“Baseado em Fatos Reais” é um Polanski Sem Encanto

Roman Polanski não é um cineasta qualquer. Deixemos de lado sua polêmica vida pessoal e nos concentremos em sua primorosa obra: há títulos relevantes, como Chinatown (considerado um dos melhores roteiros da história do cinema), O Pianista (filme que lhe rendeu o merecido Oscar de direção) e os pertencentes à famosa Trilogia do Apartamento (nesta ordem, Repulsa ao Sexo, O Bebê de Rosemary  e O Inquilino). Há também momentos menos inspirados, é verdade (um esquecível Que?, o fiasco Piratas e um subestimado O Último Portal  – ainda que este último seja estrelado pelo astro hollywoodiano Johnny Depp, no auge dos anos 90), mas todos, sem exceção, carregam uma dose da mise-en-scène de Polanski, assim como seu mais recente projeto, Baseado em Fatos Reais.

Após uma sequência de bons filmes (O Escritor Fantasma, Deus da Carnificina e o magnífico A Pele de Vênus), Polanski entrega algo inferior à boa parte de sua filmografia com Baseado em Fatos Reais. Com raízes fincadas no best-seller homônimo de Delphine de Vigan, a trama gira em torno de uma escritora (Emmanuelle Seigner) com bloqueio criativo após o sucesso de seu último livro. Deixada de lado pelos filhos e pelo namorado, Delphine é presa fácil para Elle (Eva Green), uma sedutora e misteriosa admiradora que ganha a vida como ghost-writer de celebridades. A partir daí, Elle passa a se tornar cada vez mais presente na vida da artista – e, claro, exercer certo domínio sobre ela.

Acolhido sem muito entusiasmo em Cannes no ano passado, Baseado em Fatos Reais chegou na época em meio às inúmeras reportagens e protestos envolvendo as acusações de assédio de menores cometido por Polanski – o que, fatalmente, reduziu a expectativa do público com relação ao longa. Mas não é isso que torna Baseado em Fatos Reais um título esquecível no inestimável catálogo do cineasta franco-polaco. Há alguns erros primordiais que enfraquecem sua película, a destacar primeiramente o roteiro tão pouco estimulante, que recicla vários elementos já manjados de um thriller convencional. Já disse e repito: não vejo problemas com clichês de gênero, desde que sejam bem utilizados – mas aqui, Polanski extrapola nas soluções fáceis para o desenrolar do argumento (por exemplo, o esgotamento de Delphine após uma sessão de autógrafos, a tela em branco do computador para simbolizar a falta de criatividade da autora, o vermelho do batom, unhas e echarpe de Elle, etc.). Tudo parece muito artificial, como que se forçando a barra para fazer crível o relacionamento conturbado entre as protagonistas (duas atrizes que se esforçam ao máximo em suas performances, mas são incapazes de entregar algo além do mediano).

Os acertos existem, é claro. E quem acompanha a filmografia do diretor pode confirmar: dos seus últimos filmes, este é, provavelmente, o que mais tem cara de Polanski (principalmente aquele do início de carreira) – seja na tensão que tenta evocar, no desenvolvimento lento e minucioso das personagens, no erotismo que surge em alguns instantes para dar aquela desequilibrada na narrativa e deixar o espectador com cara de “ué?”. Se fosse lançado lá nos anos 70 (e até 80), certamente Baseado em Fatos Reais seria mais bem recebido. Hoje, infelizmente é apenas o exercício de estilo de um cineasta que já não funciona tanto, sugerindo que ele precisa se reinventar. Enfim, Baseado em Fatos Reais é um verdadeiro Polanski, sim – só que sem o brilho de outrora.

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“O Lar das Crianças Peculiares” é Exercício de Estilo de Tim Burton

Não é difícil entender as razões que levaram Tim Burton a estar à frente de um projeto sobre seres peculiares – afinal, o próprio diretor é um tipo muito peculiar de artista. Sua obra é identificável logo à primeira vista, ainda que o conjunto dela não seja necessariamente excepcional – na verdade, Burton vem colecionando algumas produções bastante questionáveis nos últimos anos, deixando o espectador e a crítica em dúvida com relação aos seus dotes como cineasta. Mas é inegável que O Lar das Crianças Peculiares, seu mais novo trabalho, é o seu melhor filme desde Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, de 2007.

