“O Lar das Crianças Peculiares” é Exercício de Estilo de Tim Burton

Não é difícil entender as razões que levaram Tim Burton a estar à frente de um projeto sobre seres peculiares – afinal, o próprio diretor é um tipo muito peculiar de artista. Sua obra é identificável logo à primeira vista, ainda que o conjunto dela não seja necessariamente excepcional – na verdade, Burton vem colecionando algumas produções bastante questionáveis nos últimos anos, deixando o espectador e a crítica em dúvida com relação aos seus dotes como cineasta. Mas é inegável que O Lar das Crianças Peculiares, seu mais novo trabalho, é o seu melhor filme desde Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, de 2007.

A história é adaptada do best-seller O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares, romance escrito pelo norte-americano Ransom Riggs, lançado em 2011 e que se tornou uma febre mundial. Com ares de franquia teen, a trama principal da série acompanha um grupo de crianças com poderes especiais – entre eles, o jovem Jacob (Asa Butterfield). Após a morte repentina de seu avô (um veterano de guerra cheio de casos para contar), o adolescente segue algumas pistas e viaja até o País de Gales para visitar o orfanato de que tanto seu ente falecido lhe falara quando ainda era criança. Ao chegar lá, Jacob descobre uma fenda temporal que o transporta ao ano de 1943, onde ele conhece as crianças que dão o título ao longa e sua guardiã, a Srta. Peregrine (Eva Green). No entanto, uma monstruosa ameaça paira sobre o local – recaindo sobre Jacob a responsabilidade de proteger aquele grupo.

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Deixando de lado o material original (afinal, para aqueles que leram o livro, são nítidas as variações feitas pelo roteiro do próprio Ransom Riggs em parceria com Jane Goldman), O Lar das Crianças Peculiares sofre de um evidente desequilíbrio narrativo. A primeira parte da fita praticamente se concentra em Jacob e nas demais crianças, desenvolvendo apropriadamente cada uma delas (o que, consequentemente, faz com que o ritmo neste momento seja mais lento). Apesar do excesso de personagens, cada um deles ganha tempo suficiente em cena para ter suas peculiaridades devidamente exploradas. Curiosamente, no entanto, é a personagem de Eva Green quem ganha menos destaque, resumindo-se apenas a uma mera coadjuvante. Green só aparece na tela com a função de “explicar” os fatos (muitas vezes de forma desnecessariamente didática) e agregar um ar de mistério ao ambiente – o que até confunde o espectador quanto ao seu real caráter. Mais decepcionante ainda, o vilão interpretado por Samuel L. Jackson exagera na canastrice, passando pouca credibilidade para quem assiste.

Mas se o filme demora a acontecer, ele não para em sua parte final (como se para recuperar o tempo perdido). Aqui, encontramos as melhores sequências, como o confronto entre as crianças e os etéreos, com direito inclusive a um exército de caveiras (seria uma referência à passagem bíblica, no livro do profeta Isaías, sobre o vale dos ossos secos?). A partir daí, a ação se acelera, ainda que algumas inverossimilhanças surjam aqui e ali. O herói Jacob de herói tem pouco (ele não é nada além de um garoto comum de sua idade) e é difícil digerir o romance entre ele e a bela Emma Bloom (a mesma que, décadas atrás, se envolvera com seu avô). O lance das fendas temporais também soa confuso em alguns instantes, sendo mencionado como se apenas para encontrar soluções (fáceis) para o argumento.

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Mas se há deslizes no roteiro, eles são compensados com o aspecto visual do longa (mais do que em qualquer outra de suas últimas produções). O universo de Tim Burton está impresso ali, desde o jardim do orfanato até o parque de diversões macabro, por exemplo. O design dos monstros é incrível e os efeitos especiais são muito “pés no chão” – para se ter noção, Burton recorre até a técnica de stop motion (o que, de imediato, nos faz recordar de Beetlejuice, repare). Também é interessante ver o cineasta livre de algumas antigas parcerias – Johnny Depp não passa nem perto, assim como Helena Bonham Carter ou, surpreendentemente, Danny Elfman (que até então não fez a trilha de apenas 2 filmes do diretor). Tim ainda dá o ar da graça, rapidamente – mas para conferir isso você terá que prestar atenção.

