“Baseado em Fatos Reais” é um Polanski Sem Encanto

Roman Polanski não é um cineasta qualquer. Deixemos de lado sua polêmica vida pessoal e nos concentremos em sua primorosa obra: há títulos relevantes, como Chinatown (considerado um dos melhores roteiros da história do cinema), O Pianista (filme que lhe rendeu o merecido Oscar de direção) e os pertencentes à famosa Trilogia do Apartamento (nesta ordem, Repulsa ao Sexo, O Bebê de Rosemary  e O Inquilino). Há também momentos menos inspirados, é verdade (um esquecível Que?, o fiasco Piratas e um subestimado O Último Portal  – ainda que este último seja estrelado pelo astro hollywoodiano Johnny Depp, no auge dos anos 90), mas todos, sem exceção, carregam uma dose da mise-en-scène de Polanski, assim como seu mais recente projeto, Baseado em Fatos Reais.

Após uma sequência de bons filmes (O Escritor Fantasma, Deus da Carnificina e o magnífico A Pele de Vênus), Polanski entrega algo inferior à boa parte de sua filmografia com Baseado em Fatos Reais. Com raízes fincadas no best-seller homônimo de Delphine de Vigan, a trama gira em torno de uma escritora (Emmanuelle Seigner) com bloqueio criativo após o sucesso de seu último livro. Deixada de lado pelos filhos e pelo namorado, Delphine é presa fácil para Elle (Eva Green), uma sedutora e misteriosa admiradora que ganha a vida como ghost-writer de celebridades. A partir daí, Elle passa a se tornar cada vez mais presente na vida da artista – e, claro, exercer certo domínio sobre ela.

Acolhido sem muito entusiasmo em Cannes no ano passado, Baseado em Fatos Reais chegou na época em meio às inúmeras reportagens e protestos envolvendo as acusações de assédio de menores cometido por Polanski – o que, fatalmente, reduziu a expectativa do público com relação ao longa. Mas não é isso que torna Baseado em Fatos Reais um título esquecível no inestimável catálogo do cineasta franco-polaco. Há alguns erros primordiais que enfraquecem sua película, a destacar primeiramente o roteiro tão pouco estimulante, que recicla vários elementos já manjados de um thriller convencional. Já disse e repito: não vejo problemas com clichês de gênero, desde que sejam bem utilizados – mas aqui, Polanski extrapola nas soluções fáceis para o desenrolar do argumento (por exemplo, o esgotamento de Delphine após uma sessão de autógrafos, a tela em branco do computador para simbolizar a falta de criatividade da autora, o vermelho do batom, unhas e echarpe de Elle, etc.). Tudo parece muito artificial, como que se forçando a barra para fazer crível o relacionamento conturbado entre as protagonistas (duas atrizes que se esforçam ao máximo em suas performances, mas são incapazes de entregar algo além do mediano).

Os acertos existem, é claro. E quem acompanha a filmografia do diretor pode confirmar: dos seus últimos filmes, este é, provavelmente, o que mais tem cara de Polanski (principalmente aquele do início de carreira) – seja na tensão que tenta evocar, no desenvolvimento lento e minucioso das personagens, no erotismo que surge em alguns instantes para dar aquela desequilibrada na narrativa e deixar o espectador com cara de “ué?”. Se fosse lançado lá nos anos 70 (e até 80), certamente Baseado em Fatos Reais seria mais bem recebido. Hoje, infelizmente é apenas o exercício de estilo de um cineasta que já não funciona tanto, sugerindo que ele precisa se reinventar. Enfim, Baseado em Fatos Reais é um verdadeiro Polanski, sim – só que sem o brilho de outrora.

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Erotismo à Flor da Pele de Vênus

Gosto muito de filmes com diálogos rápidos, inteligentes e longas sequências, pois acredito que é justamente ali que um cineasta pode demonstrar ao público uma das habilidades que mais admiro no ofício da direção: dirigir pessoas. Redundante? Talvez, mas dirigir atores não é uma tarefa fácil. O consagrado Roman Polanski já havia mostrado que sabe bem como fazer isso em Deus da Carnificina, de 2011, quando colocou dois casais dentro de um apartamento e os fizeram trocar acusações até os ânimos se alterarem. Com A Pele de Vênus, seu último longa, Polanski demonstra que, ainda que esteja um pouco longe dos holofotes, é merecidamente um dos diretores mais celebrados do cinema mundial.