A história é adaptada do best-seller O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares, romance escrito pelo norte-americano Ransom Riggs, lançado em 2011 e que se tornou uma febre mundial. Com ares de franquia teen, a trama principal da série acompanha um grupo de crianças com poderes especiais – entre eles, o jovem Jacob (Asa Butterfield). Após a morte repentina de seu avô (um veterano de guerra cheio de casos para contar), o adolescente segue algumas pistas e viaja até o País de Gales para visitar o orfanato de que tanto seu ente falecido lhe falara quando ainda era criança. Ao chegar lá, Jacob descobre uma fenda temporal que o transporta ao ano de 1943, onde ele conhece as crianças que dão o título ao longa e sua guardiã, a Srta. Peregrine (Eva Green). No entanto, uma monstruosa ameaça paira sobre o local – recaindo sobre Jacob a responsabilidade de proteger aquele grupo.

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Deixando de lado o material original (afinal, para aqueles que leram o livro, são nítidas as variações feitas pelo roteiro do próprio Ransom Riggs em parceria com Jane Goldman), O Lar das Crianças Peculiares sofre de um evidente desequilíbrio narrativo. A primeira parte da fita praticamente se concentra em Jacob e nas demais crianças, desenvolvendo apropriadamente cada uma delas (o que, consequentemente, faz com que o ritmo neste momento seja mais lento). Apesar do excesso de personagens, cada um deles ganha tempo suficiente em cena para ter suas peculiaridades devidamente exploradas. Curiosamente, no entanto, é a personagem de Eva Green quem ganha menos destaque, resumindo-se apenas a uma mera coadjuvante. Green só aparece na tela com a função de “explicar” os fatos (muitas vezes de forma desnecessariamente didática) e agregar um ar de mistério ao ambiente – o que até confunde o espectador quanto ao seu real caráter. Mais decepcionante ainda, o vilão interpretado por Samuel L. Jackson exagera na canastrice, passando pouca credibilidade para quem assiste.

Mas se o filme demora a acontecer, ele não para em sua parte final (como se para recuperar o tempo perdido). Aqui, encontramos as melhores sequências, como o confronto entre as crianças e os etéreos, com direito inclusive a um exército de caveiras (seria uma referência à passagem bíblica, no livro do profeta Isaías, sobre o vale dos ossos secos?). A partir daí, a ação se acelera, ainda que algumas inverossimilhanças surjam aqui e ali. O herói Jacob de herói tem pouco (ele não é nada além de um garoto comum de sua idade) e é difícil digerir o romance entre ele e a bela Emma Bloom (a mesma que, décadas atrás, se envolvera com seu avô). O lance das fendas temporais também soa confuso em alguns instantes, sendo mencionado como se apenas para encontrar soluções (fáceis) para o argumento.

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Mas se há deslizes no roteiro, eles são compensados com o aspecto visual do longa (mais do que em qualquer outra de suas últimas produções). O universo de Tim Burton está impresso ali, desde o jardim do orfanato até o parque de diversões macabro, por exemplo. O design dos monstros é incrível e os efeitos especiais são muito “pés no chão” – para se ter noção, Burton recorre até a técnica de stop motion (o que, de imediato, nos faz recordar de Beetlejuice, repare). Também é interessante ver o cineasta livre de algumas antigas parcerias – Johnny Depp não passa nem perto, assim como Helena Bonham Carter ou, surpreendentemente, Danny Elfman (que até então não fez a trilha de apenas 2 filmes do diretor). Tim ainda dá o ar da graça, rapidamente – mas para conferir isso você terá que prestar atenção.

