“A Dama Dourada”: Um Filme Para Inglês Ver

A sequência inicial de A Dama Dourada nos traz uma mulher posando para uma pintura – mais tarde, descobrimos que trata-se do retrato de Adele Bloch-Bauer, feito pelo artista simbolista Gustav Klimt. Em seguida, somos levados para o ano de 1998 e acompanhamos os esforços de Maria Altmann (Helen Mirren), uma judia sobrevivente da Segunda Guerra Mundial, em recuperar o referido quadro, que teria sido roubado de sua família pelos nazistas durante o período de ocupação alemã na Áustria. Para tanto, Altmann enfrenta uma batalha acirrada contra o governo austríaco para reaver a obra de arte  que, na ocasião, estaria exposta em um museu na cidade de Viena.

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Dirigido por Simon Curtis (de Sete Dias Com Marilyn, de 2011), A Dama Dourada é uma típica produção britânica. O que isso quer dizer? Não espere um filme que te emocionará ou trará alguma reflexão muito profunda. A Dama Dourada conta apenas uma história e nada alem disso. Não que isto atrapalhe o produto final. Na verdade, A Dama Dourada é uma boa cinebiografia (até mesmo melhor do que a de Norma Jeane, do mesmo cineasta, vamos admitir), que se desenvolve sobre dois eixos distintos: o primeiro, atual, que refaz a busca pessoal da protagonista para reaver o que é seu por direito; e o segundo que transporta a narrativa aos cruéis anos do Holocausto, recorrendo a flashbacks para recriar os acontecimentos do passado.

No entanto, o argumento não é totalmente redondo. A Dama Dourada não se aprofunda em nenhum dos dois extremos: não chega a emergir no drama dos personagens diante dos horrores da guerra, mas tampouco cria muita expectativa com as cenas de tribunal. Compensa praticamente toda essa deficiência na ótima atuação de Helen Mirren – que, apesar de não ser austríaca, claro, consegue compor um tipo curioso com seu sotaque arrastado e seu grau de cultura e refinamento. Ryan Reynolds, por sua vez, faz um personagem pouco carismático, aquele meio atrapalhado e que devido ao seu péssimo desenvolvimento, não consegue convencer como o bom moço. Apesar disso, Mirren favorece até mesmo o restante do elenco. É interessante notar como as motivações dessas duas pessoas caminham em direções opostas no decorrer da fita: enquanto Altmann reconhece suas limitações diante do caso e passa a encarar a realidade com maior discernimento, o advogado acredita cada vez mais na vitória – um fortalece o outro nos momentos de maiores incertezas.

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A Dama Dourada está longe de ser uma obra-prima – e arriscaria dizer que tecnicamente poderia ter sido melhor (ainda mais por se tratar de um filme sobre “arte”). Faltou talvez uma trilha sonora marcante ou uma fotografia mais forte, algo que proporcionasse certa identidade visual ao longa. É fato que A Dama Dourada tinha um grande potencial, mas perdeu muito de sua força por não ter um propósito maior exceto apenas contar um fato. Em determinado instante no final da trama, um dos personagens suplica à filha “Lembre-se de nós”, em uma curta porém bela cena – como se o diretor também fizesse esse apelo ao público com relação ao filme. Mas será que A Dama Dourada é capaz de despertar isso?

Hitchcock e a Psicose de um Cineasta

Apesar de já ter estreado há algum tempo no circuito norte-americano, Hitchcock – a cinebiografia do diretor homônimo falecido em 1980 – chega, finalmente, às salas nacionais nesta semana. Baseado no livro Alfred Hitchcock and the Making of Psycho, de Stephen Rebello, o filme não se prende à biografia completa do artista – desde sua infância até sua morte, passando por momentos pessoais do cineasta – , mas foca suas lentes no conturbado período que Hitchcock viveu durante as filmagens de Psicose, hoje considerada uma de suas maiores realizaçõest.