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Assim como Deus da Carnificina, A Pele de Vênus também é a adaptação de uma peça teatral homônima, apresentando a história de Thomas (Mathieu Amalric), um jovem dramaturgo que está à beira dos nervos por não conseguir encontrar uma atriz principal para sua nova peça – uma adaptação do livro La Venus à La Fourrure, de 1870 (um clássico da literatura mundial). Prestes a sair do teatro após uma série de audições fracassadas, Thomas recebe Vanda (Emmanuelle Seigner), uma bela atriz com quem o dramaturgo se envolve em um relacionamento de submissão, dominação e perversão.

Polanski repete aqui o esquema “teatro filmado”, conseguindo arrancar ótimas atuações de seu pequeno elenco. Mathieu (substituindo Louis Garrel, ator fetiche francês que abandonou o projeto devido sua agenda) e Emmanuelle dão um show à parte. A dupla, que já havia se encontrado no elogiado O Escafandro e a Borboleta, tem uma química incrível ao longo de mais de noventa minutos de película, apesar do longa ser praticamente uma ode ao trabalho do cineasta e sua musa, Emmanuelle, esposa do diretor que, aos 46 anos, consegue ser incrivelmente atraente e deslumbrante em cena. A sexualidade que Emmanuelle exprime é o que faz com que ela roube o filme para si, tornando sua personagem quase uma extensão (com um nível de maturidade acima) de seu papel em Lua de Fel, de 1992.

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Apesar de ter sua atuação bastante questionada na época, Emmanuelle protagonizou ali uma das cenas mais eróticas do cinema de Polanski. Hoje, mais de vinte anos depois, Emmanuelle é uma atriz muito mais madura e se nunca teve a oportunidade de receber um personagem mais marcante, sua Vanda é a chance. Sob a direção do marido, Seigner tem nas mãos o papel de sua vida – ainda que o filme não tenha tido um apelo popular tão grande. Vanda é misteriosa e dosa bem o papel de vítima e algoz, invertendo o papel com um tragicômico Thomas. E Polanski, que não é bobo e sabe como provocar, usa bem o talento da esposa. Com sua câmera excepcional (que coloca o espectador sob o ponto de vista praticamente de um voyeur), Polanski usa e abusa de tudo o que Seigner pode oferecer, quase jogando em nossas caras “Esta é minha mulher, toda minha, veja o quanto ela é divina…”. Prova disto é a sequência final onde Emmanuelle provoca os mais altos índices de nossas libidos.

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Com um roteiro primoroso, recheado de referências à cultura clássica, a fita é verborrágica – e por tal razão pode parecer um pouco cansativa em diversos momentos. No entanto, os diálogos rápidos e inteligentes velam uma crítica ainda implícita ao papel da mulher na sociedade, à sua verdadeira atribuição como “fêmea”, em um mundo ainda machista. É a inversão de papeis entre Thomas e Vanda que vai dando mais paixão ao filme, à medida que o dramaturgo se vê cada vez mais ligado à sua musa inspiradora – uma atriz aparentemente sem cultura e conhecimento, mas que aos poucos se mostra uma verdadeira femme fatale. A variação entre realidade e fantasia, que se misturam ao longo da projeção, dá o tom cômico e nos fazem questionar se Thomas está atuando ou realmente se tornou um escravo de Vanda.

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Há quem possa se incomodar com o estilo “teatral” com que Polanski filmou A Pele de Vênus. Não que essa seja a primeira incursão do diretor no gênero (aliás, Roman tem no currículo, além de Deus da Carnificina, o despercebido A Morte e a Donzela, de 1994, quando Polanski já flertava com o gênero), mas este não é um tipo fácil de filme. É necessária um pouco de cultura para entender os diálogos e seus significados nas entrelinhas – e claro, uma pequena dose de paciência. Mas não se deve esquecer que, antes de tudo, é cinema e, como tal, o trabalho de Polanski como cineasta é louvável. Da belíssima locação, iluminação e figurino à inspirada e delicada trilha do francês Alexandre Desplat, tudo se encaixa perfeitamente para criar uma obra irresistivelmente atraente, com um “quê” de erotismo que cai perfeitamente à proposta do longa. A Pele de Vênus é Polanski retornando às suas origens – tem todos os elementos que Polanski já utilizava em sua filmografia (erotismo, submissão, homoerotismo – aliás, em uma das cenas finais, temos Mathieu travestido com salto alto e batom, nos remetendo instantaneamente a Polanski vestido de mulher em O Inquilino, de 1976). A Pele de Vênus é muito mais requintado, culto e crítico do que Deus da Carnificina, que já era excelente – o que, certamente, representa um nível acima no trabalho do cineasta.