O desfecho de O Lar das Crianças Peculiares até abre ponta para uma continuação, mas o arco dramático é fechado sem muita dificuldade. O filme perde bastante pela sua instabilidade narrativa, é verdade, mas compensa por outros pontos, em especial pela sua estética irrepreensível. Talvez O Lar das Crianças Peculiares sofra com seu público alvo, que não é bem definido – afinal, do ponto de vista literário, a história é simples para os pequenos, mas Burton não economiza no clima gótico e assustador, o que pode afugentar naturalmente os mais jovens. O Lar das Crianças Peculiares é um filme muito agradável, com potencial para uma franquia de sucesso, mas não é, necessariamente, peculiar como o título sugere. Pelo contrário: é um puro exercício de estilo de seu idealizador, cuja peculiaridade já está para lá de manjada…

Ventre

Ventre, drama alemão do diretor Benedek Fliegauf, sob certo aspecto propõe a discussão de dois temas polêmicos: a engenharia genética e o incesto. Na trama, Eva Green é Rebecca, uma moça que esperou por doze longos anos sua grande paixão de infância, Thomas (Matt Smith). Quando finalmente o reencontra, o jovem morre fatalmente em um acidente de trânsito. Desconsolada, Rebecca decide fazer uma fertilização artificial com o DNA de Thomas, gerando um clone do falecido. O tempo passa e a cada dia Rebecca sente mais dificuldade para esconder a verdade do filho, além de conviver constantemente com o desejo de consumar seu amor por Thomas.

01Amparado por uma bela fotografia em cores frias (predominantemente em tons azulados, acentuando toda a melancolia da fita), Ventre é um filme contemplativo. Esteticamente, tudo é muito bem articulado: os planos são cuidadosamente captados, dos panorâmicos aos mais fechados (estes últimos exprimindo com perfeição as dúvidas de suas personagens). A produção ainda conta com um ótimo trabalho de som, da edição e mixagem à trilha sonora minimalista. Além disso, o casal de protagonistas demonstra muito empenho, com destaque para Green, em um tipo perturbado que já lhe é bastante comum. No auge de sua beleza, a atriz é excessivamente atraente e faz de sua Rebecca uma mulher visivelmente dividida – fato que lhe é reforçado especialmente a partir da segunda metade do longa.

Mas principalmente, Ventre é silencioso. A ausência de diálogos predomina durante a fita, sendo estes substituídos pelos olhares angustiados (e a troca deles, claro) de seus personagens. Um clima de incerteza fica evidente durante toda a narrativa, uma tensão abrupta se instaura a todo momento – como se algo estivesse prestes a acontecer e nunca, de fato, acontece. O espectador fica nesta aflição até o desfecho da história, que ocorre sem um clímax devido, como se apenas para “compensar” o público (ou choca-lo, como alguns podem alegar). Para além disso, os debates propostos ficam à beira da superficialidade e nunca são aprofundados. Ventre é um filme para poucos: esteticamente belo por um lado, pelo outro infelizmente lhe faltou ousadia e é isso que o impede de ser um cinema memorável.

Eva Green: 5 Personagens Marcantes da Musa do Cinema Francês Atual

05Nesta semana, a atriz francesa Eva Green completa 35 anos – justamente, no auge de sua carreira, ao encerrar a segunda temporada de Penny Dreadful, série pela qual vem sendo amplamente elogiada. Mas nosso caso com a artista já é um pouco mais antigo…

Uma vez brinquei que, se eu pudesse, criaria uma nova religião – e Eva, apenas ela, seria a deusa absoluta. Dona de uma beleza descomunal, Green frequentemente atua em papéis de femme fatale, mas também já fez dramas com competência, como Pássaro Branco na Nevasca e os independentes Ventre e Sedução. Mostrando muita versatilidade, Eva vem se consagrando como uma das maiores atrizes francesas de sua geração, conquistando fãs em todo o mundo.

