“Nosso Fiel Traidor”: Thriller Narra Esquema da Máfia Russa

Durante uma viagem com a esposa ao Marrocos, o professor universitário Perry conhece o carismático Dima, membro do alto escalão da máfia russa e responsável por comandar um poderoso esquema internacional de lavagem de dinheiro. Buscando proteger sua integridade e a de sua família, Dima pede ajuda a Perry para entregar informações confidenciais ao MI6 (Serviço Secreto Britânico), em troca de asilo político na Inglaterra – envolvendo o docente e sua companheira em um perigoso jogo de espionagem internacional.

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O prólogo de Nosso Fiel Traidor desperta certa curiosidade, sim – pena que o restante do filme não acompanha a boa introdução. Adaptado do best-seller homônimo escrito por John le Carré, Nosso Fiel Traidor sofre por sua falta de originalidade: tudo o que se vê ao longo de quase duas horas de fita é mais do mesmo, uma reciclagem batida de elementos que, individualmente, são até interessantes. O thriller flerta com o cinema hitchcockiano (é inevitável a comparação com o clássico O Homem Que Sabia Demais) e também com o gênero noir de outrora – mas as escolhas equivocadas da diretora Susanna White fazem com que a atenção do público logo se esvaeça. A história tenta, a todo custo, forçar um clima de mistério e suspense (principalmente através da eficiente trilha de Marcelo Zarvos) e até o consegue em determinados instantes. O roteiro, entretanto, se revela confuso e Nosso Fiel Traidor definitivamente não avança, se tornando um produto para lá de enfadonho.

Mas Nosso Fiel Traidor não é, de tudo, um desperdício. Amparado por uma fotografia caprichada e um elenco competente (Ewan McGregor é o protagonista, enquanto Stellan Skarsgard dá vida a um Dima extravagante), sua trama não deixa de ter seus atrativos para aqueles que se propuserem a acompanha-la – e tiverem paciência, é claro. Filme fácil, Nosso Fiel Traidor parece ter sido encomendado como um grande presente: envolto a uma embalagem de primeira, seu conteúdo não chega, no entanto, a surpreender. Daí, a percepção só depende de você: é aceitar ou se decepcionar.

Ewan McGregor Revive as Tentações de Jesus Cristo em “Últimos Dias no Deserto”

Livremente inspirado em uma passagem do Velho Testamento, Últimos Dias no Deserto acompanha Jesus Cristo (Ewan McGregor) em sua peregrinação de 40 dias de jejum e oração pelo deserto. Nessa jornada, além de enfrentar as provações impostas pela personificação do Diabo, Yeshua (nome do filho de Deus em hebraico) encontra uma família que, apesar da aparente tranquilidade, vive em crise: um pai (Ciarán Hinds), que insiste que eles devem permanecer naquele ambiente hostil e ali sobreviver; a mãe (Ayelet Zurer), que está à beira da morte; e o filho (Tye Sheridan), cuja maior ambição é partir rumo a Jerusalém.

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Foram muitas as obras que revisitaram a vida de Cristo ao longo dos anos, desde seu nascimento até a sua morte e posterior ressurreição. Todavia, poucas produções se concentram em um texto tão específico quanto Últimos Dias No Deserto. As citações bíblicas referentes a este capítulo, entretanto, são pequenas – ou pelo menos não são suficientes para sustentar uma película como esta, mesmo que sua duração seja razoavelmente curta. Logo, para “compensar” a história, para além da introdução de prováveis personagens, a narrativa nos brinda com um espetáculo visual amparado pela fotografia ímpar do mexicano Emmanuel Lubezki. Assim como fez em O Regresso, Lubezki faz uso exclusivo da luz natural da Califórnia (onde o filme foi rodado) – e este é, de longe, o ponto mais favorável do longa, ajudando a criar uma identidade poética bem interessante. Além disso, Jesus Cristo é retratado como um ser humano “comum”. Essa visão mais humanizada, sem a roupagem “cristã” com a qual estamos acostumados, de certa forma aproxima o espectador: é como se o filme contasse a trajetória de um homem qualquer, que vaga naquele cenário desértico em busca de um encontro consigo mesmo e não simplesmente um teste de sua fé e amor a Deus.

