raso, dando maior espaço para os dramas e, claro, o suspense que consagraram o mestre. Em Cortina Rasgada, o cenário da Guerra Fria só se manifesta para que Hitchcock crie seu tradicional estilo, através da trama do cientista americano Armstrong, em viagem a Copenhagen para um congresso de físicos ao lado de sua noiva e assistente Sarah. Em território dinamarquês, Sarah descobre que o noivo está de malas prontas para a Alemanha Oriental, atrás da Cortina de Ferro (durante o período da Guerra Fria, trata-se da divisão da Europa em duas partes: Europa ocidental e oriental, com influências políticas divergentes), na tentativa de levantar fundos para um projeto rejeitado pelos EUA. Mesmo frustrada com a traição do futuro marido ao seu país, Sarah não pensa duas vezes e decide seguir o amado.

Vou fazer uma confissão: já tentei assistir a fita por três vezes – e dormi logo nos primeiros quinze minutos. Talvez, por uma grande coincidência, eu estivesse apenas cansado ou passando por dias ruins, mas é um fato: Cortina Rasgada é um filme lento e arrastado. Apesar de promover algumas grandes ideias e momentos dignos do mestre, não há como negar que o ritmo da história e sua duração prejudicam um pouco o resultado final. Outro ponto que também colabora para a sensação de morosidade da narrativa é o casal de protagonistas, vividos por Paul Newman e Julie Andrews. Seus personagens são totalmente desestimulantes: enquanto Armstrong trata sua parceira com total indiferença e arrogância, Sarah é ainda mais irritante ao abaixar a cabeça diante do tratamento grosseiro do noivo, seguindo-o para todo lado e considerando-o o homem mais incrível do mundo. Ou seja, a empatia com o público não se cria – e é o excelente trabalho de direção de Alfred que salva Cortina Rasgada do fiasco total.

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Hitch consegue despertar o interesse pela narrativa, acertando na divisão do filme em três atos, cada um mostrado através de uma perspectiva distinta. O primeiro momento, sob a visão de Sarah, onde o mistério predomina – já que ela não sabe os planos de Armstrong. O segundo ato, quando descobrimos que o personagem de Newman está traindo sua pátria é marcado pelo suspense característico de Hitch, tomando conta de toda a história. E, finalmente, a ação que se desenvolve já na última parte da fita. Essa construção é fundamental para que o público se sinta confortável com a trama, apesar de alguns quadros monótonos que ameaçam o roteiro e só são suportáveis porque Hitchcock nos presenteia com outras cenas inspiradoras. Entre elas, é obrigatório citar a sequência do assassinato, tão verdadeira que é lembrada até hoje como um dos pontos mais brilhantes da carreira do diretor – que argumentava que “tirar a vida de alguém é algo muito difícil”, diferente do que se via em Hollywood. Outra cena de tirar o fôlego é a longa perseguição, já na última parte, onde Hitchcock com total destreza manipula toda a narrativa para aumentar ainda mais a tensão da fuga dos protagonistas – especialmente a sequência dos ônibus (que merece simplesmente ser vista e não apenas comentada aqui).

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Cortina Rasgada é um excelente thriller de espionagem e perseguição, mas com qualidade inferior a que estamos acostumados quando mencionamos o nome Hitchcock. Tecnicamente, a produção continua sendo eficiente, com exceção, talvez, da trilha de John Addison, que substituiu o velho Bernard Hermann (que teria escrito o roteiro original do filme que, após inúmeras alterações, marcou o fim da parceria entre o compositor e Alfred). Apesar de possuir os protagonistas mais insossos da carreira do cineasta, Cortina Rasgada mostra (assim como os grandes clássicos de outrora) o domínio do diretor em sua mise-en-scène, carregando muitos artifícios que são indispensáveis na obra hitchcockiana. Não à toa, a cada nova revisão desta película, é possível notar o quanto a câmera excepcional do artista é impecável – o que faz dele, inevitavelmente, o gênio que é e de Cortina Rasgada um bom entretenimento.

