“Baseado em Fatos Reais” é um Polanski Sem Encanto

Roman Polanski não é um cineasta qualquer. Deixemos de lado sua polêmica vida pessoal e nos concentremos em sua primorosa obra: há títulos relevantes, como Chinatown (considerado um dos melhores roteiros da história do cinema), O Pianista (filme que lhe rendeu o merecido Oscar de direção) e os pertencentes à famosa Trilogia do Apartamento (nesta ordem, Repulsa ao Sexo, O Bebê de Rosemary  e O Inquilino). Há também momentos menos inspirados, é verdade (um esquecível Que?, o fiasco Piratas e um subestimado O Último Portal  – ainda que este último seja estrelado pelo astro hollywoodiano Johnny Depp, no auge dos anos 90), mas todos, sem exceção, carregam uma dose da mise-en-scène de Polanski, assim como seu mais recente projeto, Baseado em Fatos Reais.

Após uma sequência de bons filmes (O Escritor Fantasma, Deus da Carnificina e o magnífico A Pele de Vênus), Polanski entrega algo inferior à boa parte de sua filmografia com Baseado em Fatos Reais. Com raízes fincadas no best-seller homônimo de Delphine de Vigan, a trama gira em torno de uma escritora (Emmanuelle Seigner) com bloqueio criativo após o sucesso de seu último livro. Deixada de lado pelos filhos e pelo namorado, Delphine é presa fácil para Elle (Eva Green), uma sedutora e misteriosa admiradora que ganha a vida como ghost-writer de celebridades. A partir daí, Elle passa a se tornar cada vez mais presente na vida da artista – e, claro, exercer certo domínio sobre ela.

Acolhido sem muito entusiasmo em Cannes no ano passado, Baseado em Fatos Reais chegou na época em meio às inúmeras reportagens e protestos envolvendo as acusações de assédio de menores cometido por Polanski – o que, fatalmente, reduziu a expectativa do público com relação ao longa. Mas não é isso que torna Baseado em Fatos Reais um título esquecível no inestimável catálogo do cineasta franco-polaco. Há alguns erros primordiais que enfraquecem sua película, a destacar primeiramente o roteiro tão pouco estimulante, que recicla vários elementos já manjados de um thriller convencional. Já disse e repito: não vejo problemas com clichês de gênero, desde que sejam bem utilizados – mas aqui, Polanski extrapola nas soluções fáceis para o desenrolar do argumento (por exemplo, o esgotamento de Delphine após uma sessão de autógrafos, a tela em branco do computador para simbolizar a falta de criatividade da autora, o vermelho do batom, unhas e echarpe de Elle, etc.). Tudo parece muito artificial, como que se forçando a barra para fazer crível o relacionamento conturbado entre as protagonistas (duas atrizes que se esforçam ao máximo em suas performances, mas são incapazes de entregar algo além do mediano).

Os acertos existem, é claro. E quem acompanha a filmografia do diretor pode confirmar: dos seus últimos filmes, este é, provavelmente, o que mais tem cara de Polanski (principalmente aquele do início de carreira) – seja na tensão que tenta evocar, no desenvolvimento lento e minucioso das personagens, no erotismo que surge em alguns instantes para dar aquela desequilibrada na narrativa e deixar o espectador com cara de “ué?”. Se fosse lançado lá nos anos 70 (e até 80), certamente Baseado em Fatos Reais seria mais bem recebido. Hoje, infelizmente é apenas o exercício de estilo de um cineasta que já não funciona tanto, sugerindo que ele precisa se reinventar. Enfim, Baseado em Fatos Reais é um verdadeiro Polanski, sim – só que sem o brilho de outrora.

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Repulsa ao Sexo

Repulsa ao Sexo foi a primeira produção de Roman Polanski rodado em língua inglesa – além de ser o primeiro filme de uma sequência que ficou conhecida como “trilogia do apartamento” – onde as histórias se desenrolam dentro desse tipo de moradia, o que acentua a paranoia de suas personalidades, a claustrofobia e clima obscuro do lugar e, sobretudo, muito mistério e suspense. Seguida ainda por O Bebê de Rosemary (1968) e O Inquilino (1976), essa trilogia é composta por aqueles que, para muitos fãs do cineasta, são considerados as melhores obras de Polanski.

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Uma das coisas que admiro na obra de Roman é o seu talento para fazer temas simples crescerem de forma absurda na tela. Repulsa ao Sexo é um bom exemplo desse dom natural do cineasta. Na história, acompanhamos a bela Carol, manicure que trabalha num salão de beleza londrino e mora em um pequeno apartamento com a irmã mais velha. Inicialmente vista como uma moça tímida e retraída, Carol aos poucos revela um estado de desligamento completo do mundo ao seu redor, culminando em uma repressão sexual que mais tarde (quando sozinha no apartamento devido a viagem da irmã junto com o amante) tornaria seus medos e angústias em situações de esquizofrenia repletas de violência e perversão.

