A Mão Que Balança o Berço

Rebecca De Mornay não faria nada tão expressivo em sua carreira após o sucesso de A Mão Que Balança o Berço, um thriller de Curtis Hanson (de Los Angeles – Cidade Proibida) que foi amplamente elogiado pelo público e crítica na época de seu lançamento. Na trama, Rebecca dá vida a Peyton Flanders, uma babá que passa a atormentar a vida de uma família para vingar a morte de seu esposo.

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Com um roteiro simples mas conciso, que vai nos dando pistas sobre os atos de Peyton mas sem se perder no meio-campo tentando explicar suas motivações, Hanson é eficiente quanto diretor ao transpor a história para a tela sem grandezas ou inventices. Do ponto de vista técnico, inclusive, A Mão que Balança o Berço é um filme que não chega a ser brilhante – na verdade, é bem mediano em diversos momentos. Porém é nítido o talento do cineasta para as sequências de suspense, que cresce à medida que a fita se desenrola e quase chega a alcançar o terror psicológico – não ao nível de um Polanski (com sua excepcional Trilogia do Apartamento) ou um Kubrick (com o aclamado O Iluminado), mas o suficiente para despertar o interesse do espectador com a trama de uma mulher com sede de vingança.

02Rebecca faz uma atuação coerente e bem articulada, sendo a escolha perfeita para o papel. Seu talento é imprescindível para a construção de Peyton, que ora é pura inocência, ora é pura maldade – o anjo e o demônio na mesma pessoa. As nuanças de Peyton são bem delineadas por De Mornay, que recebeu bastante atenção na época (não ao ponto de ganhar uma indicação a um grande prêmio, mas o suficiente para coloca-la no rol de personagens femininas mais interessantes do cinema). Soma-se ao elenco Annabella Sciorra, a dona de casa tranquila, porém frágil, alheia a todos atos da babá – a mocinha ideal, que ainda tem crises de asma, aumentando sua fraqueza diante das telas; e também uma Julianne Moore em início de carreira, com um tipo extravagante e esperto que chega a ter seu devido ponto alto na narrativa.

Apesar de a história não apresentar nada significativamente novo, A Mão que Balança o Berço nos traz personagens que são verossímeis – e isso é importante para que o público se identifique com o núcleo central. Trata-se de um filme bem feito e redondo, com um roteiro bem construído que pode até não marcar a vida do espectador, mas é suficiente para prender sua atenção durante a projeção.

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Frenesi

Londres, década de 70. Uma série de crimes inquieta a polícia local: mulheres são estupradas e assassinadas por um maníaco sexual que as asfixia com uma gravata. Após o assassinato de sua ex-esposa, o fracassado Richard Blaney passa a ser o principal suspeito dos crimes. Preso injustamente, sua missão agora é provar sua inocência e incriminar o verdadeiro culpado.

01Esta é a sinopse de Frenesi, o penúltimo filme de Alfred Hitchcock, lançado em 1972. Frenesi traz o mestre do suspense de volta aos holofotes após uma sequencia de películas que dividiram a público e o deixaram meio desacreditado entre os grandes produtores (na ordem, Marnie, Confissões de Uma Ladra; Cortina Rasgada; e Topázio – este último amargando duras críticas e considerado por muitos o seu trabalho mais irregular). Não que estes filmes sejam ruins; de fato, há de se admitir que todos eles são superiores a muita coisa produzida na época. Mas faltava aquela identidade do cineasta presente em toda sua carreira. Talvez por essa razão, o longa foi muito bem saudado como a volta de Hitchcock ao gênero que o consagrou e o tornou um nome tão importante na história do cinema – um dos maiores contribuidores à sétima arte.

Frenesi marca o retorno do cineasta à Inglaterra, sua terra natal (aliás, o longa já se inicia com uma ótima tomada aérea de Londres por cima do rio, aterrissando no mercado da cidade – locação central da narrativa). Marca também a volta de Hitchcock a um recurso muito comum em suas tramas: um homem acusado de um crime que não cometeu. Esses dois pontos foram cruciais para o sucesso da obra que, apesar de não acrescentar nada significativamente novo à filmografia de Alfred, diverte e entretém. Tudo funciona de forma concisa, ainda que a impressão que se tem é a de que Frenesi é uma espécie de apanhado geral de ideias e recursos já vistos e utilizados anteriormente.