O desfecho de O Lar das Crianças Peculiares até abre ponta para uma continuação, mas o arco dramático é fechado sem muita dificuldade. O filme perde bastante pela sua instabilidade narrativa, é verdade, mas compensa por outros pontos, em especial pela sua estética irrepreensível. Talvez O Lar das Crianças Peculiares sofra com seu público alvo, que não é bem definido – afinal, do ponto de vista literário, a história é simples para os pequenos, mas Burton não economiza no clima gótico e assustador, o que pode afugentar naturalmente os mais jovens. O Lar das Crianças Peculiares é um filme muito agradável, com potencial para uma franquia de sucesso, mas não é, necessariamente, peculiar como o título sugere. Pelo contrário: é um puro exercício de estilo de seu idealizador, cuja peculiaridade já está para lá de manjada…

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“Alice Através do Espelho”: Não Era Necessário, Mas Fazer o Quê?

Já comentei outras vezes aqui sobre a importância do burtoniano Alice no País das Maravilhas à época de seu lançamento, em 2010. Apesar das críticas pouco amistosas, o longa foi um sucesso de bilheteria, alavancou a indústria do 3D nos cinemas e também iniciou a febre dos remakes de contos infantis já vistos em animações clássicas. É até estranho que a Disney tenha demorado exatos seis anos para conceder uma sequência à história – desta vez com Tim Burton assumindo apenas a produção do projeto e deixando a claquete nas mãos de James Bobin (cujo currículo modesto não inclui nada além de dois filmes da série Muppets).

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A narrativa desta nova aventura parte exatamente de onde terminou a primeira e segue basicamente a mesma premissa: Alice está em uma situação importante de sua vida “real” e é forçada a regressar ao mundo subterrâneo para resolver uma situação que só ela é capaz. Neste caso, Alice é agora a capitã do navio de seu falecido pai, e após uma extensa viagem de negócios, retorna a Londres e descobre que sua mãe está prestes a ceder a embarcação a Hamish Ascot (o antigo noivo da jovem) em troca da hipoteca da casa da família. Seus amigos do País das Maravilhas, entretanto, estão preocupados com a vida do Chapeleiro Maluco – e para salva-lo, Alice terá que enfrentar o Tempo e resgatar todo o clã dos Cartolas.

É inegável que a primeira pergunta que se passa na cabeça de qualquer um ao assistir Alice Através do Espelho é: esta sequência é realmente necessária? Ao que tudo indica, a resposta é clara: não. A fórmula é saturada, não há novidades e, pior, repete praticamente os mesmos “moldes” do primeiro filme (que era repleto de erros – entre eles, o roteiro atropelado de Linda Woolverton, que demonstra não ter se importado com as críticas da fita anterior e aposta nas mesmas características). O argumento parou, literalmente, no tempo e não procurou corrigir as falhas de outrora, desperdiçando até boas tramas paralelas que poderiam trazer maior profundidade ao enredo.

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O que ganha certo destaque agora é a protagonista: Alice, definitivamente, tem vida aqui. Existe uma temática de valorização e libertação da figura feminina que permeia o lado “real” da jornada de Alice, apesar de pouco explorada, é verdade. Para além disso, Mia Wasikowska parece estar muito à vontade com o papel, tomando às rédeas como protagonista – e, para falar a verdade, eu que já a critiquei muito tenho que admitir que ela apresenta uma das poucas boas atuações em um filme carregado de estrelas “apagadas”. Sacha Baron Cohen é o mesmo tresloucado de sempre; Anne Hathaway está bem menos carregada do que no longa anterior e isso tirou o charme de sua personagem; já Johnny Depp ainda dá sinais de não ter se achado. Além de Mia, o único “alívio” fica por conta de Helena Bonham Carter, que retorna como a Rainha Vermelha, rendendo divertidos momentos. Tecnicamente, é importante ainda salientar o bom uso do CGI, que criou cenários exuberantes em uma fotografia mais “clara”, “alegre”, “convidativa” – diferente da atmosfera um tanto “assustadora” da produção burtoniana (inclusive, Alice Através do Espelho tem classificação livre, enquanto que, em Alice no País das Maravilhas, a classificação é de dez anos).