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Repulsa ao Sexo é um dos melhoras produções que abordam a questão da esquizofrenia feminina. Em tempos de Cisne Negro, obviamente uma bela produção do gênero, Repulsa ao Sexo (que foi pessimamente traduzido de Repulsion, título original e muito melhor) é um filme que talvez não funcionasse tão bem em nossa geração. A Londres da época estava em efervescência cultural crescente. Mais do que apenas uma trama sobre esquizofrenia (que irei falar mais adiante), Repulsa ao Sexo também é uma resposta do cinema de Polanski ao machismo que imperava no período, mostrado sutilmente em pequenos golpes de tela, como nas cantadas que Carol recebe na rua, na maneira como sua irmã é tratada pelo amante casado, o cobrador de aluguel que tenta se aproveitar da garota ou mesmo na reação de seu admirador ao ser esnobado por ela – o que fomenta os debates sobre a origem do comportamento doentio da personagem principal.

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Mas, espere: será Carol a personagem principal deste thriller? Do ponto de vista psicológico, talvez. No entanto, Polanski faz algo surreal: dá vida ao apartamento, que acaba se tornando o centro do desenrolar de toda a narrativa. Se antes o apartamento servia como refúgio de Carol contra tudo o que lhe afligia, quando se vê sozinha nele o mesmo local se torna seu maior algoz. Se antes o sexo esteve sempre fora de seu lar, agora ele penetra todos os cômodos de seu apartamento, vagando de forma impulsiva e, por vezes, violenta. Os cômodos se tornam cada vez mais claustrofóbicos e opressivos, aumentando gradativamente o processo de degradação psicológica da personagem de Carol. Aqui, Polanski cria um locação assustadora: ele altera as dimensões do ambiente, expandindo os cômodos e movimentando paredes, fazendo com que o público sinta quase o mesmo efeito da mentalidade distorcida de Carol. Com metáforas que evidenciam essa degradação (o coelho temperado que apodrece fora da geladeira, batatas que criam raízes, as paredes cheias de rachaduras), o diretor permite ao espectador acompanhar como um voyeur a desconstrução da racionalidade de Carol.

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Uma observação há de ser feita: nada disso seria possível sem a habilidade de Polanski em extrair boas atuações de seu elenco. Definitivamente, Roman é um ótimo diretor de atores – e em Repulsa ao Sexo ele consegue deixar Catherine Deneuve completamente oca, vazia. Seu olhar perdido direto para o chão rachado no meio da rua ou enquanto faz seu serviço de manicure evidenciam todo o talento da então jovem atriz – aliás, já nos créditos iniciais, esse mesmo olhar é focado em uma tomada que já nos deixa atordoados logo no início da projeção. Alem do olhar constantemente perdido (o que já derruba por terra a questão da repulsão ao sexo apenas), Catherine empresta seus movimentos contidos e receosos e sua voz tímida para construir uma manifestação de esquizofrenia que apavora o espectador. Seus delírios beiram o surreal (como na cena do suposto estupro), assim como sua aversão a tudo aquilo que tenha qualquer vínculo sexual (os gemidos da irmã enquanto mantém relações com o amante no quarto ao lado ou o simples fato de dividir sua pia com objetos do cunhado).

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Do ponto de vista técnico ainda, todos os elementos estão harmoniosamente sincronizados (especialmente a direção de arte e fotografia em preto e branco, que deixam o apartamento muito mais assustador). São esses mesmos elementos que contribuem muito mais para a história do que os próprios diálogos. Mais do que palavras, é a fotografia e o belo uso da linguagem visual que acentuam a claustrofobia do ambiente e a insanidade de Carol (as cenas das mãos masculinas agarrando Carol na parede é um delírio visual).

Repulsa ao Sexo é, portanto, um belo início para uma ótima trilogia – mas, infelizmente, esquecido pelo sucesso O Bebê de Rosemary, que também ofuscou o ótimo O Inquilino (provavelmente, o melhor da série). No site Rotten Tomatoes, o filme tem 100% de avaliação positiva da crítica – o que não seria uma surpresa. Como estudo psicológico, Repulsa ao Sexo se aprofunda na psique humana para demonstrar o processo de degradação psicológica de uma personagem, mas sem se preocupar em explicar as origens desta deterioração. Como obra cinematográfica, é um belo exemplar daquilo que podemos chamar de thriller psicológico, o que o torna um dos trabalhos mais perturbadores que Polanski já produziu – e por que não dizer o próprio cinema?