Oliver Twist

Clássico livro escrito por Charles Dickens, Oliver Twist é uma obra muito mais citada do que propriamente lida. É uma literatura que serve de inúmeras referências, ainda que poucos a conheçam profundamente. No cinema, por exemplo, o texto de Dickens já teve várias versões – mas nenhuma delas pode ser considerada tão fiel à obra literária quanto a versão que o cineasta Roman Polanski dirigiu em 2005.

Dirigido como homenagem do cineasta aos seus filhos, Oliver Twist conta a comovente história do garoto órfão que é “vendido” para um coveiro. Sofrendo com a crueldade da família que o “adotara”, Oliver foge para Londres, onde é recolhido das ruas e acolhido por Fagin, um velho marginal que comanda um esquema envolvendo prostitutas e crianças criminosas. Sem muita aptidão para o crime, Oliver conhece um bondoso homem em quem enxerga uma figura paterna. No entanto, Fagin, temendo que Oliver denuncie seu esquema, planeja um assalto à residência do senhor rico que o pequeno deseja como pai.

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Polanski assume a empreitada de dirigir este clássico literário após seu honroso reconhecimento por O Pianista (pelo qual ganhou o Oscar de melhor diretor), em 2002. Grande parte do êxito obtido pelo diretor se deve à sua equipe técnica (praticamente a mesma que trabalhou com o cineasta em seu filme anterior). O trabalho de arte ao recriar a negra e suja Londres vitoriana é uma aula de cinema – em uma época onde cenários são construídos por computador, tornando filmes muito mais artificiais. Baseado em gravuras da época, a cenografia é impecável e contribui para acentuar o sentimento de isolamento de Oliver na precária cidade – sentimento este que nos remete, quase que imediatamente, ao mesmo drama vivido pelo personagem de Adrien Brody em O Pianista. Maquiagem, fotografia e a belíssima trilha sonora de Rachel Portman ainda acentuam essa sensação, dando um ar muito mais intenso ao roteiro de Ronald Harwood (que trabalhou com Polanski em O Pianista).

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Quanto às atuações, seria impossível não mencionar Ben Kingsley, excelente em sua caracterização como o velho Fagin. Em um dos melhores papéis de sua carreira (mas menosprezado pela crítica), ele faz um ótimo trabalho de composição. Seu personagem, ainda que um vilão incontestável, permite que o espectador crie certa compaixão ao se mostrar tão afável e carinhoso com o pequeno Oliver. Aliás, o personagem título não poderia ter sido mais bem escalado. Barney Clark (que mais tarde só faria uma ponta em Pecados Inocentes, infelizmente) estrela brilhantemente este filme de peso (afinal, tem o nome Polanski nos créditos), em uma das melhores atuações mirins dos últimos anos. Suas expressões faciais e seus olhos lacrimejantes deixam qualquer um comovido – o que ajuda a fomentar a opinião da crítica de que dificilmente outro ator fará tão bem este personagem depois de Barney.

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Oliver Twist de Polanski é, provavelmente, a mais bela e fiel adaptação ao romance que o originou – distanciando-se apenas de uma história infantil para criar um drama de sofrimento tão triste quanto o próprio livro. Polanski produz um filme que aborda a crueldade humana e lança uma profunda reflexão sobre a sobrevivência da inocência em um mundo tão corroído pela maldade e egoísmo. Em uma das cenas mais emocionantes, Oliver decide visitar Fagin na prisão – mostrando toda sua inocência e gratidão por um homem que, mesmo com seus defeitos, o acolhera quando em perigo. Oliver Twist nas mãos de Polanski se torna a mais pura e definitiva versão da obra de Dickens, ofuscando todas as produções anteriores do clássico.