Mas se você, leitor, quer uma dica, eu diria: vá assistir Alice Através do Espelho, sim. É óbvio que o longa vale a pena como entretenimento para a família, mesmo com suas deficiências. E é isso que muita gente procura indo ao cinema: se divertir. Talvez Alice Através do Espelho sequer tenha o mesmo desempenho do primeiro, uma vez que sua estreia coincide com a de X-Men: Apocalipse. Ou seja, Alice chegou de forma errada na hora mais errada ainda – mas mesmo assim, caso você não espere muito, Alice Através do Espelho cumpre muito bem sua proposta de ser um blockbuster. Descartável, sim, mas que funciona de algum jeito…

Surpreendente, Johnny Depp é a Maior Atração de “Aliança do Crime”

Década de 1970, sul de Boston. A região é controlada por James ‘Whitey’ Bulger, um criminoso comum de origem irlandesa, irmão de um recém eleito senador estadual. A zona norte da cidade, por sua vez, é dominada por ítalo-americanos chefiados por Gennaro Angiulo. Para combater este último grupo, o agente do FBI John Connolly, também criado na parte sul da região, faz um acordo com Bulger, seu amigo de infância (e por quem nutre uma profunda gratidão), transformando-o em um informante protegido da polícia norte-americana. Entretanto, essa aliança entre o bandido e o FBI permite que Bulger não apenas elimine a concorrência, mas também se torne um dos maiores chefões do crime da história dos EUA.

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Dirigido por Scott Cooper (de Coração Louco e Tudo Por Justiça), Aliança do Crime pode parecer mais uma típica produção americana sobre a máfia – um gênero que hora ou outra aparece por aí (talvez devido à relação de extremo amor e ódio do americano com seus criminosos, vai saber…). O longa de Cooper, na verdade, é até “genérico”: pouco inova no tema, ousa ainda menos e nem é tão grandioso tecnicamente. Enfim, Aliança do Crime seria apenas “suficiente”, não fosse Johnny Depp, que realmente carrega quase que completamente o filme nas costas. Há tempos nos devendo uma atuação à altura de seu talento, parece que Depp voltou à sua boa forma, nos entregando uma performance contida, sinistra e ameaçadora. Aclamado no último Festival de Veneza, Depp é cogitado, inclusive, à indicação de melhor ator na próxima cerimônia do Oscar.

E devo admitir, não apenas como um fã inveterado do ator, que Depp fez sim um excelente trabalho, até mesmo se levarmos em consideração o quão confuso é o roteiro de Mark Mallouk e Jez Butterworth. Bulger não é devidamente desenvolvido; há algumas lacunas no argumento que deixam o espectador meio perdido, além do excesso de didatismo de alguns trechos. Afinal, quem é Bulger? O que ele fez para ser tão “fantástico” assim como mafioso? Ele trafica drogas? Faz falcatrua em jogos clandestinos? Lava dinheiro? Isso nunca fica claro e assim o público não consegue digerir muito bem a idéia de que ele é o “todo poderoso” do crime – só vemos seus comparsas falando isso a todo instante, mas não sabemos o que ele efetivamente executa para merecer tal alcunha; só ouvimos dizer que ele se tornou pior após a morte do filho ou da mãe, mas ele não demonstra nenhuma grande oscilação de comportamento ao longo da película.

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Sua relação com a família também é estranha: se por um lado ele demonstra um amor incondicional pelo filho e pela mãe, o mesmo não se pode dizer do sentimento de Bulger pela esposa e pelo irmão. Enquanto a primeira sai de cena de uma hora para outra sem nenhuma explicação, o relacionamento com irmão é ainda mais complicado e deveria ter sido melhor explorado – aproveitando mais Benedict Cumberbatch, inteiramente ignorado. Talvez o único ponto positivo a ser tirado de tudo isso é que, dessa forma, o personagem não cria empatia, mas sim medo. Sua presença causa certa tensão no ar. Diferente de outros bandidos, ele não é carismático, mas um psicopata intimidante. Três cenas servem de exemplo: na primeira, Bulger ensina ao filho que bater no colega da escola não é errado, mas ser visto fazendo isto sim. Na segunda, com tremendo sarcasmo, ele sugere a um agente do FBI durante um jantar que ele o trairia, já que o policial acabara de revelar uma receita secreta de família. Finalmente, Bulger insiste em subir ao quarto de um amigo para conversar com a esposa que se recusara a fazer “praça” para ele durante uma pequena confraternização.