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Mas se engana quem achar que Frenesi não tem outros méritos. Frenesi é, de longe, o filme mais violento da carreira de Hitchcock. Muito mais cru do que em seus trabalhos anteriores, a violência em Frenesi é mais explicita. A sequência do assassinato (e estupro) de Brenda Blaney, para a época, poderia ser comparada a qualquer cena de pancadaria tarantinesca hoje. Há, alem disso, inúmeras cenas de nudez, que o diretor filma com bastante naturalidade e não chega necessariamente a “chocar”, pois o espectador sabe que a nudez é importante dentro do contexto daquele momento. Frenesi também apresenta um roteiro muito bem humorado – aliás, o humor quase se mistura ao suspense devido aos inúmeros percalços pelos quais seus personagens passam. O humor aqui trafega por vários tipos, do mais “bobo” (as comidas intragáveis que o inspetor de polícia é obrigado a provar para agradar a esposa) ao mais “negro” (um corpo boiando no Tâmisa enquanto um político londrino discursa sobre a limpeza do rio).

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Jon Finch (que um ano antes estrelou o polêmico Macbeth, de Roman Polanski) dá vida ao protagonista que, apesar de ser um sujeito não muito simpático, desperta certa compaixão no público. Mesmo não caindo de amores por Richard, o espectador torce para que ele consiga provar sua inocência e se vingar de Robert Rusk, o comerciante vivido por Barry Foster (um tipo detestável já nas cenas iniciais, com todo seu ar de “amigão, camarada” que soa, de cara, falso e forçado). Aliás, deve-se abrir um espaço aqui para elogiar o belo trabalho de direção de Alfred: diferente dos suspenses tradicionais onde o culpado só é revelado ao final da trama, Frenesi apresenta o criminoso antes da metade da projeção – mas nem por isso o filme perde interesse. Pelo contrário: Hitchcock conduz tão bem o roteiro de Anthony Shaffer que o público se sente impelido a acompanhar o desfecho da história, torcendo para que o verdadeiro assassino pague por seus crimes.

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Apesar de recorrer a alguns clichês de sua própria obra, Hitchcock faz um filme claramente mais popular (a começar pela trilha sonora de Ron Goodwin, muito mais comercial do que qualquer coisa já feita por Bernard Herrman, velho companheiro de Alfred). Talvez isso tenha sido culpa dos próprios estúdios, que participavam efetivamente da produção do longa e, de certa maneira, “engessavam” a criatividade do cineasta (algo do qual o diretor reclamou algumas vezes). Com Frenesi, ainda que com algumas amarras, Hitchcock mostrou que ainda tinha prestígio dentro dos estúdios e, principalmente, ainda tinha cacife e boa forma para fazer bons trabalhos. Frenesi aposta em algumas velhas receitas batidas para criar um filme que, apesar de não inovar, funciona bem para o seu propósito, se tornando indispensável para os fãs do cinema hitchcockiano.

Os Pássaros

Há muitas obras de Alfred Hitchcock que comprovam o talento inegável do cineasta inglês, mas Os Pássaros (1963) é a que, provavelmente, mais ateste sua alcunha de “mestre do suspense”. Lançado três anos após o unânime sucesso Psicose (considerado por muitos a sua obra-prima), Os Pássaros é uma espécie de cartão de visita para os que querem conhecer o trabalho do diretor, se revelando um filme que vai muito alem do tradicional suspense.

Estrelada por Tippi Hedren e Rod Taylor, a trama de Os Pássaros é, relativamente, simples. Uma jovem rica vai até a pequena e isolada cidade de Bodega Bay, na Califórnia, a procura de um rapaz por quem se interessara em São Francisco. Ao chegar à pacata região, ela não apenas se aproxima do homem e sua família, mas presencia também um fato bastante incomum: pássaros das mais variadas espécies começam a atacar a população, causando pânico nos moradores locais.