Marnie, Confissões de Uma Ladra

01Há certa unanimidade da crítica ao afirmar que a fase áurea da filmografia de Alfred Hitchcock corresponde ao início dos anos 50 até os primeiros anos da década seguinte – período no qual o cineasta dirigiu suas mais elogiadas obras, como Pacto Sinistro (1951), Janela Indiscreta e Disque M Para Matar (1954), Um Corpo Que Cai (1958), Psicose (1960) e Os Pássaros (1963), citando apenas alguns. Outro ponto em que também há uma concordância é que os últimos trabalhos hitchcockianos são os mais “questionáveis” de sua carreira (com exceção de Frenesi, penúltimo filme do diretor). Marnie, Confissões de uma Ladra, lançado em 1964, é um de seus melhores registros, porém sofreu com a incômoda posição entre esses dois períodos – o que divide a opinião dos fãs, que se questionam se Marnie é mais uma das obras-primas do mestre do suspense ou se marca o início de sua série de filmes dispersos, insólitos e de qualidade duvidosa.

A jovem Marnie vive de pequenos golpes nas empresas onde trabalha, assumindo em cada uma delas uma nova identidade. A bela age de forma simples: ganha a confiança de seus superiores e, tempos depois, foge do local com uma pequena fortuna, sem deixar pistas. O problema é que em uma dessas empresas, ela é descoberta por seu chefe Mark, que acaba se apaixonando pela funcionária. Acuada, Marnie só tem duas escolhas: casar-se com Mark ou ser entregue à polícia – e, obviamente, opta pela primeira delas. Apesar de concordar com o casamento de fachada, o esposo devotado tenta desvendar de todas as formas o mistério de sua amada e as causas de todo seu comportamento psicologicamente abalado.

Marnie, Confissões de uma Ladra não é um clássico suspense de Hitchcock, tampouco se percebe tanta entrega do diretor nesse projeto. Isto fica muito evidente no ritmo da narrativa, que apesar de começar muito bem, aos poucos perde um pouco o fôlego – o que, consequentemente, faz com que o público perca também o interesse. O roteiro é visivelmente um pouco perdido e algumas coisas parecem não se encaixar, deixando inúmeras pontas que só serão entrelaçadas ao final das mais de duas horas de projeção. Alem disso, há sequências onde o excesso de informação ajuda a diminuir a ação, mas sem contribuir para uma construção mais sólida da fita. Em alguns momentos, por exemplo, é possível até esboçar uns bocejos pois parece que nada significativamente importante ameaça acontecer.

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Outro “pecado” de Marnie é o desenvolvimento raso e superficial de boa parte dos personagens. Mark é um tipo que, apesar do charme, não possui conflitos suficientes para se aproximar do público (mesmo com todo o carisma de Sean Connery, antes de virar um dos James Bond mais sensacionais da história do cinema). Lil Mainwaring (a belíssima e morena Diane Barker) é outra que, apesar do incrível potencial, não consegue sair da superficialidade pois jamais conseguimos entender o que ela é dentro da trama (afinal, Lil é uma mocinha apaixonada pelo bonitão ou uma vilã interessada no dinheiro do milionário?). Talvez pela falta de antagonistas mais fortes, Marnie se torna um filme de um único personagem: a própria Marnie, intensamente vivida por Tippi Hedren – em um tipo muito mais atraente do que o vivido pela atriz em Os Pássaros. Tippi tem o tom exato entre a docilidade e a frieza e essa dualidade no caráter da personagem ajuda muito a enriquecer a trama e construir a personalidade complexa de Marnie. Hitchcock sabiamente explora ao máximo a sua personagem para criar os eventos do filme e volta em busca de respostas e razões no passado que justifiquem (ou, ao menos, ajudem a compreender) o comportamento de Marnie.