A Dança dos Vampiros

Analisar A Dança dos Vampiros, de 1967, hoje é uma tarefa complicada. Isso porque esse longa de Roman Polanski percorre dois gêneros – mas sem se aprofundar muito em nenhum deles. Ora é um terror, ora é uma comédia, mas nunca assusta totalmente ou faz rir por completo. Na verdade, A Dança dos Vampiros pode ser encarado muito mais como uma sátira aos filmes de terror de outrora do que um filme necessariamente “sério” – o que não o rebaixa, mas sim o torna um dos melhores exemplares da cultuada e diversificada carreira de Polanski.

02A Dança dos Vampiros traz a história de Abronsius, um professor universitário especialista em vampiros, que viaja à Transilvânia para comprovar a existência desses seres macabros, acompanhado de seu fiel e medroso assistente Alfred. Na cidade, ao se hospedarem em um hotel local, eles presenciam o rapto de uma bela jovem, por quem Alfred se apaixona logo de início. Persuadido por seu assistente, Abronsius parte rumo ao castelo de Conde Krolock para tentar resgatar a bela dama.

Todos os temas favoritos de Polanski podem ser encontrados em A Dança dos Vampiros: sadomasoquismo, violência, nudez, um pouco de homossexualidade e, claro, voyeurismo – evidentemente na cena em que Alfred observa por um buraco na fechadura a bela Sarah se banhar, em uma cena de profundo erotismo. Até mesmo porque a jovem em questão é Sharon Tate que, no auge de sua beleza, se tornaria a esposa de Polanski algum tempo depois.

O tom humorístico de A Dança dos Vampiros reside basicamente nas trapalhadas de Abronsius e seu assistente Alfred – que o próprio Polanski interpreta com muito empenho. Seu tipo carismático, atrapalhado e “pamonha” talvez tenha inspirado o perfil que, anos mais tarde, Woody Allen escreveria em seus filmes. Os demais personagens da vila – ou mesmo os tipos vampirescos do castelo são perfeitamente caricatos, garantindo os momentos mais cômicos da película e deixando o longa muito mais divertido.

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Na parte técnica, não se pode dizer que o filme possua muitas qualidades louváveis – o que pode ser justificável, sobretudo, pelos recursos da época e pelo próprio tom “pastelão satírico” da produção. No entanto, deve-se destacar a trilha assustadora composta por Krzysztof Komeda – parceiro de longa data de Polanski que mais tarde assinaria também a banda sonora de O Bebê de Rosemary. As tomadas mais extensas de perseguição em meio à neve também demonstram um belo trabalho de câmera, muito hábil para a ocasião, assim como a cenografia e figurino que explicitavam o perfeccionismo do diretor e justificavam os milhões gastos durante sua produção (especialmente na ótima cena do baile vampiresco, já ao final do filme).

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Os produtores decidiram lançar dois filmes: uma versão do diretor e uma versão de estúdio (carregado ainda pelo título The Fearless Vampires Killers, or Pardon Me, But Your Teeth Are in My Neck), o que, obviamente, irritou o artista. No entanto, foi a versão de Polanski que se tornou uma espécie de clássico “cult” nos cinemas de arte e nas universidades norte-americanas. A irritação do cineasta talvez se deva ao fato de que durante muito tempo ele considerou A Dança dos Vampiros como sua melhor obra. Provavelmente, no entanto, essa paixão exagerada do diretor pelo longa possa ser causada pelas boas lembranças que ele tem de sua própria vida pessoal durante o período, quando estava visivelmente apaixonado pela estonteante Sharon Tate – antes dos acontecimentos fatídicos que tornariam a vida de Polanski muito mais sombria do que qualquer trabalho que o cineasta faria em sua carreira.

O Último Portal

Todas as biografias de Roman Polanski afirmam que o diretor tenha feito um pacto com o demônio em troca da fama. Não se pode afirmar ao certo se tal pacto realmente existiu, mas é fato incontestável que Polanski tem uma vida fora dos palcos muito mais polêmica do que sua própria obra. Em O Último Portal, de 1999, o diretor retoma um tema que abordara (ainda que parcialmente) trinta anos antes, em seu cultuado O Bebê de Rosemary: o satanismo, o sobrenatural, o além.