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Para o espectador que lê uma sinopse superficial como esta, é possível que Os Pássaros se aproxime muito mais de um “terror” do que necessariamente um “suspense”. Obviamente, esses dois gêneros são bastante próximos, mas não são iguais. Definitivamente, Os Pássaros é um filme que não “assusta”, no sentido próprio da palavra – mas incomoda, causa desconforto, agonia e faz com que o público se contorça na cadeira com suas sequências aterrorizantes de perseguição e ataque. Isso só é possível por conta do ótimo roteiro de Daphne Du Maurier e Evan Hunter, que mantém um equilíbrio ao oscilar cenas de ação com períodos mais calmos (mas não menos estimulantes, como os diálogos que ajudam a construir a história e estender o pânico causado nas sequências de histeria).

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Do ponto de vista técnico, Os Pássaros é ainda mais surpreendente – afinal, como levar às telas de cinema, no início da década de 60, a história de uma cidade atacada por pássaros ferozes? Há inúmeros boatos que envolvem esta produção – mas sabe-se que Hitchcock teria contratado uma equipe especial para treinar as aves para o ataque (inclusive, Hitchcock, devido a problemas com a protagonista, não teria dito o tradicional “Corta!” durante a gravação de uma cena em que a personagem de Tippi é atacada pelos animais – o que teria custado à moça alguns dias no hospital). Em muitos momentos, as aves eram filmadas (em alguns deles, réplicas foram utilizadas, inevitavelmente) e as imagens eram sobrepostas a outras películas, criando três camadas na tela. Em uma cena, por exemplo, Tippi está dentro de uma cabine telefônica (1ª camada), enquanto pássaros sobrevoam o local (2ª camada) em plena luz do dia (3ª camada) – na verdade, foi usada uma pintura a óleo para tal paisagem. Essas três camadas sobrepostas, em tela, ficam tão bem sincronizadas que o espectador quase chega a acreditar que o cenário é totalmente real. Mais um ótimo aspecto técnico a ser mencionado é a maquiagem utilizada, que para a época era de uma realidade fora do comum. Conta-se que Tippi até mesmo teria vomitado ao se olhar no espelho quando maquiada para uma cena em que era atacada tamanha a qualidade da técnica (nem mencionei o homem que é morto pelas criaturas ferozes e tem os olhos arrancados da cabeça – algo que impressiona em um filme da década de 60).

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Outro ponto que merece um destaque especial é a total ausência de trilha sonora. Se em Psicose a música de Bernard Hermann é essencial para criar todo o clima de terror da trama, em Os Pássaros o silêncio musical predomina. Ou melhor, ele é crucial para as sequências de ataque. A edição e mixagem de som é uma das mais primorosas experiências já vista no cinema, transmitindo toda a tensão indispensável à história. Os gorjeios dos animais e seus bicos em contato com a madeira causam uma aflição pungente em quem assiste. Não há músicas nos créditos iniciais ou finais, somente ruídos dos pássaros enquanto a narrativa se desenrola. Em compensação, o suspense não diminui: cada cena, por si, é importante para o bom desenvolvimento da história e seus personagens – interpretados de forma competente por um elenco sem grandes notoriedades. Os Pássaros também foi um dos primeiros filmes a abandonar o clássico “the end” ao final de sua exibição: aqui, a imagem simplesmente esmaece enquanto nossos personagens saem da cidade (o que deixa uma sensação de “o que virá depois?” que nunca vem e faz com que o suspense aumente).

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Mas se engana quem assiste a este clássico apenas como um suspense comum. Ao longo de suas duas horas, Os Pássaros é um filme com certo teor “apocalíptico”, que concentra seu foco não em explicar a origem dos eventos, mas simplesmente no caos. Sim, Os Pássaros é caos puro – e este estado é imprescindível para que Hitchcock possa alcançar o que tanto deseja: criticar o homem e seu convívio com as demais espécies. As aves aparentemente não tem nenhum motivo para atacar quem quer que seja, assim como os homens – mas elas o fazem. Alguns personagens, em certo momento, acreditam que seja algum tipo de “vingança”, mas Hitchcock não perde seu tempo levantando teorias a respeito. Com uma técnica impressionante para o ano em que foi lançado, Os Pássaros talvez hoje possa não causar um impacto tão forte como na época. Em uma Hollywood que aposta cada vez mais alto em efeitos especiais mirabolantes, talvez tampouco seria tão assustador se refilmado com uma tecnologia mais atual. O brilhantismo desta obra está em sua simplicidade, criatividade e, principalmente, na forma genial como Hitchcock consegue contar sua história explorando o medo humano e sua fragilidade diante do caos.