Comprovando a excelência técnica dos filmes de Alfred, há um esmero em pequenos detalhes. Com muita sofisticação, os figurinos, maquiagem e cenários são impecáveis e deixam muito abaixo até títulos mais cultuados do diretor. Marnie pode possuir suas deficiências, mas ainda assim é um ponto interessantíssimo da obra de Hitchcock. Não há características de um suspense clássico (exceto no constante medo de Marnie em ser descoberta), mas há cenas em que o cineasta demonstra total domínio da linguagem cinematográfica – como na sequência do roubo, em que a posição dos personagens e os cortes de imagens acentuam cada minuto de tensão. Alem disso, o humor sutil do diretor fica implícito em inúmeros diálogos, ao menos para os espectadores menos dispersos. Se por um lado o suspense tenha ficado em segundo plano, Hitchcock nos delicia com certa dose de psicanálise ao tentar desvendar os mistérios que envolvem Marnie (afinal, qual é a origem de seu medo? Por que a repulsa aos homens? Por que o desprezo da mãe? Qual a origem de sua cleptomania?). O problema é apenas sua falta de perfeccionismo, o que não diminui a obra, mas se tratando de um filme de Hitch, é de se ficar com a orelha em pé…

Frenesi

Londres, década de 70. Uma série de crimes inquieta a polícia local: mulheres são estupradas e assassinadas por um maníaco sexual que as asfixia com uma gravata. Após o assassinato de sua ex-esposa, o fracassado Richard Blaney passa a ser o principal suspeito dos crimes. Preso injustamente, sua missão agora é provar sua inocência e incriminar o verdadeiro culpado.

01Esta é a sinopse de Frenesi, o penúltimo filme de Alfred Hitchcock, lançado em 1972. Frenesi traz o mestre do suspense de volta aos holofotes após uma sequencia de películas que dividiram a público e o deixaram meio desacreditado entre os grandes produtores (na ordem, Marnie, Confissões de Uma Ladra; Cortina Rasgada; e Topázio – este último amargando duras críticas e considerado por muitos o seu trabalho mais irregular). Não que estes filmes sejam ruins; de fato, há de se admitir que todos eles são superiores a muita coisa produzida na época. Mas faltava aquela identidade do cineasta presente em toda sua carreira. Talvez por essa razão, o longa foi muito bem saudado como a volta de Hitchcock ao gênero que o consagrou e o tornou um nome tão importante na história do cinema – um dos maiores contribuidores à sétima arte.

Frenesi marca o retorno do cineasta à Inglaterra, sua terra natal (aliás, o longa já se inicia com uma ótima tomada aérea de Londres por cima do rio, aterrissando no mercado da cidade – locação central da narrativa). Marca também a volta de Hitchcock a um recurso muito comum em suas tramas: um homem acusado de um crime que não cometeu. Esses dois pontos foram cruciais para o sucesso da obra que, apesar de não acrescentar nada significativamente novo à filmografia de Alfred, diverte e entretém. Tudo funciona de forma concisa, ainda que a impressão que se tem é a de que Frenesi é uma espécie de apanhado geral de ideias e recursos já vistos e utilizados anteriormente.

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Mas se engana quem achar que Frenesi não tem outros méritos. Frenesi é, de longe, o filme mais violento da carreira de Hitchcock. Muito mais cru do que em seus trabalhos anteriores, a violência em Frenesi é mais explicita. A sequência do assassinato (e estupro) de Brenda Blaney, para a época, poderia ser comparada a qualquer cena de pancadaria tarantinesca hoje. Há, alem disso, inúmeras cenas de nudez, que o diretor filma com bastante naturalidade e não chega necessariamente a “chocar”, pois o espectador sabe que a nudez é importante dentro do contexto daquele momento. Frenesi também apresenta um roteiro muito bem humorado – aliás, o humor quase se mistura ao suspense devido aos inúmeros percalços pelos quais seus personagens passam. O humor aqui trafega por vários tipos, do mais “bobo” (as comidas intragáveis que o inspetor de polícia é obrigado a provar para agradar a esposa) ao mais “negro” (um corpo boiando no Tâmisa enquanto um político londrino discursa sobre a limpeza do rio).

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Jon Finch (que um ano antes estrelou o polêmico Macbeth, de Roman Polanski) dá vida ao protagonista que, apesar de ser um sujeito não muito simpático, desperta certa compaixão no público. Mesmo não caindo de amores por Richard, o espectador torce para que ele consiga provar sua inocência e se vingar de Robert Rusk, o comerciante vivido por Barry Foster (um tipo detestável já nas cenas iniciais, com todo seu ar de “amigão, camarada” que soa, de cara, falso e forçado). Aliás, deve-se abrir um espaço aqui para elogiar o belo trabalho de direção de Alfred: diferente dos suspenses tradicionais onde o culpado só é revelado ao final da trama, Frenesi apresenta o criminoso antes da metade da projeção – mas nem por isso o filme perde interesse. Pelo contrário: Hitchcock conduz tão bem o roteiro de Anthony Shaffer que o público se sente impelido a acompanhar o desfecho da história, torcendo para que o verdadeiro assassino pague por seus crimes.

