“Jogada de Mestre”: Encenação Sem Carisma

O cenário de Jogada de Mestre, novo filme de Daniel Alfredson (das versões suecas da trilogia Millenium) é Amsterdã e o contexto social é a crise econômica européia no início da década de 80, que levou muita gente à falência naquela ocasião. Entre esses azarados está um grupo de amigos que, após ter um empréstimo negado pelo banco, decide sequestrar um magnata local para receber em troca um resgate milionário – que se tornaria, na época, no maior valor pago da história.

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A trama é baseada no caso real que envolveu o bilionário Freddy Heineken, herdeiro de uma das maiores cervejarias do mundo. Isso não torna o filme teoricamente limitado – um fato comum em produções inspiradas em episódios reais é que há pouco espaço para se desenvolver a narrativa, uma vez que a ideia é, geralmente, retratar aquele momento como, de fato, aconteceu. O grande problema de Jogada de Mestre é a direção de Alfredson, que deixa o filme pouco atraente, apesar de ser um entretenimento suficiente se você não estiver esperando nada alem de uma encenação sem muito requinte.

Confuso em inúmeras ocasiões, o cineasta escorrega no desenvolvimento dos personagens principais – e, como resultado, o público é incapaz de torcer por qualquer um deles (tanto vítimas quanto bandidos). Outro detalhe que prejudicou muito é o enquadramento e a edição atropelada, com takes rápidos que deixam a sensação de amadorismo, como se um pedaço da fita tivesse ficado de fora (há um erro de edição grotesco quando um dos meliantes aparece vestindo uma jaqueta e segundos depois está com uma camiseta, sem a menor marcação de tempo ou justificativa). A fotografia escura também chega a incomodar em certos momentos, assim como as mudanças bruscas de planos, especialmente nas sequências de ação, ocasionando cenas pouco excitantes – para não dizer “ruins”.

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Com um elenco formado por astros em ascensão (Sam Worthington, Jim Sturgess, Ryan Kwanten, entre outros) que encaram bem a empreitada e um Anthony Hopkins em visível estado de inércia, Jogada de Mestre é um bom programa para se assistir no cinema sem muito compromisso (ainda mais em uma temporada que está bem fraca, diga-se de passagem) e apenas isso. Talvez com uma direção mais experiente, o longa fosse mais interessante. Infelizmente, não passa de uma dramatização simples, sem carisma, profundidade ou algo mais que a torne memorável.

O Homem Elefante

01Confesso que conhecia David Lynch apenas de ouvir falar e ainda não tinha tido a oportunidade de assistir a nenhum de seus filmes (ao menos, não me senti muito interessado em sua filmografia, para ser honesto). Quando recebi o desafio de escrever sobre um de seus longas, questionei a um amigo (um fã inveterado do diretor) qual seria um bom ponto de partida para mim – e, de prontidão, obtive a resposta: “Assista e escreva sobre O Homem Elefante“. E a sugestão não poderia ter sido melhor.

Baseado em uma história real, a trama de O Homem Elefante nos leva a Inglaterra vitoriana do século XIX e retrata o drama de John Merrick (John Hurt), um homem que sofria de uma doença grave (um tipo raro de neurofibromatose múltipla) que deformava quase todo o seu corpo – e, por conta disso, era tratado como aberração. Após ser exibido durante anos em “circos de horrores” pela capital inglesa (os famosos freak shows, uma febre na época), John é descoberto por um médico do hospital de Londres, o renomado Frederick Treves (Anthony Hopkins) – que, com o passar dos dias, fica cada vez mais fascinado com a figura de Merrick.

Como não tive nenhum contato anterior com a obra de Lynch, não tenho muitos parâmetros para comparar O Homem Elefante com nada que ele já tenha feito. De certa forma, isso foi saudável pois pude absorver o filme individualmente, sem referências – e nessa empreitada, me deparei com uma narrativa de extremo requinte, especialmente em seu roteiro, que não apressa os fatos e paulatinamente vai surpreendendo o espectador com o progresso da personagem título. Se no início da trama Merrick nos é apresentado como uma aberração humana e desde sempre diagnosticado como um doente mental, aos poucos ele se revela um indivíduo com plena normalidade intelectual. Mais do que isso: Merrick é uma pessoa amistosa, amável e digna de afeto. O espectador acompanha esta descoberta junto com Merrick e Frederick – porém, diferente deste último, o público não tem o poder de agir sobre os acontecimentos, sendo meros observadores.

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Outro ponto que merece destaque em O Homem Elefante é a fotografia em preto e branco que, junto a bela direção de arte, contribui muito para transportar o espectador diretamente para a Londres do século XIX, em plena efervescência da Revolução Industrial, causando um clima mais opressivo ao longa. É ainda interessante notar que toda esta ambientação nos remete de imediato ao expressionismo alemão e, de certa forma, também aos filmes de terror britânicos das décadas de 40 e 50 – escolas que são referências até hoje na linguagem cinematográfica. A maquiagem também é primordial para a caracterização do protagonista, sendo indispensável para o ótimo desempenho de John Hurt – que inclusive foi indicado ao Oscar de melhor ator naquele ano. Se o público é capaz de se solidarizar com Merrick, Hurt tem todos os méritos pois o desenvolvimento de sua personagem é louvável (desde as expressões corporais desengonçadas do início da fita até a doçura e mansidão que aquele ser deformado demonstra ter por todos).

