“Nosso Fiel Traidor”: Thriller Narra Esquema da Máfia Russa

Durante uma viagem com a esposa ao Marrocos, o professor universitário Perry conhece o carismático Dima, membro do alto escalão da máfia russa e responsável por comandar um poderoso esquema internacional de lavagem de dinheiro. Buscando proteger sua integridade e a de sua família, Dima pede ajuda a Perry para entregar informações confidenciais ao MI6 (Serviço Secreto Britânico), em troca de asilo político na Inglaterra – envolvendo o docente e sua companheira em um perigoso jogo de espionagem internacional.

01

O prólogo de Nosso Fiel Traidor desperta certa curiosidade, sim – pena que o restante do filme não acompanha a boa introdução. Adaptado do best-seller homônimo escrito por John le Carré, Nosso Fiel Traidor sofre por sua falta de originalidade: tudo o que se vê ao longo de quase duas horas de fita é mais do mesmo, uma reciclagem batida de elementos que, individualmente, são até interessantes. O thriller flerta com o cinema hitchcockiano (é inevitável a comparação com o clássico O Homem Que Sabia Demais) e também com o gênero noir de outrora – mas as escolhas equivocadas da diretora Susanna White fazem com que a atenção do público logo se esvaeça. A história tenta, a todo custo, forçar um clima de mistério e suspense (principalmente através da eficiente trilha de Marcelo Zarvos) e até o consegue em determinados instantes. O roteiro, entretanto, se revela confuso e Nosso Fiel Traidor definitivamente não avança, se tornando um produto para lá de enfadonho.

Mas Nosso Fiel Traidor não é, de tudo, um desperdício. Amparado por uma fotografia caprichada e um elenco competente (Ewan McGregor é o protagonista, enquanto Stellan Skarsgard dá vida a um Dima extravagante), sua trama não deixa de ter seus atrativos para aqueles que se propuserem a acompanha-la – e tiverem paciência, é claro. Filme fácil, Nosso Fiel Traidor parece ter sido encomendado como um grande presente: envolto a uma embalagem de primeira, seu conteúdo não chega, no entanto, a surpreender. Daí, a percepção só depende de você: é aceitar ou se decepcionar.

Anúncios

Xadrez, Insanidade e Guerra Fria em “O Dono do Jogo”

É comum ouvirmos por aí que a genialidade sempre vem carregada de uma dose de loucura. E, de fato, essa afirmação não é totalmente inválida – seja para o bem ou para o mal. E é essa ideia que podemos acompanhar em O Dono do Jogo, novo filme de Edward Zwick (de Lendas da Paixão e Diamante de Sangue) estrelado por Tobey Maguire. Na trama, baseada em acontecimentos reais e ambientada na década de 70 em plena Guerra Fria, conhecemos o jovem fenômeno Bobby Fischer, um enxadrista norte-americano que tenta levar seu país a conquistar o seu primeiro título no Campeonato Mundial, desafiando o então vencedor, o russo Boris Spassky.

01

O Dono do Jogo é previsível do início ao fim. Talvez por se tratar de uma biografia, sabemos exatamente o que esperamos de sua narrativa e é justamente isso que o seu diretor nos entrega – com bastante sobriedade, sem grandes surpresas ao longo de sua projeção. Seu desenvolvimento é feito sem pressas e a condução é significativamente equilibrada. Todavia, isso não diminui esta produção. Pelo contrário: com isso, conseguimos construir (ou melhor, desconstruir) nosso protagonista: conforme o argumento se intensifica, os distúrbios psicológicos de Fischer se agravam. Seus ataques de insanidade se tornam frequentes à medida que sua lucidez se esvaece e o cineasta já consegue prender a atenção do espectador nos instantes iniciais do filme. Ainda que Tobey não tenha um desempenho tão satisfatório (é visível que o ator está desconfortável em algumas sequências), a tensão criada na história ganha traços de um thriller – mesmo com as escolhas “fáceis” ao qual seu diretor recorre.

Para além disso, há de se elogiar a bela direção de fotografia, que consegue nos fazer emergir no tempo com a ótima recriação da época. É, sem sombra de dúvidas, um dos pontos técnicos mais favoráveis do filme, junto com a excepcional trilha sonora. O longa cresce ainda mais a partir de sua segunda parte, onde a disputa entre Fischer e Spassky fica cada vez mais acirrada. Porém, esta disputa entre eles é meramente simbólica – a batalha aqui é patriota: EUA e União Soviética conflitavam indiretamente para conquistar a hegemonia política, econômica e militar no mundo. O xadrez apenas disfarçou aquilo que todos já conheciam. Assim, O Dono do Jogo vai muito além de um thriller psicológico, indo muito mais a fundo e se tornando um filme que, definitivamente, merece ser conferido.

“Na Próxima, Acerto no Coração” Estuda a Mente de Serial Killer

02Ninguém dava bola para Guillaume Canet, quando lá no início dos anos 2000, o rapaz atuou ao lado de Leonardo DiCaprio em A Praia, de Danny Boyle. Em começo de carreira, Guillaume não era lá um grande intérprete – mas o tempo passou e foi generoso: com muita dedicação, o bonitão se tornou um dos mais promissores atores franceses de sua geração (além de diretor e roteirista). Agora, o quarentão é o nome principal de Na Próxima, Acerto no Coração, thriller dirigido por Cédric Anger inspirado em acontecimentos reais que chocaram uma pequena comunidade na França no final da década de 70. A trama acompanha um policial extremamente rígido em suas funções, designado junto com sua equipe a investigar uma série de crimes brutais cometidos contra jovens mulheres. Na verdade, o serial killer em questão é o próprio militar.