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Apesar de recorrer a alguns clichês de sua própria obra, Hitchcock faz um filme claramente mais popular (a começar pela trilha sonora de Ron Goodwin, muito mais comercial do que qualquer coisa já feita por Bernard Herrman, velho companheiro de Alfred). Talvez isso tenha sido culpa dos próprios estúdios, que participavam efetivamente da produção do longa e, de certa maneira, “engessavam” a criatividade do cineasta (algo do qual o diretor reclamou algumas vezes). Com Frenesi, ainda que com algumas amarras, Hitchcock mostrou que ainda tinha prestígio dentro dos estúdios e, principalmente, ainda tinha cacife e boa forma para fazer bons trabalhos. Frenesi aposta em algumas velhas receitas batidas para criar um filme que, apesar de não inovar, funciona bem para o seu propósito, se tornando indispensável para os fãs do cinema hitchcockiano.

Os Pássaros

Há muitas obras de Alfred Hitchcock que comprovam o talento inegável do cineasta inglês, mas Os Pássaros (1963) é a que, provavelmente, mais ateste sua alcunha de “mestre do suspense”. Lançado três anos após o unânime sucesso Psicose (considerado por muitos a sua obra-prima), Os Pássaros é uma espécie de cartão de visita para os que querem conhecer o trabalho do diretor, se revelando um filme que vai muito alem do tradicional suspense.

Estrelada por Tippi Hedren e Rod Taylor, a trama de Os Pássaros é, relativamente, simples. Uma jovem rica vai até a pequena e isolada cidade de Bodega Bay, na Califórnia, a procura de um rapaz por quem se interessara em São Francisco. Ao chegar à pacata região, ela não apenas se aproxima do homem e sua família, mas presencia também um fato bastante incomum: pássaros das mais variadas espécies começam a atacar a população, causando pânico nos moradores locais.

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Para o espectador que lê uma sinopse superficial como esta, é possível que Os Pássaros se aproxime muito mais de um “terror” do que necessariamente um “suspense”. Obviamente, esses dois gêneros são bastante próximos, mas não são iguais. Definitivamente, Os Pássaros é um filme que não “assusta”, no sentido próprio da palavra – mas incomoda, causa desconforto, agonia e faz com que o público se contorça na cadeira com suas sequências aterrorizantes de perseguição e ataque. Isso só é possível por conta do ótimo roteiro de Daphne Du Maurier e Evan Hunter, que mantém um equilíbrio ao oscilar cenas de ação com períodos mais calmos (mas não menos estimulantes, como os diálogos que ajudam a construir a história e estender o pânico causado nas sequências de histeria).

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Do ponto de vista técnico, Os Pássaros é ainda mais surpreendente – afinal, como levar às telas de cinema, no início da década de 60, a história de uma cidade atacada por pássaros ferozes? Há inúmeros boatos que envolvem esta produção – mas sabe-se que Hitchcock teria contratado uma equipe especial para treinar as aves para o ataque (inclusive, Hitchcock, devido a problemas com a protagonista, não teria dito o tradicional “Corta!” durante a gravação de uma cena em que a personagem de Tippi é atacada pelos animais – o que teria custado à moça alguns dias no hospital). Em muitos momentos, as aves eram filmadas (em alguns deles, réplicas foram utilizadas, inevitavelmente) e as imagens eram sobrepostas a outras películas, criando três camadas na tela. Em uma cena, por exemplo, Tippi está dentro de uma cabine telefônica (1ª camada), enquanto pássaros sobrevoam o local (2ª camada) em plena luz do dia (3ª camada) – na verdade, foi usada uma pintura a óleo para tal paisagem. Essas três camadas sobrepostas, em tela, ficam tão bem sincronizadas que o espectador quase chega a acreditar que o cenário é totalmente real. Mais um ótimo aspecto técnico a ser mencionado é a maquiagem utilizada, que para a época era de uma realidade fora do comum. Conta-se que Tippi até mesmo teria vomitado ao se olhar no espelho quando maquiada para uma cena em que era atacada tamanha a qualidade da técnica (nem mencionei o homem que é morto pelas criaturas ferozes e tem os olhos arrancados da cabeça – algo que impressiona em um filme da década de 60).