Contando com atuações competentes por parte de todo elenco, infelizmente Últimos Dias no Deserto se arrasta demais. Embora seja tecnicamente impecável, falta provocação à fita – e mesmo oferecendo quadros de tirar o fôlego como se para promover algum tipo de reflexão (coisa que Lubezki sabe fazer como ninguém), o público não é capaz de se sensibilizar tanto com a trama quanto ela pretende. A direção e o argumento de Rodrigo Garcia nos entrega, portanto, um produto que é visualmente atraente, mas com uma proposta e conteúdo confusos independente de qualquer religiosidade.

“Mortdecai”: Mais um Fora, Hein, Johnny Depp?

Logo nas cenas iniciais de Mortdecai – A Arte da Trapaça somos apresentados a nosso protagonista: Charlie Mortdecai, um negociador de arte com caráter duvidoso e que está à beira da falência. Para saldar uma dívida milionária, ele aceita a missão de recuperar uma obra de arte que teria uma senha para acesso a uma conta secreta cheia de ouro nazista.

02Detonado pela crítica, Mortdecai – A Arte da Trapaça também foi um fracasso de bilheteria – o terceiro seguido de Johnny Depp (precedido por Transcendence e O Cavaleiro Solitário). Mas o desprezo por Mortdecai não é mérito exclusivo de Depp. Está certo, convenhamos: Johnny Depp nunca foi um grande intérprete; a bem da verdade, ele é um artista mediano desde os tempos remotos. Para além disso, Johnny é um ator de tipos. Sabe aquele seu colega de trabalho que imita os demais e faz piada de si mesmo? Este é Johnny Depp atuando – infelizmente o público só percebeu isso após a franquia Piratas do Caribe. Mas ele não chega necessariamente a decepcionar e sua atuação até que flui razoavelmente bem – até porque ele está acostumado a fazer exatamente esse tipo de persona, então não há nada muito novo e ele parece até mesmo estar confortável em cena. O fato é que Mortdecai é ruim por si só.

Adaptado da obra de Kyril Bonfiglioli, Mortdecai – A Arte da Trapaça possui um elenco de peso – Gwyneth Patrow, Ewan McGregor e Paul Bettany também participam da fita. Mas todas as suas personagens beiram a canastrice, desde um mordomo ninfomaníaco a um inspetor de polícia bobão que disputa com o protagonista o amor de sua esposa insossa. O próprio Charlie é um tipo que não desperta a menor empatia: não se sabe se ele é um herói ou vilão, pois ele não faz nada relativamente grandioso para ser admirado ou odiado, oscilando entre esses dois extremos de forma irregular. Tudo isso se reflete através de um roteiro mal desenvolvido, que não deixa claro em nenhum momento qual é a proposta do filme: ora comédia, ora policial – mas acaba falhando em todas elas. A veia cômica não funciona e recorre a piadas culturais e artísticas sem o menor sentido, enquanto as tramas policiais não empolgam.

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Com uma trilha sonora previsível e todo seu ar caricatural, Mortdecai escancara apenas o desgaste da imagem de seu protagonista. Não há dúvidas: o público parece ter se cansado de Johnny Depp; sua carreira parece estar estagnada e seu talento esvanecendo. Mas como falei, ele não é o responsável direto por todo o estrago que é Mortdecai. O diretor David Koepp (que já dirigiu Depp em A Janela Secreta) tinha em mãos um material batido e sem muito charme e assim fica difícil para qualquer elenco fazer milagre. Mortdecai é um filme que até poderia ser um bom entretenimento – e pode até agradar um ou outro que vá ao cinema sem nenhuma expectativa. Culpar Johnny Depp? Acho injustiça. Fechando os olhos para Depp e considerando todo o restante, Mortdecai – A Arte da Trapaça é uma bomba com a presença do astro ou não.

“3 Dias Para Matar”: Ação, Comédia ou o quê?

Há um momento na vida em que os anos passam, a idade chega e é inútil lutar contra o tempo. Em Hollywood, não é muito diferente. Grandes astros vêm e vão, alguns ficam mais em evidência do que outros, mas conforme o tempo vai passando aqueles que viviam de glórias passadas acabam dando espaço para os rostos mais jovens. Kevin Costner, quase uma unanimidade na década de 90 (e que devido ao seu ego inflado teve sua imagem desgastada nos anos seguintes) tem hoje a difícil tarefa de se manter na indústria cinematográfica – e 3 Dias Para Matar vem aí para provar que o ainda há espaço para os “tiozinhos” no cinema – mas não muito.