Para homenagear nossa musa, selecionei os cinco personagens mais instigantes da atriz. Confira a lista:

ISABELLE – OS SONHADORES (The Dreamers, 2003)
Em seu debut no cinema, Eva encantou o público em Os Sonhadores, uma das obras máximas do italiano Bernardo Bertolucci – que na época chegou a declarar que “Eva Green é tão linda que chega a ser indecente”. Sem o menor pudor, a bela se despiu em frente às câmeras e protagonizou tórridas cenas de sexo ao lado de Louis Garrel e Michael Pitt. Mostrando muita maturidade, Eva ignorou as críticas (totalmente incabíveis, diga-se de passagem) e, desde então, tem povoado o sonho de muitos marmanjos por aí…

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VESPER LYND – 007 – CASSINO ROYALE
(Casino Royale, 2006)
Devido ao sucesso de sua personagem em Os Sonhadores, Green foi a escolhida, em 2006, para ser a bond girl da vez em 007 – Cassino Royale, onde atuou ao lado de Daniel Craig e faturou o BAFTA de atriz revelação. Apesar de inicialmente ter rejeitado o papel, o filme a projetou para a fama – porta do entrada de Eva para Hollywood.

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ARTEMÍSIA – 300: A ASCENSÃO DO IMPÉRIO
(300: Rise of an Empire, 2014)
Apesar de tímida na adolescência, nudez é uma coisa que parece hoje não incomodar Eva Green. Em 300: A Ascensão do Império, Green é Artemísia – e protagonizou uma das cenas de sexo mais comentadas do ano – pura selvageria e ousadia, incluindo até uma espada no meio do ato sexual.

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AVA LORD – SIN CITY: A DAMA FATAL
(Sin City: A Dame to Kill For, 2014)
Eva é, definitivamente, uma mulher sexy – logo, a escolha perfeita para viver a femme fatale Ava Lord em Sin City: A Dama Fatal (e, sim, Green é a tal dama do título). No filme baseado nos quadrinhos de Frank Miller, Eva foi duramente criticada por um pôster do longa, onde aparece praticamente nua. A reação de Eva com os comentários? Nem ligou e ainda foi a protagonista de uma bela sequência de sexo.

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VANESSA IVES – PENNY DREADFUL
(Penny Dreadful, 2014)
Penny Dreadful foi um divisor de águas na carreira da atriz. Na série britânica, Eva Green dá vida a Vanessa Ives, uma mulher misteriosa que é alvo de forças ocultas que peregrinam no submundo de Londres. Com uma caracterização de época, Eva foi responsável por excelentes cenas de terror sobrenatural, inclusive uma sequência de possessão que, ó, deu medo, viu?

Relações Familiares, Ausência e Abandono no Sensível “Pássaro Branco na Nevasca”

Estamos no ano de 1988. Katrina é uma adolescente que vive com a mãe, Eve, e o pai, Brock – ela, uma dona de casa perfeita, porém infeliz; ele, um quarentão sem muita personalidade, mas exemplar pai de família. Eve, que outrora era uma bela mulher, carrega no rosto as mágoas de um casamento falido, despejando na figura do marido todas as mágoas que sente por ter de abrir mão de sua vida. Já Brock finge ser indiferente a tudo, aturando calado as crises da esposa e cuidando do lar de forma excepcional. Não é nenhuma surpresa quando Eve abandona a casa, sem deixar vestígios – tanto que a família tenta diariamente colocar sua vida em ordem, quase se acostumando com a ausência da mãe. Anos depois, Katrina irá perceber que existe uma verdade incontestável por trás do desaparecimento misterioso de Eve.

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Pássaro Branco na Nevasca, novo filme de Gregg Araki (do excelente Mistérios da Carne, de 2004), não tem data prevista para chegar ao Brasil, mas foi considerado uma das mais gratas surpresas da 38ª Mostra Internacional de Cinema (apesar de ter uma única exibição). Araki, que também produziu e roteirizou a história baseada no livro homônimo de Laura Kasischke, coloca em pauta os dramas familiares, abordando os traumas causados pela ausência de uma figura familiar tão próxima e que se ausenta subitamente. No entanto, na obra do cineasta californiano, este trauma é estendido e ampliado, pois a perda em questão é sofrida por uma garota de 17 anos, que passa pela crise frenética da adolescência e também sua descoberta sexual. Dessa forma, Pássaro Branco na Nevasca é bem mais do que uma simples obra de cinema: é um olhar crítico, quase metafórico, sobre o papel de cada um de nós na sociedade, previamente estabelecido.