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Aliança do Crime é um filme que poderia ter sido muito melhor aproveitado, até mesmo por conta do baita material que o diretor e roteiristas tinham em mãos. Ao invés disso, preferiu pisar em terreno firme, arriscando quase nada e desperdiçando um ótimo elenco. Apesar de ter um ritmo bacana (por conta, sobretudo, da excepcional trilha sonora de Tom Holkenborg, que deixa um clima de apreensão a todo minuto), Aliança do Crime procura delinear sua trama de forma mais intimista, sem exaltar a figura de sua personagem central, mas fazendo com que o público se sinta desconfortável com ele – a única coisa que o diferencia dos demais produtos do gênero. Aliança do Crime não vai passar despercebido (mesmo porque é Johnny Depp quem está à frente do projeto), mas considerando a magnitude da história envolvida, poderia ter sido algo infinitamente mais interessante.

“O Que as Mulheres Querem”: Um Filme Que Você Não Vai Querer Ver

“O que as mulheres querem?” – está aí uma pergunta que você já deve ter ouvido centenas de vezes. A verdade é que esta é uma dúvida que nos aflige desde os primórdios da humanidade e já foi abordada em diversas situações na ficção, tornando-se um tema quase trivial. Pois é exatamente isto que a cineasta Audrey Dana tenta responder em seu filme de estréia – e, levando em consideração que se trata de uma obra dirigida por uma mulher, poderíamos pensar que a forma como a questão foi explorada seria um pouco diferente. Engano o nosso…

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O Que as Mulheres Querem segue 11 mulheres parisienses buscando aquilo que desejam: amar e serem amadas. Os problemas, entretanto, se apresentam logo no início: uma repetição dos mesmos tipos já estereotipados em outras produções do gênero. Mas com um agravante: as mulheres de Audrey Dana não se bastam, necessitando sempre da figura masculina (nem que refletida em uma lésbica, para você ter noção do absurdo) para serem felizes e se realizarem por completo. Essa banalização do feminino se debruça sobre personagens superficialmente desenvolvidos, que por sua vez transitam um roteiro excessivamente caricatural que além de recorrer aos já citados estereótipos (a esposa infeliz que se apaixona por uma babá, a executiva que não tem vida social, a traída que inferniza o esposo e etc.) utiliza inúmeros clichês e fórmulas batidas com o intuito de produzir humor onde não há. Para piorar, este excesso de personagens acaba prejudicando também as narrativas individuais, com tramas que deixam pontas e desfechos indefinidos.

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A diretora (que também atua) errou feio na condução de seu longa, entregando uma das piores produções francesas nos últimos anos. Na ânsia de fazer sucesso, a cineasta não mudou a receita: apostou mais em elementos utilizados à exaustão no cinema, nos mesmos tipos e na velha abordagem que vulgariza a mulher. Com isso, nem o bom elenco (que conta com a participação da premiada Isabelle Adjani e a ex de Johnny Depp, Vanessa Paradis) e a trilha sonora empolgante são capazes de fazer com que O Que as Mulheres Querem realmente valha a pena. Com pouca graça e um final pra lá de nonsense, O Que as Mulheres Querem é uma triste prova de que as mulheres no cinema ainda ficam um pouco perdidas quando o assunto são elas mesmas.

Benny & Joon – Corações em Conflito

Há quem diga que, após a saga Piratas do Caribe, Johnny Depp carrega os trejeitos de seu icônico Jack Sparrow em todos as produções em que atua. Tudo bem, não deixa de ser um pouco verdade – mas também é certo que Depp nunca foi um ator excepcional e desde muito cedo tinha “uma cara só”, apesar de ser um camaleão em cena com o poder de se transformar naquilo que bem quiser. Esse fato curioso me vem à mente toda vez em que assisto a algum filme do artista em início de carreira – como o elogiado Benny & Joon – Corações em Conflito.

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Não que aqui Depp faça um número expressivo de “caras e bocas”, mas é possível notar desde sempre as mesmas expressões e gestos (que mais tarde se tornariam marcas clássicas de sua personagem), ainda que de forma atenuada. Isso não diminui em nada o carisma de Johnny diante das câmeras, mas joga por terra a tese de que o ator se transformou neste pandemônio ambulante ao longo dos anos (apenas desenvolveu esta “arte”). Nem mesmo quero argumentar que Depp não tenha sido competente ao interpretar Sam, um jovem esquizofrênico que passa seu tempo imitando os comediantes Charles Chaplin e Buster Keaton – mas não há nada desconcertante em sua performance que sugira que Depp tenha se corrompido com o passar do tempo.