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A trama de 3 Dias Para Matar acompanha o agente da CIA Ethan Renner, que após uma missão fracassada, descobre que tem um câncer cerebral, o que lhe dá uma estimativa de vida de cerca de três meses. De volta a Paris para tentar reatar os laços com sua ex-esposa e, principalmente, sua filha adolescente (que não via há muito tempo), Ethan é abordado por Vivi Delay, uma funcionária do alto escalão da CIA, que lhe oferece uma droga alternativa capaz de lhe dar algum tempo a mais de vida. No entanto, em troca do tratamento, a misteriosa mulher exige que Ethan aceite uma última missão.

Dirigido por McG (da sequência As Panteras e do mais recente Guerra é Guerra) e com o roteiro escrito por Luc Besson (um especialista do gênero de ação), 3 Dias Para Matar é um filme que nos dá uma sensação de “eu já vi isso em algum lugar…” a todo o momento – e a razão é simples: já pela sinopse, percebe-se que estamos diante de um produto recheado de clichês. Tudo parece que funciona para favorecer uma narrativa previsível e com uma história má construída. E para piorar, a trama gira em sequências sem nenhuma credibilidade e sem o menor realismo. Quer um bom exemplo? Por diversas vezes Ethan tem a oportunidade de liquidar o homem que tanto procura – mas sempre acaba fracassando por conta de uma tontura decorrente de sua doença (um típico recurso para sustentar um roteiro bem fraco).

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Alternando entre ação, drama familiar e comédia, ironicamente o filme se sai melhor neste último quesito. Não que seja de um humor muito apreciável, mas as sacadas humorísticas funcionam muito mais do que as cenas de ação (que não empolgam o público por completo) e o drama familiar (que fica na superfície e serve apenas como pretextos na história). As atuações também não colaboram e o próprio protagonista da trama não possui muita empatia. Kevin Costner parece estar com uma batata quente na boca, visivelmente pouco à vontade com o que acontece a sua volta. Amber Heard, a agente misteriosa e sexy que aparece do nada e sai de cena da mesma forma que entrou, é só uma justificativa para se colocar uma “loira boazuda” na produção (Amber não convence e é excessivamente caricata, apesar de intensamente bela). Nem mesmo a jovem Hailee Steinfeld (indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante por Bravura Indômita, de 2010) está totalmente bem, fazendo um tipo adolescente irritante – e é preocupante ver que uma atriz de talento ameaça sua carreira com esses tipos de papéis estereotipados.

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Mas em meio a tudo isso, há de dizer uma verdade: 3 Dias Para Matar, ainda assim, é um filme que agrada – e agrada porque é despretensioso, é leve e se revela um bom entretenimento para a grande massa. Não à toa, 3 Dias Para Matar tem se saído muito bem nas bilheterias norte-americanas (o suficiente pelo menos para se pagar, o que nos dias atuais já é um grande trunfo). Com uma qualidade inferior a outras grandes produções do gênero, para um espectador mais “cinéfilo”, 3 Dias Para Matar peca principalmente em dois pontos: em sua duração, prejudicada por um excesso de cenas desnecessárias e que não trazem nenhum significado à trama, sendo totalmente dispensáveis; e, principalmente, sua falta de rumo – como já mencionado, o filme oscila entre a ação, o humor, o drama de uma hora para a outra, não obtendo um êxito muito grande em nenhum destes quesitos. No entanto, é um produto hollywoodiano facilmente digerido e que, em algum momento, vai passar em alguma sessão de filmes na TV aberta, sendo vendido como “grande sucesso de bilheteria”. Mas não se engane: 3 Dias Para Matar é puro cinema entretenimento e em nada contribui para a sétima arte – muito menos para tentar alavancar a carreira de Costner. Se é que ainda tem jeito…

Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas

Meus amigos mais próximos sabem que sou avesso aos blockbusters norte-americanos. Mesmo quem me acompanha através das redes sociais percebe claramente que eu torço o nariz para longas que abusam de efeitos especiais miraculosos. Portanto, não seria de imaginar que um dos meus cineastas favoritos fosse o excêntrico Tim Burton. Não que ele não utilize efeitos especiais ou não crie filmes com grandes bilheterias (está aí Alice no País das Maravilhas para comprovar), mas ele é um dos poucos diretores cuja obra é identificada facilmente à primeira vista. E Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, lançado em 2003, é uma espécie de cartão de visita para quem quer entender a obra burtoniana.