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Misterioso mas leve, o filme nos proporciona uma bela experiência cinematográfica, através de uma fotografia, figurino e trilha sonora que nos levam de volta aos finais dos anos 80. Falando-se de fotografia, aliás, é imprescindível mencionar a ótima utilização da luz e de elementos com cores “gélidas”, que acentuam o tom melancólico da fita. O roteiro, por sua vez, é conciso e muito bem construído e, ao longo de sua uma hora e meia, é impossível não se prender à história, que traz a mistura exata entre drama e suspense, com reviravoltas e cenas onde a emoção fala mais alto. Somam-se a isso as atuações competentes de um elenco impecável. Shailene Woodley (do meloso A Culpa é das Estrelas) se desdobra com bastante segurança na pele da adolescente, provando que não é apenas um rosto bonito e passageiro. Christopher Meloni também se mostra à vontade como o marido complacente, quase nos causando asco devido à sua inexpressividade diante da família e da vida. O destaque, no entanto, fica por conta de Eva Green – mais uma vez Eva Green, simplesmente atordoada e protagonista das melhores sequências do filme. Apesar de um leve desconforto que eu senti ao vê-la no início (talvez pelo impacto causado em mim por Eva em seu recente Sin City: A Dama Fatal), é incrível a capacidade que a atriz tem de se tornar o centro das atenções não apenas por sua beleza incomparável, mas pelo talento inegável e doação com a qual se entrega às suas personagens.

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Pássaro Branco na Nevasca não é uma obra-prima, mas comparado com Mistérios da Carne (que lançou Joseph Gordon-Levitt ao estrelato), é um daqueles belos filmes que é capaz de marcar um espectador mais atento e sensível. Muito bem produzido e com uma carga psicológica profunda, Pássaro Branco na Nevasca é rico tanto em sua essência quanto em sua arte. Gregg Araki faz suas reflexões sob um olhar muito particular, mas nem por isso individual. Não à toa, Pássaro Branco na Nevasca se tornou um dos lançamentos cinematográficos mais elogiados do ano – e, certamente, um dos pontos altos da filmografia de seu idealizador.

Mais Uma Noite em “Sin City” – E Só…

E lá se foram quase dez anos desde que Sin City – A Cidade do Pecado chegava às salas de cinema ao redor do mundo. Na época, o longa se tornou uma febre e virou, digamos, uma espécie de clássico instantâneo. Não que seja uma obra imaculada – a bem da verdade, Sin City é um filme como outro qualquer, com algumas peculiaridades, sim (como sua excepcional fotografia em preto e branco e suas inúmeras tramas irresistíveis), mas que não apresentava nada muito grandioso. Enfim, era uma novidade naquele momento – mas nada muito eloquente.

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Mas se em 2005 Sin City – A Cidade do Pecado causou certo burburinho entre os cinéfilos, o mesmo não se pode dizer sobre Sin City: A Dama Fatal, segundo filme da série baseada nas HQs do artista Frank Miller (que divide os créditos de direção com Robert Rodriguez) e que chega hoje aos cinemas brasileiros. Não que esta continuação não tenha sido aguardada – principalmente depois dos inúmeros adiamentos para o lançamento, que deixaram os fãs dos quadrinhos de Miller apreensivos (afinal, o material é muito bom). Mas talvez esse hiato entre os dois filmes tenha diminuído um pouco o frisson deste universo – e como consequência inevitável, Sin City: A Dama Fatal vem tendo um desempenho satisfatório, mas levemente inferior ao seu predecessor. Em outras palavras, este Sin City mantém o bom visual e apelo técnico, mas perde aquele impacto causado pelo primeiro.