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Outro ponto que merece um destaque especial é a total ausência de trilha sonora. Se em Psicose a música de Bernard Hermann é essencial para criar todo o clima de terror da trama, em Os Pássaros o silêncio musical predomina. Ou melhor, ele é crucial para as sequências de ataque. A edição e mixagem de som é uma das mais primorosas experiências já vista no cinema, transmitindo toda a tensão indispensável à história. Os gorjeios dos animais e seus bicos em contato com a madeira causam uma aflição pungente em quem assiste. Não há músicas nos créditos iniciais ou finais, somente ruídos dos pássaros enquanto a narrativa se desenrola. Em compensação, o suspense não diminui: cada cena, por si, é importante para o bom desenvolvimento da história e seus personagens – interpretados de forma competente por um elenco sem grandes notoriedades. Os Pássaros também foi um dos primeiros filmes a abandonar o clássico “the end” ao final de sua exibição: aqui, a imagem simplesmente esmaece enquanto nossos personagens saem da cidade (o que deixa uma sensação de “o que virá depois?” que nunca vem e faz com que o suspense aumente).

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Mas se engana quem assiste a este clássico apenas como um suspense comum. Ao longo de suas duas horas, Os Pássaros é um filme com certo teor “apocalíptico”, que concentra seu foco não em explicar a origem dos eventos, mas simplesmente no caos. Sim, Os Pássaros é caos puro – e este estado é imprescindível para que Hitchcock possa alcançar o que tanto deseja: criticar o homem e seu convívio com as demais espécies. As aves aparentemente não tem nenhum motivo para atacar quem quer que seja, assim como os homens – mas elas o fazem. Alguns personagens, em certo momento, acreditam que seja algum tipo de “vingança”, mas Hitchcock não perde seu tempo levantando teorias a respeito. Com uma técnica impressionante para o ano em que foi lançado, Os Pássaros talvez hoje possa não causar um impacto tão forte como na época. Em uma Hollywood que aposta cada vez mais alto em efeitos especiais mirabolantes, talvez tampouco seria tão assustador se refilmado com uma tecnologia mais atual. O brilhantismo desta obra está em sua simplicidade, criatividade e, principalmente, na forma genial como Hitchcock consegue contar sua história explorando o medo humano e sua fragilidade diante do caos.

“Toque de Mestre”: Suspense Com Toques de Previsibilidade

Há quem diga que o espanhol Eugenio Mira tenha buscado inspiração em fontes hitchcockianas para dirigir Toque de Mestre (Grand Piano, 2013), que chegou aos cinemas brasileiros esta semana. De fato, Toque de Mestre é um explícito exercício do gênero, apostando praticamente em vários elementos que contribuem para a construção de um bom suspense – mas com alguns erros que o impedem de se tornar uma obra-prima do gênero ou algo memorável.

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A história de Toque de Mestre acompanha o pianista Tom Selznick (Elijah Wood), que retorna aos palcos após 5 anos de um hiato ocasionado por uma apresentação desastrosa, quando teria fracassado ao executar uma das composições preferidas de seu mentor, Patrick Godureaux. No palco, tudo parece ir bem, quando o inseguro Tom folheia sua partitura e descobre mensagens de ameaça de um provável assassino (estrategicamente instalado), cuja exigência maior é que Tom execute seu concerto sem nenhum erro – inclusive a mesma melodia que o pianista executara cinco anos antes e que causara o grande vexame de sua carreira.