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Peixe Grande de Burton é a adaptação do delicado livro de Daniel Wallace (tive a oportunidade de ler a versão original em inglês) e apresenta um roteiro previsivelmente clichê: um filho que tem a oportunidade de reconstruir a imagem paterna enquanto seu pai, um inveterado contador de história, está com uma doença terminal. Nada muito novo – tanto que outros diretores, como Spielberg ou Stephen Daldry foram cotados para estar à frente do projeto. Entretanto, a própria personalidade de Burton foi determinante para sua escolha. Quando criança, Burton foi problemático. Seu relacionamento com os pais nunca foi bom – Burton ficou durante anos sem manter contato com o pai, até sua morte, no início da década passada, justamente na época em que recebeu o roteiro. Talvez por estar tão ligado a essa memória recente, Burton tenha se empenhado tão fervorosamente neste filme.

Will Bloom passou a vida inteira ouvindo as histórias do pai. Entretanto, à medida que envelhece, os contos fantasiosos do velho se tornam absurdos para a mente antiquada e ressentida de Will. É com este ressentimento que Will retorna ao lar, após anos sem falar com seu progenitor, para tentar aos poucos recriar a identidade do pai e separar o homem do mito, a realidade da ficção. E é essa mistura de dois mundos que tornam Peixe Grande um filme tão encantador quanto o universo de seu diretor.

bigfish1É impossível ficar indiferente ao mundo fantasioso que Burton cria para contar a história de Edward. Narrada em flashbacks, cada cena ajuda a compor e a mitificar o personagem central da trama, brilhantemente interpretado por Ewan McGregor quando jovem e um Albert Finney inspirado na fase final da vida. Mais uma vez, como em qualquer um de seus trabalhos, Burton dá uma aula (não estou exagerando por ser fã pessoal do diretor) de como fazer uma fotografia impecável, marcada por cenários exuberantes. Mesmo os menores e mais simples, externos ou internos, são recriados com detalhes simples que só realçam a pureza e leveza do longa. Este aspecto técnico se torna ainda mais evidente nas cenas mais emocionantes do filme, como quando Edward conhece sua esposa – e depois quando a pede em casamento, em uma rua recheada de narcisos – , na cidade de Espectro ou no banho de banheira (de longe, a cena que mais me faz chorar na história).

bigfishSurpreendendo por dirigir um dos melhores roteiros de sua carreira (uma constante nos filmes burtonianos são os roteiros esburacados), a história reveza momentos reais e imaginários. No plano real, temos um Will seco, distante, que acusa e censura o pai doente a todo momento. As únicas figuras mágicas neste universo são as personagens femininas: Sandra, a esposa de Edward, interpretada por Jessica Lange – tão radiante, tão sensível quanto um anjo – e Josephine, a romântica esposa de Will. O plano imaginário, por sua vez, é repleto de personagens encantadores: o poeta, o gigante, o dono do circo, as gêmeas – todos tão belos quanto o próprio universo em que estão inseridos, mesmo que alguns não tenham sido devidamente explorados.

As situações presentes em Peixe Grande são bizarras, mas nada soa ridículo – mesmo a ideia de ser um “peixe grande dentro de um lago” é levada ao ápice, com a expressão retratada no filme à risca. A sensação que se tem ali é de que estamos inseridos dentro de um livro de fantasia, repleto de personagens surreais, mas que estão instintivamente ligados à nossa realidade. Além disso, a grandeza do personagem principal (com a certeza de que não morreria antes do tempo – o que lhe dá a coragem necessária para enfrentar qualquer desafio), que diferente dos outros filmes de Burton não é uma criança mas sim seu pai, torna Edward tão cativante quanto o outro Edward que conhecemos há alguns anos atrás, também pelas mãos de Burton.

bigfish4Burton vinha de um fiasco comercial, sua insossa versão para Planeta dos Macacos – e mesmo seus trabalhos anteriores não foram grandes sucessos de bilheteria. Com um orçamento estimado de cerca de 70 milhões de dólares, Peixe Grande foi recebido como a redenção de Tim, apesar de também não ser sua maior bilheteria. Entretanto, Peixe Grande foi o filme mais… “filme” de Tim Burton. De longe, é o que carrega a maior carga de emoção – talvez pelas próprias condições humanas de Burton. Tem ainda quem acredita que esta foi a única (e maior) esperança de Burton de conseguir um Oscar – em um ano de produções bem razoáveis. Pois é, Hollywood não o quis. Definitivamente, Burton é um peixe muito grande para a indústria cinematográfica atual. Mas, bem, deixemos que ele nade neste lago. Como a própria trama sugere, um homem conta tantas vezes sua história que acaba sobrevivendo a elas e assim se torna um mito. Esta foi a maior conquista de Burton até então.