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O Último Portal é uma viagem ao reino das trevas. Na trama, Dean Corso (Johnny Depp, antes da saga Piratas do Caribe) é um especialista e negociante de livros raros de caráter duvidoso e despudorado, contratado pelo milionário Boris Balkan (Frank Langella) para confirmar a autenticidade de um livro raro que, segundo consta, teria sido co-escrito por Aristide Torchia e o próprio demônio. Na realidade, Boris possui um dos três únicos exemplares do livro de Torchia dos nove escritos em 1966 que teriam o poder de invocar o diabo e abrir as portas para o inferno.

Essa é a primeira incursão séria de Polanski ao sobrenatural. Boa parte da obra mais autoral do diretor já tem alguns elementos essenciais em thrillers de mistério ou sobrenatural (como o já citado O Bebê de Rosemary ou O Inquilino). No entanto, em O Último Portal, Polanski vai mais a fundo, quase caindo nos clichês do gênero. Não fosse pelo talento do cineasta, O Último Portal teria tudo para ser mais um longa de suspense a tratar temas sobrenaturais – mas Polanski conduz tão bem a tensão e o clima decadente da história que o filme se torna uma obra que te deixa atordoado (positiva ou negativamente).

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Polanski torna o livro misterioso no principal personagem de seu filme. Dean Corso é um anti-herói, que vai ganhando mais empatia à medida que se torna mais decadente como ser humano. A frieza de Corso (e sua moral cínica) deixa o personagem ainda mais interessante, enquanto ele se vê cada vez mais determinado a encontrar uma resposta para o enigma que tenta desvendar, ainda que não saiba exatamente o porquê. Aliás, não há porquês – e com isso, Polanski cria um suspense aterrorizante. Tudo aqui está sujeito a interpretações, afinal o diretor não explica nenhum dos acontecimentos que há em cena – o que abre margem para as mais diversas hipóteses. Há grupos de debates na rede que tentam decifrar alguns enigmas da história, como a identidade da personagem de Emannuelle Seigner ou a pessoa por trás dos assassinatos da trama. A interpretação é exigida até mesmo no final do filme – de uma ambiguidade que divide os fãs, deixando uns fascinados e outros decepcionados.

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Polanski cria ainda um ambiente recheado de sugestões: a obra é repleta de referências e citações, com pistas escondidas que conduzem às mais diversas leituras. Deixando as soluções muito fáceis de lado (uma constante no cinema norte-americano), Polanski é um deus fanfarrão que deixa suas personagens como marionetes, manipulando-os da maneira que bem entender para criar seu suspense – que ainda é mais atenuado com a excelente trilha sonora do polonês Wojciech Kilar (um subestimado que, entre outros, assina a trilha de Drácula de Bram Stoker, de Francis Ford Copolla), com toda sua erudição e mistério. O bom uso das locações e decoração de interiores ajudam a melhorar a fotografia do longa, acentuando o ocultismo por trás da tela.

Para muitos um ótimo filme – para outros um fiasco na carreira do diretor (de fato, a produção tem uma das piores avaliações da filmografia do cineasta), O Último Portal não é um filme ruim – para quem não está totalmente inundado com o cinema “fácil” norte-americano. A trama abre margem para diversas suposições – e cabe ao expectador decidir qual delas é a mais adequada. As ótimas cenas (o suicídio no começo do filme já diz bastante do que se vem por aí) e boas sacadas de câmera (a cena em que Dorso é atacado com um golpe na cabeça) são exemplos do talento do diretor para criar sequências de suspense que não menosprezam a inteligência do expectador – algo que, como cinéfilo, eu admiro profundamente. Apesar do ritmo lento em alguns momentos, O Último Portal é um thriller que proporciona um bom debate sobre as forças ocultas e satanismo – o que aumenta ainda mais os mitos acerca da obra e, principalmente, da vida de Polanski.