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O cenário ainda é Basin City e segue, basicamente, a linha de Sin City – A Cidade do Pecado: narrativas independentes que se cruzam e se desenvolvem nas ruas, becos e vielas de uma cidade dominada pela corrupção, violência e impunidade (e qualquer semelhança com nossa realidade é mera coincidência). Aqui, temos o encontro de velhos conhecidos, como a stripper Nancy, o brutamontes Marv, o detetive Hartigan e o anti-herói Dwight, com novos rostos, como o ambicioso jogador de pôquer Johnny, o empresário Joey e a sensualíssima Ava Lord – a tal dama fatal do título. Todos estes personagens se misturam ao longo de três contos, alguns inéditos, e que mantém a mesma premissa do primeiro longa.

A primeira das três histórias centrais é estrelada por Joseph-Gordon Levitt na pele de Johnny, um jovem que desafia o poderoso senador Roark em uma partida de pôquer com o evidente interesse de humilha-lo – o que coloca sua vida em risco. Na segunda (e melhor) parte, temos Eva Green como a sedutora Ava, uma mulher ambiciosa e que faz uso de todo seu charme (e suas belas curvas) para colocar as mãos na fortuna do marido – recorrendo até mesmo a Dwight, seu antigo e ressentido amor. Com menos força, a última trama apresentada é a de Nancy (protagonista de sensuais danças sobre o balcão de um dos bares mais badalados de Sin City), que, totalmente atormentada, busca se vingar da morte de seu amado Hartigan – que se suicidara no filme anterior.

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Sin City: A Dama Fatal não apresenta nada novo em relação ao primeiro da série. Se em 2005 tudo era muito novidade (inclusive o uso constante de tela verde – algo inédito na época e que se tornou moda nos anos seguintes, sendo utilizado até os dias atuais), hoje é certo dizer que este projeto é apenas mais do mesmo e inova muito pouco – inclusive na criação dos ótimos cenários digitais. Mas isso, por incrível que pareça, já é um mérito: o visual de Sin City: A Dama Fatal é impecável. A fotografia em preto e branco é muito bem desenvolvida e fica ainda melhor quando os diretores apostam em alguns pontos específicos para destacar outras cores (como o “acinturado” casaco azul de Ava, o sangue vermelhíssimo que escorre ou o púrpura vivo de um veículo em movimento). Esse recurso é imprescindível para deixar o filme muito mais apreciável a aproxima-lo a um estilo meio neo-noir, que é acentuado ainda mais pelo tom escuro e as constantes utilizações de sombra e luz. A tórrida cena de sexo entre Ava e Dwight, por exemplo, é de uma plasticidade ímpar – arriscaria dizer uma das mais bem dirigidas sequências de sexo que já assisti.

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O elenco desta fita também está muito bem escalado. Mickey Rourke, apesar de não ser um personagem “chave” em nenhuma das histórias, é sempre um alívio quando aparece na tela devido, sobretudo, à sua frieza que o tornam, até mesmo, cômico (um perfeito tipo tarantinesco). Joseph empresta todo seu perfil cativante para Johnny – e isso faz com que fiquemos indignados quando Roark o esnoba. Josh Brolin, por sua vez, é infinitamente melhor que Clive Owen no papel de Dwight – um autêntico morador de Sin City. Já Eva Green, claro, é quem brilha verdadeiramente aqui. A escolha de Green foi a mais correta – e chega a ser ultrajante pensar que, em algum momento, a insossa Angelina Jolie foi cotada para o papel de Ava Lord. Eva ofusca qualquer um a cada aparição não apenas pelo belo corpo (aliás, fica a dica: Green está nua em quase 80% do tempo em que aparece), mas principalmente por sua ótima atuação, totalmente segura e natural. A única atuação ligeiramente menor fica por conta de Jessica Alba, que, para sua sorte, tem um belo corpo e faz bom uso dele nas cenas de dança – inutilmente tentando, ao que me parece, chamar a atenção do filme para si. Inutilmente porque, cá entre nós, temos Eva Green e isso basta. Ah é, Lady Gaga faz uma pequena participação – okay, mas e aí?