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A trama de Benny & Joon segue os dois irmãos do título: Benny (Aidan Quinn) é um mecânico que, como irmão mais velho, tem a responsabilidade de cuidar de Joon (Mary Stuart Masterson), portadora de uma deficiência mental. Após perder uma aposta, Benny é obrigado a receber em sua casa o excêntrico Sam. Joon e o hóspede acabam se apaixonando e, com medo de perder a família, Benny passa a sentir ciúmes da irmã – lutando para aceitar a difícil realidade de que ela é uma pessoa como qualquer outra e, como tal, quer viver a sua própria vida. O roteiro, apesar de simplista, traz personagens cativantes, construindo uma atmosfera especial para tratar das relações interpessoais entre seres ditos como “diferentes”. Benny & Joon é um filme que narra o amor entre pessoas não “convencionais”, mas nem por isso inferiores – e é neste aspecto que se desenvolve o grande drama da fita: como aceitar isso? Como entender que as pessoas, por mais dependentes que sejam de outras, tem seu livre arbítrio e desejam viver suas vidas no pleno exercício de uma liberdade que não pode ser comprada?

01Com boas atuações e uma banda musical exemplar (assinada por Rachel Portman, que foi a primeira mulher a ganhar o Oscar de melhor trilha sonora por Emma, de 1996), Benny & Joon é um daqueles filmes que são feitos com a intenção de serem “fofos”: o tipo de produção que não é grandiosa, aposta na abordagem delicada e sensível de uma história aparentemente simples e que, através disso, se torna grande aos olhos da crítica e, principalmente, do público – cujo coração fica apertado. Apesar de não ser totalmente regular em sua condução, Benny & Joon é um resgate da inocência – em uma época onde predominavam tiros e pancadaria no cinema. Benny & Joon começa até meio sem graça e chatinho, mas cresce de forma tão acolhedora que, sem sombra de dúvidas, pode ser considerado um dos pontos mais fortes do cinema da década de 90.

“Mortdecai”: Mais um Fora, Hein, Johnny Depp?

Logo nas cenas iniciais de Mortdecai – A Arte da Trapaça somos apresentados a nosso protagonista: Charlie Mortdecai, um negociador de arte com caráter duvidoso e que está à beira da falência. Para saldar uma dívida milionária, ele aceita a missão de recuperar uma obra de arte que teria uma senha para acesso a uma conta secreta cheia de ouro nazista.

02Detonado pela crítica, Mortdecai – A Arte da Trapaça também foi um fracasso de bilheteria – o terceiro seguido de Johnny Depp (precedido por Transcendence e O Cavaleiro Solitário). Mas o desprezo por Mortdecai não é mérito exclusivo de Depp. Está certo, convenhamos: Johnny Depp nunca foi um grande intérprete; a bem da verdade, ele é um artista mediano desde os tempos remotos. Para além disso, Johnny é um ator de tipos. Sabe aquele seu colega de trabalho que imita os demais e faz piada de si mesmo? Este é Johnny Depp atuando – infelizmente o público só percebeu isso após a franquia Piratas do Caribe. Mas ele não chega necessariamente a decepcionar e sua atuação até que flui razoavelmente bem – até porque ele está acostumado a fazer exatamente esse tipo de persona, então não há nada muito novo e ele parece até mesmo estar confortável em cena. O fato é que Mortdecai é ruim por si só.

Adaptado da obra de Kyril Bonfiglioli, Mortdecai – A Arte da Trapaça possui um elenco de peso – Gwyneth Patrow, Ewan McGregor e Paul Bettany também participam da fita. Mas todas as suas personagens beiram a canastrice, desde um mordomo ninfomaníaco a um inspetor de polícia bobão que disputa com o protagonista o amor de sua esposa insossa. O próprio Charlie é um tipo que não desperta a menor empatia: não se sabe se ele é um herói ou vilão, pois ele não faz nada relativamente grandioso para ser admirado ou odiado, oscilando entre esses dois extremos de forma irregular. Tudo isso se reflete através de um roteiro mal desenvolvido, que não deixa claro em nenhum momento qual é a proposta do filme: ora comédia, ora policial – mas acaba falhando em todas elas. A veia cômica não funciona e recorre a piadas culturais e artísticas sem o menor sentido, enquanto as tramas policiais não empolgam.