Suspense Nazista em “O Médico Alemão”

01A trama de O Médico Alemão nos leva ao cenário argentino dos anos 60, onde uma família em travessia pela Patagônia, rumo a Bariloche, conhece um curioso e suposto cientista cuja personalidade e identidade lhe são desconhecidas. Ao chegar a seu destino, o médico é acolhido como primeiro hóspede do hotel da família e logo se apega à caçula Lilith, uma menina de doze anos com visíveis problemas de crescimento e que sofre discriminação no colégio por conta de seu pequeno porte. Sob o consentimento da mãe (e às escondidas do pai), o médico se propõe a ajudar a garota através de um tratamento que envolve a aplicação de hormônios, prometendo-lhe uma aceleração em seu crescimento e que seria, naquele momento, indispensável para o desenvolvimento sadio da menina – já na fase da puberdade.

Mais tarde, descobrimos que o médico em questão é Josef Mengele, conhecido como “Anjo da Morte” – que atuou no campo de Auschwitz durante a Segunda Guerra Mundial e fazia experimentos com judeus refugiados, especialmente crianças. Porém, essa identidade não é explícita: aos poucos, a diretora Lucía Puenzo vai fornecendo ao espectador as pistas necessárias para que o mistério desta personalidade doentia seja desvendado. E, contrariando o que se poderia imaginar, ao descobrir a identidade do médico o interesse do espectador pelo filme não diminui; ao contrário, ele gradativamente aumenta à medida que a relação do médico com a garota se torna mais estabelecida (no início, sugere-se até mesmo uma conotação sexual, que logo se extingue no decorrer da história).

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Lilith, que desde que chegou à cidade sofre no colégio nas mãos de seus colegas (o que já demonstra a influência alemã naquela região), vê Helmut (o nome falso do alemão) como um herói, capaz de ajuda-la a superar uma limitação que a torna motivo de discriminação entre as crianças de seu grupo. Enquanto Helmut vê Lilith exclusivamente como uma cobaia para seus experimentos (anotando todos os pontos mais importantes de seu tratamento), a garota tem apenas bons olhos para o “vilão” – e quando percebe que algo está errado consigo, já é tarde demais: o cientista foge e nada mais resta.

Com uma fotografia cinzenta em boa parte de sua projeção (acentuando ainda mais a chegada do inverno naquela região), a edição do filme fica mais rápida no decorrer da história, ajudando a aumentar o “suspense” do filme, especialmente nos instantes finais. O trabalho de direção é primoroso ao deixar de lado o suspense “gráfico” (não há nada escancarado na tela) e apostar na tensão progressiva, construindo no médico a figura típica de um psicopata – mas sem trata-la com uma condenação prévia (algo recorrente em filmes que tratam este triste período da História).

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Só que muito mais do que um mero suspense sob o período pós-nazista na Argentina ou uma biografia de um nome tão polêmico na História, O Médico Alemão é também um drama sobre a transição feminina da infância para a fase adolescente, especialmente no que se refere à descoberta do corpo (um tema que a diretora já abordou anteriormente, no seu longa de estreia, o elogiado XXY, em 2007). Há aqui, por exemplo, a figura do namoradinho do colégio, o que reforça de certa forma a tensão sexual de um roteiro muito bem desenvolvido. Mas não apenas isso: com uma direção precisa, O Médico Alemão é bom exemplo de filme que cresce e, mesmo que não seja grandioso, atinge uma maturidade difícil de se encontrar no cinema atual.