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Sin City: A Dama Fatal é equilibrado e, a meu ver, totalmente nivelado ao primeiro filme da franquia – ou seja, tecnicamente bem trabalhado (fotografia, edição, design, figurino, maquiagem) e visualmente arrebatador. O único “porém” é que, como mencionado, hoje nada do que se vê é uma novidade (com exceção do 3D, que foi bem usado mas não é algo esplendoroso). Há, obviamente, de se reconhecer que desde 2005 também pouca coisa realmente do gênero foi feita (ou bem feita, melhor dizendo), mas a verdade é que Sin City: A Dama Fatal é mais daquilo que já tínhamos visto e tanto gostamos de ver – e, por essa razão, se torna um programa indispensável para quem curte cinema e também para os fãs de HQs (afinal, como adaptação, deve-se mencionar que todo o universo dos quadrinhos de Miller foi brilhantemente transportado para as telonas). Em outras palavras, Sin City: A Dama Fatal é apenas mais uma noite escura, fria e solitária nos cantos dessa cidade que tanto amamos: diverte, vale a pena mas, ainda assim, é apenas mais uma noite. Apenas mais uma noite…

Mais Um Filme de Tim Burton, Apenas…

Ah, as expectativas… Elas sempre podem nos decepcionar – especialmente quando muito altas. Então, o que esperar de Tim Burton? Sempre algo grandioso, no mínimo – afinal, estamos falando de um diretores mais cultuados desta geração. No entanto, nem mesmo um artista como ele é capaz de acertar todas as vezes. Sombras da Noite, seu novo longa-metragem, está aí para provar que até um cineasta com o seu calibre pode errar a mão.

Os parceiros Burton e Depp nos bastidores de “Sombras da Noite”: novelão vampírico que não assusta, mas diverte…

A trama principal de Sombras da Noite nos traz Barnabas Collins (vivido pelo parceiro de Burton, Johnny Depp), um jovem rico que após partir o coração de uma bruxa (sim, ela, Eva Green), é transformado em um vampiro e condenado a passar a eternidade preso em um caixão. Quase dois séculos depois, Barnabas retorna à sua cidade e encontra sua família (fundadora da cidade de Collinspot) à beira da falência. Barnabas se vê obrigado a trazer os tempos de glória à sua prole, enquanto tenta se adaptar a um novo mundo completamente desconhecido (o filme se passa na década de 70) e reencontrar, quem sabe, seu amor do passado.

Assim, à primeira vista, tudo parece uma típica produção burtoniana. E realmente o é. Essa é a razão pela qual, particularmente, eu não entendo a razão da crítica ser tão dura com Sombras da Noite. Ok, o filme está longe de ter a magnitude de Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, ou ser o conto de fadas moderno de Edward Mãos de Tesoura. Mas tudo o que é peculiar a um filme de Burton está lá, inclusive as suas deficiências. Como em tudo o que o cineasta faz, sem exceção, Burton dá uma aula de arte. Talvez o fato de ser da geração de desenhistas da Walt Disney tenha contribuído para Tim ser obcecado pela imagem, mas o fato é que todos os detalhes são cuidadosamente trabalhados. A direção de arte é primorosa, com belas locações na Inglaterra e Escócia, e cenários que impressionam, alternando ambientes gélidos e frios com cores vibrantes que nos remetem aos primeiros trabalhos do diretor.

Talvez a melhor cena de “Sombras da Noite”: o sexo selvagem entre a bruxa Angelique e o vampiro Barnabas. Também, quem resiste a Eva Green?

No entanto, como em todos os filmes burtonianos, um problema crônico se apresenta: roteiro. Burton emprega tanto apelo visual que parece se esquecer de conduzir seus argumentos com pulso firme. Aqui, temos uma verdadeira colcha de retalhos, com várias subtramas que não cativam. Isso pode ter sido reflexo da própria obra que originou o longa, pois cabe-se dizer que Dark Shadows era uma série tipicamente novelesca, com milhões de personagens e enredos paralelos. Tudo bem esse tipo de abordagem na TV, mas no cinema nao dá certo: o espaço para criar tramas consistentes é pouco e tudo fica meio à deriva, perdido.