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Com uma trilha sonora previsível e todo seu ar caricatural, Mortdecai escancara apenas o desgaste da imagem de seu protagonista. Não há dúvidas: o público parece ter se cansado de Johnny Depp; sua carreira parece estar estagnada e seu talento esvanecendo. Mas como falei, ele não é o responsável direto por todo o estrago que é Mortdecai. O diretor David Koepp (que já dirigiu Depp em A Janela Secreta) tinha em mãos um material batido e sem muito charme e assim fica difícil para qualquer elenco fazer milagre. Mortdecai é um filme que até poderia ser um bom entretenimento – e pode até agradar um ou outro que vá ao cinema sem nenhuma expectativa. Culpar Johnny Depp? Acho injustiça. Fechando os olhos para Depp e considerando todo o restante, Mortdecai – A Arte da Trapaça é uma bomba com a presença do astro ou não.

“Caminhos da Floresta”: Musical Disney Com Visual Charmoso Mas Que Perde o Interesse

O império de Walt Disney foi construído ao longo dos anos a partir de suas histórias baseadas em diversos contos de fadas. Os maiores clássicos do estúdio provêm deste tipo de narrativa – e, queira você ou não, estes filmes mudaram a forma de se fazer “animação” no cinema. Mas, é claro: o público mudou. Hoje, Branca de Neve e os Sete Anões não teria o mesmo impacto que em 1937; tampouco Pinóquio seria o herói ideal dos meninos como o foi em 1940. Muito esperta, a Disney sacou isso há alguns anos – e começou-se um processo de desconstrução dessas grandes tramas, através de refilmagens, adaptações e outras firulas com a intenção explicita de trazer o espectador ao cinema. Caminhos da Floresta é mais uma produção dessa leva.

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Caminhos da Floresta (Into The Woods) é o aguardado musical Disney, baseado na homônima peça da Broadway que faz sucesso desde a década de 80. A proposta aqui é bem simples: reunir os mais diversos personagens de contos de fadas em uma mesma trama. Dirigido por Rob Marshall (do oscarizado Chicago e também do último filme da franquia Piratas do Caribe), o fio central de Caminhos da Floresta é o drama do casal formado por um padeiro e sua esposa que, por conta de uma antiga maldição, não pode ter filhos. Desesperados, eles aceitam a ajuda de uma bruxa e partem floresta adentro em busca dos ingredientes para a poção capaz de quebrar o feitiço. A partir daí, personagens de diferentes fábulas são inseridos na trama, como Cinderela, Rapunzel, Chapeuzinho Vermelho e o tal João (aquele do pé de feijão).

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É desnecessário falar que, assim como todas as produções Disney, Caminhos da Floresta é um espetáculo que no que se refere aos aspectos técnicos – desde o figurino (assinado por Colleen Atwood) até sua ótima fotografia, abusando de cores frias para criar uma atmosfera sombria. Outro ponto fortíssimo aqui são suas músicas e a forma como são conduzidas (que me lembrou à primeira audição trechos do gênero Sweeney Todd ou mesmo sucessos da Disney, como A Bela e a Fera), que valorizam o trabalho de um elenco que está afiado e em boa sintonia. Meryl Streep, que há muito tempo já não precisa provar mais nada, está absurdamente bem caracterizada como a bruxa má – e, olha, no início achei que não mas sua indicação ao Oscar de melhor coadjuvante é válida. James Corden e Emily Blunt também demonstram boa química – o primeiro surpreendendo na cantoria. Outro que aparece rapidamente mas o suficiente para apresentar um número divertido é Johnny Depp, caracterizado como o Lobo; além de Chris Pine e Billy Magnussen, os dois príncipes que performam uma das cenas mais hilárias do filme.

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Caminhos da Floresta poderia ter sido um grande momento na carreira de Rob Marshall e seus atores. Apesar de ser um filme tecnicamente atraente, o maior pecado (talvez o único) da produção é a quebra brusca no roteiro, que praticamente divide o musical em dois atos distintos e estende em demasia a película. Assim, Caminhos da Floresta perde sua consistência e acaba sendo um tanto cansativo, fazendo com que o espectador perca o interesse pela história. Caminhos da Floresta poderia ter sido uma ótima experiência, mas é incapaz de seduzir totalmente seu público e acaba se tornando apenas um ótimo entretenimento visual.