Quebrando a Cabeça com “O Homem Duplicado”

O que você faria se descobrisse ao acaso que existe uma pessoa em algum lugar do mundo fisicamente idêntica a você? Tal situação pode parecer, de fato, estranha. Mas qual seria sua reação ao enxergar a si mesmo no corpo de outro ser? Muito mais do que simples aspectos físicos, há questões comportamentais e psicológicas que fatalmente seriam discutidas – e são essas últimas que o canadense Denis Villeneuve tenta conduzir em seu filme O Homem Duplicado.

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Baseado no livro homônimo do português José Saramago, O Homem Duplicado (título brasileiro para Enemy) nos apresenta a Adam, um professor de história com evidente propensão à depressão que descobre, ao assistir a um filme indicado por um amigo, que existe outro homem, não muito distante, fisicamente idêntico a si mesmo. Atordoado com a situação, ele procura seu suposto sósia – um ator com temperamento e personalidade bastante opostos ao de Adam. Aos poucos, se desenvolve uma relação obsessiva de perseguição entre os dois homens, com um querendo roubar a vida do outro e, principalmente, tentando achar uma resposta ou significado para todo este enredo.

Com um início que causa certo estranhamento, O Homem Duplicado tem um clima sufocante. Talvez o mérito por isso seja da excelente trilha sonora, que ajuda a acentuar a atmosfera de suspense do longa. É como se a qualquer momento alguma coisa fosse acontecer – e isso faz com que o espectador não desgrude os olhos da tela. Ponto também para a boa direção de Villeneuve, que valoriza o tema proposto por Saramago e conduz bem a narrativa, de forma que o público a todo momento tem a sensação de que tudo não passa de um suspense comum – quando na verdade, a proposta é muito mais subjetiva.

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A atuação de Jake Gyllenhaal também favorece muito o andamento da narrativa. Vivendo os dois personagens principais do filme, Jake consegue desenvolver ambas as personagens com nuanças sutis que fazem com que os dois homens sejam bem diferentes. Jake oscila com total controle de cena as diferenças psicológicas, comportamentais e emocionais de Adam e Anthony (o segundo homem) – o que é uma surpresa boa, vindo de um artista até hoje mediano. Nitidamente, vemos o amadurecimento do artista – que acompanhado de boas escolhas, certamente o tornarão um bom ator no futuro. A francesa Mélanie Laurent também tem uma atuação concisa, assim como Sarah Gandon, com quem forma praticamente o núcleo feminino da produção.

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Finalmente, mas não menos importante, há de se dizer que O Homem Duplicado não é fácil. A história é intrigante, mas suas inúmeras teorias, referências e críticas implícitas fazem com que, ao final de seus noventa minutos, o espectador fique com a sensação de que não entendeu absolutamente nada – sendo indispensável uma segunda sessão de cinema ou uma visita a fóruns na Internet para se pesquisar a respeito. O cineasta claramente nos despeja um monte de informações, sem nenhum significado para o público ou mesmo para seu protagonista e, apesar da cena improvável, caminha para um final obscuro e surreal, assim como seu início. Não que isso atrapalhe o produto final. Na verdade, O Homem Duplicado é uma daquelas histórias que não fazem questionamentos e onde tudo é metafórico – o que abre margens para diversas interpretações. Ou talvez, como alguns possam alegar, tudo não passa de alegoria do cineasta que acabou sendo mal explicada e prejudicando o filme. De qualquer forma, para os menos “intelectuais”, O Homem Duplicado vale como suspense. Para os que curtem quebrar a cabeça, vale levantar as milhares de hipóteses que o filme proporciona – ainda que você nunca vá saber qual o sentido de todas elas.

“Toque de Mestre”: Suspense Com Toques de Previsibilidade

Há quem diga que o espanhol Eugenio Mira tenha buscado inspiração em fontes hitchcockianas para dirigir Toque de Mestre (Grand Piano, 2013), que chegou aos cinemas brasileiros esta semana. De fato, Toque de Mestre é um explícito exercício do gênero, apostando praticamente em vários elementos que contribuem para a construção de um bom suspense – mas com alguns erros que o impedem de se tornar uma obra-prima do gênero ou algo memorável.