Para uma produção com pouco menos de 1 hora e meia, há de se admitir que a narrativa de Toque de Mestre é ideal. O longa retrata praticamente em tempo real cada ação de sua personagem principal – de sua chegada ao teatro ao desfecho da história. O filme funciona excepcionalmente bem até sua primeira parte, ao final do primeiro ato do concerto de Tom (aliás, um elogio merecido fica por conta dos créditos iniciais). Até aqui, tudo parece ir caminhando de forma tranquila e, seguindo a linha hitchcockiana de se fazer suspense, temos um “MacGuffin” (elemento narrativo que move a trama) muito bem definido: o piano único e feito sob encomenda para o tutor do protagonista. Até aqui, o roteiro vem crescendo gradualmente – até atingir o ponto em que o excesso de clichês do gênero tornam o filme um exercício estilístico sem muito apuro.

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Não que Toque de Mestre seja ruim – porém sua previsibilidade atrapalha seu desenvolvimento. O que era para ser um excelente roteiro acaba se tornando um suspense rotineiro, sem muito a oferecer. O filme foca sua narrativa na personagem de Elijah, um pianista que pouco se sabe a respeito e o assassino (vivido por John Cusack – que, ultimamente, aceita o que vier, contanto que lhe paguem…) aparece apenas nos minutos finais do longa, quando a sequência já perdeu quase toda sua força. O personagem de Cusack é escondido durante quase toda a sequência, pois o recurso de voz off aqui é utilizado com excesso – o que aumenta a curiosidade sobre o assassino, apesar de todas as inverossimilhanças quanto à sua real motivação (totalmente implausível).

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Para completar, o elenco foi mal escalado. Elijah Wood (cujo trabalho realmente me agrada) até tentou, mas é um fato: não era a pessoa certa para o personagem. Conhecendo a biografia do protagonista, é difícil para o público associar a imagem de Wood a Tom. Isso fica ainda mais evidente quando Elijah aparece ao lado de Kerry Bishé, a mocinha da trama, insossa e protagonista de uma cena vergonhosa (quando a esposa de Tom canta em meio ao teatro lotado). É difícil enxergar Elijah e Kerry como um casal apaixonado, como sugere o longa; a química entre os dois não rola. Sobre o elenco ainda vale destacar as atuações de Alex Winter e Tamsin Egerton (respectivamente, o assistente do assassino e a amiga chata do casal), recheadas de trejeitos que tornam os personagens apáticos e exagerados. OBS.: Elijah ainda tem aquela mesma cara de pânico de todos seus personagens (ressaltada por seu belo par de grandes olhos azuis) que, me desculpem, já está incomodando.

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Toque de Mestre é um suspense que funciona como suspense – e nada alem disso. Puro exercício de estilo, o filme consegue chamar a atenção do espectador, mas não consegue prendê-la devido à sua previsibilidade. Longe de ser um fiasco, Toque de Mestre possui ainda um final digno de clássicos do estilo hitchcock – mas que não é o suficiente para fazê-lo uma obra-prima. Uma grande pena. Toque de Mestre é um clássico exemplo de filme que se perde dentro de sua previsibilidade e com o excesso de elementos de um gênero.

Os Maiores Vilões do Cinema

Não sei quanto a vocês, mas eu particularmente tenho uma quedinha por personagens com desvio de caráter. Nunca fui fã dos tipos água com açúcar bonzinhos, que fazem tudo em nome do amor e dos bons costumes e blá blá blá… Curto mesmo aquela galera que taca o terror e faz as obras muito mais dinâmicas, divertidas e recheadas de ação.

Portanto, como bom cinéfilo, listei com a ajuda de alguns amigos também de caráter duvidoso os dez maiores vilões da história do cinema. Vou ressaltar que a seleção não pretende listar os personagens mais assustadores ou malvados que já passaram nas telonas – mas sim mostrar aqueles que, de certa forma, todos nós admiramos e preferimos ao invés dos mocinhos e mocinhas chatos e enjoados

1. Alexander Delarge (Laranja Mecânica, 1971)
No filme mais influente de Stanley Kubrick, Malcolm McDowell vive Alex, líder de uma trupe (droogs) que sai pelas ruas agredindo, matando, estuprando e tudo mais o que querem fazer por puro prazer, mesmo que isso cause problemas para os outros. A mente brilhante, no entanto, tem bom gosto e é apreciador da música clássica de Beethoven.

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2. Scar (O Rei Leão, 1994)
Mufasa, o rei da selva, tinha um irmão invejoso, Scar, que planeja a morte do rei e de seu herdeiro, o pequeno Simba. Apesar de não ser tão favorecido fisicamente quanto seu irmão, Scar possuía inteligência e astúcia para elaborar os planos mais maquiavélicos e roubar o trono do irmão.