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Com uma trilha sonora um tanto “pesada” (que, a seu modo, é puro “circense”) que ressalta o ar dramático, O Homem Elefante promove alguns debates importantes, sendo que o principal deles é a crítica precisa à sociedade do espetáculo: mesmo fora dos palcos, John continua a ser um mero objeto “espetáculo”, não muito diferente de sua condição anterior. No melhor estilo “fera” (feio por fora, mas belo por dentro), John nunca deixa de chamar a atenção e ser um tipo que desperta curiosidade. O que é impressionante (e também é um tema a ser discutido aqui) é o quanto o “diferente”, o “novo” acabam por chocar as pessoas e causar preconceito. Esse talvez seja o grande êxito do cineasta: David utiliza o passado para criticar o seu presente – fazendo com que O Homem Elefante sobreviva aos tempo e seja atemporal em sua proposta.

Hitchcock e a Psicose de um Cineasta

Apesar de já ter estreado há algum tempo no circuito norte-americano, Hitchcock – a cinebiografia do diretor homônimo falecido em 1980 – chega, finalmente, às salas nacionais nesta semana. Baseado no livro Alfred Hitchcock and the Making of Psycho, de Stephen Rebello, o filme não se prende à biografia completa do artista – desde sua infância até sua morte, passando por momentos pessoais do cineasta – , mas foca suas lentes no conturbado período que Hitchcock viveu durante as filmagens de Psicose, hoje considerada uma de suas maiores realizaçõest.

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O filme começa com um Hitchcock em crise, após as críticas desfavoráveis de seu último trabalho, Intriga Internacional, de 1959 (de fato, houve especialistas que alegaram até mesmo que Alfred deveria se aposentar após o fiasco da produção). Sem nenhum novo projeto em mente, ele procura uma nova história que possa provar a todos que ele ainda é um grande artista, quando tem a ideia de levar às telas a adaptação da trama de Robert Bloch.

Hitchcock era um gênio incontrolável. Quando comprou os direitos do livro que deu origem ao filme, também gastou mais uma grana comprando todos os exemplares disponíveis no mercado para que nenhuma pessoa conhecesse o final da história. Sem apoio dos estúdios (que não queriam apostar suas fichas no projeto de Hitchcock), o diretor teve praticamente que produzir o filme sozinho – chegando inclusive a hipotecar a casa em que morava.

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A cinebiografia concentra suas forças na imagem de Hitchcock, brilhantemente interpretado pelo premiado Anthony Hopkins. Infelizmente, o talento do ator não foi devidamente reconhecido por um detalhe que deveria ajudar, mas acabou atrapalhando: a maquiagem. De fato, nas primeiras imagens promocionais que foram lançadas, não havia dúvidas de que Hopkins era o próprio Hitchcock. Em cena, no entanto, o trabalho do ator acaba ficando escondido por trás da maquiagem em excesso, que chega inclusive a camuflar as expressões de Hopkins.

Um grande mérito de Hitchcock se encontram na maneira como o diretor de primeira viagem Sasha Gervasi consegue retratar a figura do cineasta com pequenos detalhes. Seja no perfeccionismo exacerbado, seja na aversão de Hitchcock à dietas, seja no seu relacionamento com as protagonistas de suas obras, tudo é recriado com muita sutileza. Mas a sutileza maior está na atuação de Helen Mirren, como a esposa de Hitchcock.

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Tem gente que alega que Hitchcock nada mais é do que um pretexto para exaltar a figura de Alma Reville, roteirista que foi durante muito tempo o pilar da obra hitchcockiana. Ela foi uma figura primordial na carreira do diretor, mesmo durante Psicose (afinal, que mulher aceitaria hipotecar sua própria casa para satisfazer as idéias do marido egocêntrico?). Mirren (já premiada pela Academia em 2007 por A Rainha) consegue ser segura em sua atuação, tornando o personagem de Hopkins quase que um próprio MacGuffin (termo que o próprio criou para explicar aquilo que, em sua filmografia, motiva seus personagens).

Também se destaca, ainda que timidamente, a relação do Hitch com suas protagonistas (loiras, obviamente). O filme até mesmo sugere a relação pouco amistosa que Alfred mantinha com Vera Miles (Jessica Biel), que teria desistido de trabalhar com ele às vésperas do início das gravações de Um Corpo Que Cai – deixando Hitchcock aos berros. O longa também mostra a relação equilibrada que o diretor teve com Janet Leigh (aqui, interpretada pela sensualíssima Scarlett Johansson), a protagonista de Psicose que, apesar do que rezam as lendas, alega não ter tido grandes dificuldades de ter filmado a famosa cena do chuveiro (clássica no cinema mundial).

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No final, Hitchcock é um belo presente aos fãs de Hitchcock. Com um belo prólogo e uma cena final, na minha opinião, que valem todo o restante do longa, o filme consegue ser um excelente trabalho para um estreante e me lembra, vagamente, o mesmo que Tim Burton fez com Ed Wood na cinebiografia do “pior diretor do mundo”, em 1994 (a cena final, apesar de não ser em preto e branco, como na obra de Burton, me fez recordar de imediato a cena burtoniana). Assim como na obra de Tim Burton, Sasha não pretende aqui se prender apenas a fatos pessoais, mas sim em um momento específico da carreira do diretor. Apesar de não ter tido toda a repercussão nas bilheterias quanto prometeu durante sua divulgação, o filme tem um bom ritmo e pode ser encarado como um bom produto de entretenimento. Como biografia propriamente, no entanto, faltou ainda alguma coisa que pudesse fazer o espectador se identificar e admirar ainda mais a figura do cineasta.  Pelo menos, Hitchcock ainda é um grande mestre aos olhos do público.