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A história de Toque de Mestre acompanha o pianista Tom Selznick (Elijah Wood), que retorna aos palcos após 5 anos de um hiato ocasionado por uma apresentação desastrosa, quando teria fracassado ao executar uma das composições preferidas de seu mentor, Patrick Godureaux. No palco, tudo parece ir bem, quando o inseguro Tom folheia sua partitura e descobre mensagens de ameaça de um provável assassino (estrategicamente instalado), cuja exigência maior é que Tom execute seu concerto sem nenhum erro – inclusive a mesma melodia que o pianista executara cinco anos antes e que causara o grande vexame de sua carreira.

Para uma produção com pouco menos de 1 hora e meia, há de se admitir que a narrativa de Toque de Mestre é ideal. O longa retrata praticamente em tempo real cada ação de sua personagem principal – de sua chegada ao teatro ao desfecho da história. O filme funciona excepcionalmente bem até sua primeira parte, ao final do primeiro ato do concerto de Tom (aliás, um elogio merecido fica por conta dos créditos iniciais). Até aqui, tudo parece ir caminhando de forma tranquila e, seguindo a linha hitchcockiana de se fazer suspense, temos um “MacGuffin” (elemento narrativo que move a trama) muito bem definido: o piano único e feito sob encomenda para o tutor do protagonista. Até aqui, o roteiro vem crescendo gradualmente – até atingir o ponto em que o excesso de clichês do gênero tornam o filme um exercício estilístico sem muito apuro.

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Não que Toque de Mestre seja ruim – porém sua previsibilidade atrapalha seu desenvolvimento. O que era para ser um excelente roteiro acaba se tornando um suspense rotineiro, sem muito a oferecer. O filme foca sua narrativa na personagem de Elijah, um pianista que pouco se sabe a respeito e o assassino (vivido por John Cusack – que, ultimamente, aceita o que vier, contanto que lhe paguem…) aparece apenas nos minutos finais do longa, quando a sequência já perdeu quase toda sua força. O personagem de Cusack é escondido durante quase toda a sequência, pois o recurso de voz off aqui é utilizado com excesso – o que aumenta a curiosidade sobre o assassino, apesar de todas as inverossimilhanças quanto à sua real motivação (totalmente implausível).

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Para completar, o elenco foi mal escalado. Elijah Wood (cujo trabalho realmente me agrada) até tentou, mas é um fato: não era a pessoa certa para o personagem. Conhecendo a biografia do protagonista, é difícil para o público associar a imagem de Wood a Tom. Isso fica ainda mais evidente quando Elijah aparece ao lado de Kerry Bishé, a mocinha da trama, insossa e protagonista de uma cena vergonhosa (quando a esposa de Tom canta em meio ao teatro lotado). É difícil enxergar Elijah e Kerry como um casal apaixonado, como sugere o longa; a química entre os dois não rola. Sobre o elenco ainda vale destacar as atuações de Alex Winter e Tamsin Egerton (respectivamente, o assistente do assassino e a amiga chata do casal), recheadas de trejeitos que tornam os personagens apáticos e exagerados. OBS.: Elijah ainda tem aquela mesma cara de pânico de todos seus personagens (ressaltada por seu belo par de grandes olhos azuis) que, me desculpem, já está incomodando.

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Toque de Mestre é um suspense que funciona como suspense – e nada alem disso. Puro exercício de estilo, o filme consegue chamar a atenção do espectador, mas não consegue prendê-la devido à sua previsibilidade. Longe de ser um fiasco, Toque de Mestre possui ainda um final digno de clássicos do estilo hitchcock – mas que não é o suficiente para fazê-lo uma obra-prima. Uma grande pena. Toque de Mestre é um clássico exemplo de filme que se perde dentro de sua previsibilidade e com o excesso de elementos de um gênero.

O Último Portal

Todas as biografias de Roman Polanski afirmam que o diretor tenha feito um pacto com o demônio em troca da fama. Não se pode afirmar ao certo se tal pacto realmente existiu, mas é fato incontestável que Polanski tem uma vida fora dos palcos muito mais polêmica do que sua própria obra. Em O Último Portal, de 1999, o diretor retoma um tema que abordara (ainda que parcialmente) trinta anos antes, em seu cultuado O Bebê de Rosemary: o satanismo, o sobrenatural, o além.