Logo no início, Barnabas narra sua história – de como os negócios da família foram prosperando até ser amaldiçoado pela bruxa Angelique. Depois, temos a recriação de uma cena clássica da série: a governanta que viaja de trem à Collinspot para trabalhar na casa dos Collins. Nesse início, parece que o foco central da narrativa será nesta personagem – e, no entanto, ela some e se torna algo completamente descartável. Apenas mais tarde descobrimos que ela seria a reencarnação (ou apenas alguém muito parecido) do antigo amor de Barnabas. E se você tem dúvida do tom novelesco do filme, o que dizer sobre os altos e baixos da relação entre Angelique e Barnabas? Vilã e “mocinho” tendo recaída? Até as novelas do Manoel Carlos já aposentaram isso…

Eva Green, claramente inspirada na personagem famosa da TV norte-americana Vampira.

O roteiro peca tanto que o filme se torna massante a partir de sua segunda metade. Nada de interessante ou relevante acontece e o longa caminha para um final meio nonsense(com fantasma, bruxa, lobisomem e vampiros, tudo junto, como na série original, assim, do nada, de uma hora pra outra). Só vale a pena ver a bruxa de Eva Green com o rosto partido e arrancando o coração do peito (bizarro, mas eu gostei…).

Até Danny Elfman, colaborador constante de Burton (só não trabalharam juntos em Ed Wood e Sweeney Todd), pareceu não estar inspirado. Trilha ruim? Não, mas também nada que se possa reconhecer e admirar. No mais, o filme se sustenta com um humor suficiente (nada genial, mas há boas sacadas – como Barnabas confundindo o ‘m’ do McDonalds com o símbolo de Mefistóteles), fotografia e arte impecáveis e as atuações de seu elenco, com Johnny Depp (que, contrariando os chatos de plantão, fez um tipo convincente, sem exageros) e, roubando a cena, Eva Green (linda e claramente inspirada na personagem Vampira, de Maila Syrjäniemi, já retratada por Burton em Ed Wood). Helena Bonham Carter está sensacional como a psiquiatra bêbada – pena que o personagem não ajudou nem um pouco. Michelle Pfeifer também cumpre bem sua função, apesar de não fazer nada eloquente.

Sem dúvidas, Angelique é uma das melhores atuações de Eva e uma das personagens femininas mais interessantes de Burton.

Não se pode dizer que Sombras da Noite é um fracasso completo. Apesar de ter uma das piores estréias de Burton, o filme (que custou cerca de US$ 150 milhões) conseguiu faturar o suficiente para se pagar. Em partes, o fiasco de bilheterias na estréia se deve a dois fatores principais. O primeiro deles é que o longa estreou nos EUA quando o fenômeno Os Vingadores estava em sua segunda semana de exibição (o que ofuscaria qualquer coisa). Depois, Sombras da Noite, cá entre nós, não teve publicidade. A Warner teria tido dificuldades para vendê-lo por conta de seu gênero indefinido, tando que só houve um único trailer, que foi apresentado há menos de dois meses de seu lançamento. Ou seja, não chamou o público ao cinema.

Como em todos os longas de Burton (e por esta razão não considero Dark Shadows um filme ruim), Sombras da Noite é um verdadeiro estudo sobre como fazer cinema. Tecnicamente falando. O roteiro, como em tudo de Burton, ainda tem altos e baixos, não há um equilíbrio. Sombras da Noite, mediano, é como uma mulher que se arruma em uma noite de sábado (põe sua melhor roupa, capricha na maquiagem, escolhe o melhor sapato e jóias) mas não sabe para onde vai ou não tem para onde ir. Simplesmente quer provar para si que pode ficar linda, independente do que os outros digam, talvez apenas para seu próprio ego. Faturar uma grana ou não é mero detalhe…