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3. Freedy Krueger (franquia A Hora do Pesadelo)
Conhecido como “senhor dos sonhos” (pelo incrível poder de controlar o sonho das pessoas), Freedy é o personagem fictício da sequência A Hora do Pesadelo. Freedy era um assassino de crianças de uma pequena cidade norte-americana e após ser queimado pelos pais vingativos, começa a atacar os adolescentes da região em seus sonhos, matando-os no mundo real.

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4. Jack Torrance (O Iluminado, 1980)
Mais um vilão de Stanley Kubrick, Jack Torrance (encarnado brilhantemente pelo genial Jack Nicholson) é um escritor sem inspiração que decide se mudar com a família para um hotel na região do Colorado durante o inverno, onde trabalhará como zelador do local. No entanto, o isolamento lhe causa problemas mentais e o torna cada vez mais agressivo. Bom, pelo menos é o que eu acho de um cara que persegue esposa e filho com um machado – em uma das cenas mais aterrorizantes e famosas do cinema.

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5. Hans Landa (Bastardos Inglórios, 2009)
Ele executa uma família judia logo nas primeiras cenas de Bastardos Inglórios. No filme do cultuadíssimo Quentin Tarantino, Christoph Waltz vive Hans Landa (apelidado gentilmente de “Caçador de Judeus”), um coronel nazista com a missão de localizar judeus na França durante a Segunda Guerra Mundial. A atuação magnífica de Waltz (que lhe rendeu o Oscar de melhor ator coadjuvante), interpretando um tipo cínico, sarcástico e astuto, faz com que Hans se torne um dos vilões que, por mais maldoso que seja, é impossível não amar…

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6. Sauron (franquia O Senhor dos Anéis)
Ainda que quase nunca apareça, Sauron é o principal vilão da saga O Senhor dos Anéis. Na franquia, ele literalmente “causou” na Terra Média, gerando guerras, fome, mortes, destruição e tudo o mais apenas para recuperar sua fonte de poder: o anel do título. No entanto, veja vocês, o todo-poderoso aí foi derrotado por um hobbit. Irônico, não?

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7. Lorde Voldemort (franquia Harry Potter)
Só para ter noção: o cara é tão fodão assustador que tem gente que prefere não pronunciar seu nome e se refere ao vilão como “aquele que não deve ser nomeado” #medo. Interpretado por Ralph Fiennes (aí algo que eu demorei para perceber…), Voldemort representa as trevas no mundo da magia e é temido, inclusive, pelo maior feiticeiro do mundo.

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8. Coringa (Batman – O Cavaleiro das Trevas, 2008)
Heath Ledger interpretou tão intensamente essa personagem que tem muita gente que afirma que Batman – O Cavaleiro das Trevas é o próprio Ledger. De fato, trata-se da melhor atuação do jovem ator, que ficou eternizado na pele do inimigo do homem-morcego. É dele a célebre frase “Why so serious?”, sinônimo do caos que o vilão causava por onde passava. Heath levou o Oscar póstumo de melhor ator coadjuvante por este papel, que faz com que você curta muito mais o vilão do que o mocinho (o insosso Christian Bale)…

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9. Norman Bates (Psicose, 1960)
Personagem de Anthony Perkins, foi o protagonista da famosa cena do chuveiro de Psicose, de Alfred Hitchcock. No filme, Norman é um psicopata, atormentado pela figura materna que sempre o oprimiu. Trata-se de um tipo inocente e monstruoso, único em toda a história do cinema e, provavelmente, um dos mais famosos tipos  da obra do mestre do suspense.

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10. Darth Vader (franquia Star Wars)
Provavelmente, é um dos mais queridos vilões da história do cinema, criado pelo mestre George Lucas. O cara era tão bom (em maldades, quero dizer) que botou  medo em toda a galáxia, matando seu tutor, traindo a Ordem Jedi e se aliando ao lado negro da Força. Não à toa, Darth Vader é o símbolo máximo da saga Star Wars, ganhando a preferência de muitos admiradores da franquia.

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