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O Último Portal é uma viagem ao reino das trevas. Na trama, Dean Corso (Johnny Depp, antes da saga Piratas do Caribe) é um especialista e negociante de livros raros de caráter duvidoso e despudorado, contratado pelo milionário Boris Balkan (Frank Langella) para confirmar a autenticidade de um livro raro que, segundo consta, teria sido co-escrito por Aristide Torchia e o próprio demônio. Na realidade, Boris possui um dos três únicos exemplares do livro de Torchia dos nove escritos em 1966 que teriam o poder de invocar o diabo e abrir as portas para o inferno.

Essa é a primeira incursão séria de Polanski ao sobrenatural. Boa parte da obra mais autoral do diretor já tem alguns elementos essenciais em thrillers de mistério ou sobrenatural (como o já citado O Bebê de Rosemary ou O Inquilino). No entanto, em O Último Portal, Polanski vai mais a fundo, quase caindo nos clichês do gênero. Não fosse pelo talento do cineasta, O Último Portal teria tudo para ser mais um longa de suspense a tratar temas sobrenaturais – mas Polanski conduz tão bem a tensão e o clima decadente da história que o filme se torna uma obra que te deixa atordoado (positiva ou negativamente).

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Polanski torna o livro misterioso no principal personagem de seu filme. Dean Corso é um anti-herói, que vai ganhando mais empatia à medida que se torna mais decadente como ser humano. A frieza de Corso (e sua moral cínica) deixa o personagem ainda mais interessante, enquanto ele se vê cada vez mais determinado a encontrar uma resposta para o enigma que tenta desvendar, ainda que não saiba exatamente o porquê. Aliás, não há porquês – e com isso, Polanski cria um suspense aterrorizante. Tudo aqui está sujeito a interpretações, afinal o diretor não explica nenhum dos acontecimentos que há em cena – o que abre margem para as mais diversas hipóteses. Há grupos de debates na rede que tentam decifrar alguns enigmas da história, como a identidade da personagem de Emannuelle Seigner ou a pessoa por trás dos assassinatos da trama. A interpretação é exigida até mesmo no final do filme – de uma ambiguidade que divide os fãs, deixando uns fascinados e outros decepcionados.

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Polanski cria ainda um ambiente recheado de sugestões: a obra é repleta de referências e citações, com pistas escondidas que conduzem às mais diversas leituras. Deixando as soluções muito fáceis de lado (uma constante no cinema norte-americano), Polanski é um deus fanfarrão que deixa suas personagens como marionetes, manipulando-os da maneira que bem entender para criar seu suspense – que ainda é mais atenuado com a excelente trilha sonora do polonês Wojciech Kilar (um subestimado que, entre outros, assina a trilha de Drácula de Bram Stoker, de Francis Ford Copolla), com toda sua erudição e mistério. O bom uso das locações e decoração de interiores ajudam a melhorar a fotografia do longa, acentuando o ocultismo por trás da tela.

Para muitos um ótimo filme – para outros um fiasco na carreira do diretor (de fato, a produção tem uma das piores avaliações da filmografia do cineasta), O Último Portal não é um filme ruim – para quem não está totalmente inundado com o cinema “fácil” norte-americano. A trama abre margem para diversas suposições – e cabe ao expectador decidir qual delas é a mais adequada. As ótimas cenas (o suicídio no começo do filme já diz bastante do que se vem por aí) e boas sacadas de câmera (a cena em que Dorso é atacado com um golpe na cabeça) são exemplos do talento do diretor para criar sequências de suspense que não menosprezam a inteligência do expectador – algo que, como cinéfilo, eu admiro profundamente. Apesar do ritmo lento em alguns momentos, O Último Portal é um thriller que proporciona um bom debate sobre as forças ocultas e satanismo – o que aumenta ainda mais os mitos acerca da obra e, principalmente, da vida de Polanski.