Repulsa ao Sexo

Repulsa ao Sexo foi a primeira produção de Roman Polanski rodado em língua inglesa – além de ser o primeiro filme de uma sequência que ficou conhecida como “trilogia do apartamento” – onde as histórias se desenrolam dentro desse tipo de moradia, o que acentua a paranoia de suas personalidades, a claustrofobia e clima obscuro do lugar e, sobretudo, muito mistério e suspense. Seguida ainda por O Bebê de Rosemary (1968) e O Inquilino (1976), essa trilogia é composta por aqueles que, para muitos fãs do cineasta, são considerados as melhores obras de Polanski.

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Uma das coisas que admiro na obra de Roman é o seu talento para fazer temas simples crescerem de forma absurda na tela. Repulsa ao Sexo é um bom exemplo desse dom natural do cineasta. Na história, acompanhamos a bela Carol, manicure que trabalha num salão de beleza londrino e mora em um pequeno apartamento com a irmã mais velha. Inicialmente vista como uma moça tímida e retraída, Carol aos poucos revela um estado de desligamento completo do mundo ao seu redor, culminando em uma repressão sexual que mais tarde (quando sozinha no apartamento devido a viagem da irmã junto com o amante) tornaria seus medos e angústias em situações de esquizofrenia repletas de violência e perversão.

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Repulsa ao Sexo é um dos melhoras produções que abordam a questão da esquizofrenia feminina. Em tempos de Cisne Negro, obviamente uma bela produção do gênero, Repulsa ao Sexo (que foi pessimamente traduzido de Repulsion, título original e muito melhor) é um filme que talvez não funcionasse tão bem em nossa geração. A Londres da época estava em efervescência cultural crescente. Mais do que apenas uma trama sobre esquizofrenia (que irei falar mais adiante), Repulsa ao Sexo também é uma resposta do cinema de Polanski ao machismo que imperava no período, mostrado sutilmente em pequenos golpes de tela, como nas cantadas que Carol recebe na rua, na maneira como sua irmã é tratada pelo amante casado, o cobrador de aluguel que tenta se aproveitar da garota ou mesmo na reação de seu admirador ao ser esnobado por ela – o que fomenta os debates sobre a origem do comportamento doentio da personagem principal.

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Mas, espere: será Carol a personagem principal deste thriller? Do ponto de vista psicológico, talvez. No entanto, Polanski faz algo surreal: dá vida ao apartamento, que acaba se tornando o centro do desenrolar de toda a narrativa. Se antes o apartamento servia como refúgio de Carol contra tudo o que lhe afligia, quando se vê sozinha nele o mesmo local se torna seu maior algoz. Se antes o sexo esteve sempre fora de seu lar, agora ele penetra todos os cômodos de seu apartamento, vagando de forma impulsiva e, por vezes, violenta. Os cômodos se tornam cada vez mais claustrofóbicos e opressivos, aumentando gradativamente o processo de degradação psicológica da personagem de Carol. Aqui, Polanski cria um locação assustadora: ele altera as dimensões do ambiente, expandindo os cômodos e movimentando paredes, fazendo com que o público sinta quase o mesmo efeito da mentalidade distorcida de Carol. Com metáforas que evidenciam essa degradação (o coelho temperado que apodrece fora da geladeira, batatas que criam raízes, as paredes cheias de rachaduras), o diretor permite ao espectador acompanhar como um voyeur a desconstrução da racionalidade de Carol.

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Uma observação há de ser feita: nada disso seria possível sem a habilidade de Polanski em extrair boas atuações de seu elenco. Definitivamente, Roman é um ótimo diretor de atores – e em Repulsa ao Sexo ele consegue deixar Catherine Deneuve completamente oca, vazia. Seu olhar perdido direto para o chão rachado no meio da rua ou enquanto faz seu serviço de manicure evidenciam todo o talento da então jovem atriz – aliás, já nos créditos iniciais, esse mesmo olhar é focado em uma tomada que já nos deixa atordoados logo no início da projeção. Alem do olhar constantemente perdido (o que já derruba por terra a questão da repulsão ao sexo apenas), Catherine empresta seus movimentos contidos e receosos e sua voz tímida para construir uma manifestação de esquizofrenia que apavora o espectador. Seus delírios beiram o surreal (como na cena do suposto estupro), assim como sua aversão a tudo aquilo que tenha qualquer vínculo sexual (os gemidos da irmã enquanto mantém relações com o amante no quarto ao lado ou o simples fato de dividir sua pia com objetos do cunhado).