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O filme começa com um Hitchcock em crise, após as críticas desfavoráveis de seu último trabalho, Intriga Internacional, de 1959 (de fato, houve especialistas que alegaram até mesmo que Alfred deveria se aposentar após o fiasco da produção). Sem nenhum novo projeto em mente, ele procura uma nova história que possa provar a todos que ele ainda é um grande artista, quando tem a ideia de levar às telas a adaptação da trama de Robert Bloch.

Hitchcock era um gênio incontrolável. Quando comprou os direitos do livro que deu origem ao filme, também gastou mais uma grana comprando todos os exemplares disponíveis no mercado para que nenhuma pessoa conhecesse o final da história. Sem apoio dos estúdios (que não queriam apostar suas fichas no projeto de Hitchcock), o diretor teve praticamente que produzir o filme sozinho – chegando inclusive a hipotecar a casa em que morava.

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A cinebiografia concentra suas forças na imagem de Hitchcock, brilhantemente interpretado pelo premiado Anthony Hopkins. Infelizmente, o talento do ator não foi devidamente reconhecido por um detalhe que deveria ajudar, mas acabou atrapalhando: a maquiagem. De fato, nas primeiras imagens promocionais que foram lançadas, não havia dúvidas de que Hopkins era o próprio Hitchcock. Em cena, no entanto, o trabalho do ator acaba ficando escondido por trás da maquiagem em excesso, que chega inclusive a camuflar as expressões de Hopkins.

Um grande mérito de Hitchcock se encontram na maneira como o diretor de primeira viagem Sasha Gervasi consegue retratar a figura do cineasta com pequenos detalhes. Seja no perfeccionismo exacerbado, seja na aversão de Hitchcock à dietas, seja no seu relacionamento com as protagonistas de suas obras, tudo é recriado com muita sutileza. Mas a sutileza maior está na atuação de Helen Mirren, como a esposa de Hitchcock.

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Tem gente que alega que Hitchcock nada mais é do que um pretexto para exaltar a figura de Alma Reville, roteirista que foi durante muito tempo o pilar da obra hitchcockiana. Ela foi uma figura primordial na carreira do diretor, mesmo durante Psicose (afinal, que mulher aceitaria hipotecar sua própria casa para satisfazer as idéias do marido egocêntrico?). Mirren (já premiada pela Academia em 2007 por A Rainha) consegue ser segura em sua atuação, tornando o personagem de Hopkins quase que um próprio MacGuffin (termo que o próprio criou para explicar aquilo que, em sua filmografia, motiva seus personagens).

Também se destaca, ainda que timidamente, a relação do Hitch com suas protagonistas (loiras, obviamente). O filme até mesmo sugere a relação pouco amistosa que Alfred mantinha com Vera Miles (Jessica Biel), que teria desistido de trabalhar com ele às vésperas do início das gravações de Um Corpo Que Cai – deixando Hitchcock aos berros. O longa também mostra a relação equilibrada que o diretor teve com Janet Leigh (aqui, interpretada pela sensualíssima Scarlett Johansson), a protagonista de Psicose que, apesar do que rezam as lendas, alega não ter tido grandes dificuldades de ter filmado a famosa cena do chuveiro (clássica no cinema mundial).

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No final, Hitchcock é um belo presente aos fãs de Hitchcock. Com um belo prólogo e uma cena final, na minha opinião, que valem todo o restante do longa, o filme consegue ser um excelente trabalho para um estreante e me lembra, vagamente, o mesmo que Tim Burton fez com Ed Wood na cinebiografia do “pior diretor do mundo”, em 1994 (a cena final, apesar de não ser em preto e branco, como na obra de Burton, me fez recordar de imediato a cena burtoniana). Assim como na obra de Tim Burton, Sasha não pretende aqui se prender apenas a fatos pessoais, mas sim em um momento específico da carreira do diretor. Apesar de não ter tido toda a repercussão nas bilheterias quanto prometeu durante sua divulgação, o filme tem um bom ritmo e pode ser encarado como um bom produto de entretenimento. Como biografia propriamente, no entanto, faltou ainda alguma coisa que pudesse fazer o espectador se identificar e admirar ainda mais a figura do cineasta.  Pelo menos, Hitchcock ainda é um grande mestre aos olhos do público.