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Do ponto de vista técnico ainda, todos os elementos estão harmoniosamente sincronizados (especialmente a direção de arte e fotografia em preto e branco, que deixam o apartamento muito mais assustador). São esses mesmos elementos que contribuem muito mais para a história do que os próprios diálogos. Mais do que palavras, é a fotografia e o belo uso da linguagem visual que acentuam a claustrofobia do ambiente e a insanidade de Carol (as cenas das mãos masculinas agarrando Carol na parede é um delírio visual).

Repulsa ao Sexo é, portanto, um belo início para uma ótima trilogia – mas, infelizmente, esquecido pelo sucesso O Bebê de Rosemary, que também ofuscou o ótimo O Inquilino (provavelmente, o melhor da série). No site Rotten Tomatoes, o filme tem 100% de avaliação positiva da crítica – o que não seria uma surpresa. Como estudo psicológico, Repulsa ao Sexo se aprofunda na psique humana para demonstrar o processo de degradação psicológica de uma personagem, mas sem se preocupar em explicar as origens desta deterioração. Como obra cinematográfica, é um belo exemplar daquilo que podemos chamar de thriller psicológico, o que o torna um dos trabalhos mais perturbadores que Polanski já produziu – e por que não dizer o próprio cinema?

Roman Polanski: O Cineasta da Polêmica

Há exatamente oitenta anos, o cinema ganhava um de seus maiores artistas: o cineasta Roman Polanski. Um dos mais prestigiados diretores de todos os tempos, Polanski tem uma bem sucedida carreira marcada por produções de sucessos de público e crítica – e também por suas polêmicas na vida pessoal.

Polanki iniciou sua carreira na Polônia e logo com seu primeiro trabalho, Faca na Água (1962), recebeu sua primeira indicação ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Desde então, se tornou um dos diretores mais elogiados de sua geração, alternando produções independentes e filmes com maior apelo de público em Hollywood, abordando temas polêmicos e caindo nas graças da crítica especializada.

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Na vida pessoal, Polanski passou por alguns momentos difíceis, como a morte de sua mãe em um campo de concentração nazista durante a Segunda Guerra Mundial – período em que vivia em constante fuga. No final da década de 60, sua então esposa, a modelo e atriz Sharon Tate (que estava no final da gestação do primeiro filho do casal), foi assassinada pela gangue liderada por Charles Manson (naquele que se tornou um dos mais conhecidos crimes da história norte-americana). Mais tarde, em 1977, o ator assumiu ter estuprado uma adolescente de treze anos – crime pelo qual foi preso em setembro de 2009, no aeroporto de Zurique, quando tentava entrar na Suiça para receber um prêmio por sua obra.

Polêmicas pessoais à parte, o fato inegável é seu talento. E para comemorar seus oitenta anos, decidi separar aqui os 5 melhores trabalhos do diretor (tarefa muito difícil para mim, que sou um inveterado fã do artista). Confira a lista e relembre ou descubra os filmes que são essenciais para entender a obra de Roman Polanski.

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1. Repulsa ao Sexo (Repulsion, 1965)
Polanski criou, no começo de sua carreira, aquela que ficou conhecida como “Trilogia do Apartamento”, marcada por um terror claustrofóbico e clima obscuro em ambientes fechados e sufocantes, que acabam por oprimir seus moradores. O primeiro filme desta trilogia (e também o primeiro longa do diretor em língua inglesa) é Repulsion – pessimamente traduzida para Repulsa ao Sexo – , que foca sua narrativa na personagem Carol (a belíssima Catherine Deneuve), uma manicure que vive com sua irmã mais velha e é reprimida em vários aspectos de sua vida. Quando a irmã viaja em férias e Carol fica sozinha no apartamento, a jovem cai em uma profunda depressão, causando-lhe alucinações aterrorizantes.

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2. Chinatown (Chinatown, 1974)
Este é, talvez, o maior marco da carreira de Roman Polanski – além de ser um dos maiores filmes noir de todos os tempos. Chinatown narra a trajetória de um detetive particular que, ao ser contratado por uma mulher da alta sociedade para investigar um caso extraconjugal do esposo, se envolve em uma conspiração muito além do que previa. Estrelado por Jack Nicholson e Faye Dunaway, é frequentemente considerado como um dos melhores roteiros do cinema, exemplo de construção e desenvolvimento de história e personagens. Além disso, o longa recebeu 11 indicações ao Oscar (incluindo melhor filme e melhor direção).

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3. O Inquilino (Le Locataire, 1976)
Último filme da trilogia citada (que ainda conta com o clássico O Bebê de Rosemary, de 1968), O Inquilino é, talvez, o melhor trabalho da série. No longa, estrelado pelo próprio Polanski, acompanhamos a história de um jovem que, após alugar um apartamento cuja antiga dona se suicidara, passa a sofrer alucinações, acreditando que os demais moradores do prédio estão tentando fazê-lo também se suicidar. Já ouviu falar em terror psicológico? Pois é, O Inquilino é uma aula completa do gênero – vale muito a pena conferir.

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4. Lua de Fel (Bitter Moon, 1992)
Desta lista que selecionei, este será, provavelmente, o mais questionável. Mas como a ideia aqui é também diversificar os gêneros e as épocas de Polanski, nada melhor do que citar Lua de Fel, primeiro filme do cineasta na década de 90 – e uma aula de erotismo e sedução. No longa, acompanhamos o casal inglês Nigel e Fiona que, ao fazerem um cruzeiro, conhecem o casal Mimi e Oscar (ela, uma belíssima, sensual e misteriosa francesa; ele, um norte-americano preso a uma cadeira de rodas). Durante a viagem, ao perceber o interesse de Nigel por Mimi, Oscar conta ao novo amigo como conhecera sua esposa e a paixão doentia do casal – que mais tarde, se tornara um ritual de humilhação e descaso. Sensualidade, sadismo, relacionamentos conturbados – céu e inferno, neste que é um dos maiores filmes eróticos do cinema.

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5. O Pianista (The Pianist, 2002)
Talvez por contar uma trama de sobrevivência quase que autobiográfica, O Pianista tenha se tornado a mais aclamada produção de Roman Polanski nos últimos anos. Filme que consagrou Polanski, a narrativa de O Pianista gira em torno de Wladyslaw Szpilman (excepcionalmente vivido por Adrien Brody – que faturou o Oscar de melhor ator por esta personagem), um musicista judeu que tenta sobreviver à Segunda Guerra Mundial, escondendo-se dos nazistas e sobrevivendo com a ajuda de amigos. A história é real – mas é impossível não associar essa dramática trama de sobrevivência à biografia do próprio Polanski – que vivenciou o Holocausto quando criança. O Pianista rendeu o Oscar de Melhor Diretor a Polanski – que não compareceu à cerimônia devido à sua situação criminal no país. Repare o cineasta sendo aplaudido de pé:


Achou que a lista acaba aqui? Pois é, selecionar apenas cinco longas (dentro de uma filmografia tão vasta e boa) de um artista como Polanski é uma tarefa difícil – pois sempre vai faltar aquela produção que você tanto admira e gosta de indicar aos amigos. Por isso, acrescentei abaixo (bem sucintamente) mais alguns filmes que eu acredito serem indispensáveis para qualquer fã do cineasta.

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Em “Deus da Carnificina” (2011), baseado em uma peça teatral, acompanhamos dois casais bem diferentes que se reúnem para chegar a um “acordo” sobre a briga de seus filhos pré-adolescentes. Aos poucos, os nervos vão aumentando e as gentilezas dão lugar aos insultos e indelicadezas, nesta deliciosa comédia de costumes.

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Pertencente à trilogia do apartamento, “O Bebê de Rosemary” (1968) é um dos filmes mais conhecidos de Polanski. Trata-se do drama de uma mulher que desconfia que a sua gravidez é alvo de um ritual macabro feito por seu esposo e novos vizinhos. Ta aí um bom exemplo de terror.

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Particularmente, é um dos meus preferidos do cineasta. Uma mistura de comédia com terror, “A Dança dos Vampiros” (1967) é a história de um velho e atrapalhado caçador de vampiros e seu medroso assistente que ficam presos em um castelo junto com criaturas sanguinolentas. Um dos mais cultuados filmes da história – e um dos precursores do gênero.