O argumento de Na Próxima, Acerto no Coração foge do convencional estilo “investigativo”: já de cara, a identidade do assassino é revelada. Isso não diminui o filme; pelo contrário: a narrativa se concentra praticamente na construção de seu protagonista da forma mais abrangente possível. O roteiro não se lança sobre a investigação, mas sim sobre Franck: sua rotina, seus sentimentos, trejeitos e comportamento diante dos fatos. O personagem tem consciência do que é moralmente certo ou errado; ele pratica autoflagelação, apesar de não ser um fanático religioso; vem de uma família aparentemente amorosa, mas trata suas vítimas com total frieza; tem nojo de sujeira e se incomoda com o sangue das mulheres que mata, mas passa horas caminhando por florestas inóspitas. Enfim, cada detalhe é importante para que a personalidade de Franck seja bem definida.

01

Canet é competente em sua atuação. Seu tipo misógino (apesar do filme não escancarar uma possível homossexualidade de Franck) é reforçado por uma constante expressão de insatisfação, com muita sobriedade (algo que só sua maturidade diante das câmeras foi capaz de produzir). Com uma fotografia que preza as cores frias e uma trilha sonora inquietante, Na Próxima, Acerto no Coração é um longa que não oferece pistas muito fáceis ao espectador –  até mesmo porque a história não se debruça sobre os fatos, mas sim sobre seu protagonista. Sabemos que Franck será capturado em algum momento, mas queremos seguir seus passos, aguardando seu próximo crime. Na Próxima, Acerto no Coração pode não ser memorável, é verdade, mas acerta em cheio ao abandonar os clichês do gênero e explorar com propriedade a mente de um assassino.

O Último Portal

Todas as biografias de Roman Polanski afirmam que o diretor tenha feito um pacto com o demônio em troca da fama. Não se pode afirmar ao certo se tal pacto realmente existiu, mas é fato incontestável que Polanski tem uma vida fora dos palcos muito mais polêmica do que sua própria obra. Em O Último Portal, de 1999, o diretor retoma um tema que abordara (ainda que parcialmente) trinta anos antes, em seu cultuado O Bebê de Rosemary: o satanismo, o sobrenatural, o além.

04

O Último Portal é uma viagem ao reino das trevas. Na trama, Dean Corso (Johnny Depp, antes da saga Piratas do Caribe) é um especialista e negociante de livros raros de caráter duvidoso e despudorado, contratado pelo milionário Boris Balkan (Frank Langella) para confirmar a autenticidade de um livro raro que, segundo consta, teria sido co-escrito por Aristide Torchia e o próprio demônio. Na realidade, Boris possui um dos três únicos exemplares do livro de Torchia dos nove escritos em 1966 que teriam o poder de invocar o diabo e abrir as portas para o inferno.

Essa é a primeira incursão séria de Polanski ao sobrenatural. Boa parte da obra mais autoral do diretor já tem alguns elementos essenciais em thrillers de mistério ou sobrenatural (como o já citado O Bebê de Rosemary ou O Inquilino). No entanto, em O Último Portal, Polanski vai mais a fundo, quase caindo nos clichês do gênero. Não fosse pelo talento do cineasta, O Último Portal teria tudo para ser mais um longa de suspense a tratar temas sobrenaturais – mas Polanski conduz tão bem a tensão e o clima decadente da história que o filme se torna uma obra que te deixa atordoado (positiva ou negativamente).

02

Polanski torna o livro misterioso no principal personagem de seu filme. Dean Corso é um anti-herói, que vai ganhando mais empatia à medida que se torna mais decadente como ser humano. A frieza de Corso (e sua moral cínica) deixa o personagem ainda mais interessante, enquanto ele se vê cada vez mais determinado a encontrar uma resposta para o enigma que tenta desvendar, ainda que não saiba exatamente o porquê. Aliás, não há porquês – e com isso, Polanski cria um suspense aterrorizante. Tudo aqui está sujeito a interpretações, afinal o diretor não explica nenhum dos acontecimentos que há em cena – o que abre margem para as mais diversas hipóteses. Há grupos de debates na rede que tentam decifrar alguns enigmas da história, como a identidade da personagem de Emannuelle Seigner ou a pessoa por trás dos assassinatos da trama. A interpretação é exigida até mesmo no final do filme – de uma ambiguidade que divide os fãs, deixando uns fascinados e outros decepcionados.

03

Polanski cria ainda um ambiente recheado de sugestões: a obra é repleta de referências e citações, com pistas escondidas que conduzem às mais diversas leituras. Deixando as soluções muito fáceis de lado (uma constante no cinema norte-americano), Polanski é um deus fanfarrão que deixa suas personagens como marionetes, manipulando-os da maneira que bem entender para criar seu suspense – que ainda é mais atenuado com a excelente trilha sonora do polonês Wojciech Kilar (um subestimado que, entre outros, assina a trilha de Drácula de Bram Stoker, de Francis Ford Copolla), com toda sua erudição e mistério. O bom uso das locações e decoração de interiores ajudam a melhorar a fotografia do longa, acentuando o ocultismo por trás da tela.

Para muitos um ótimo filme – para outros um fiasco na carreira do diretor (de fato, a produção tem uma das piores avaliações da filmografia do cineasta), O Último Portal não é um filme ruim – para quem não está totalmente inundado com o cinema “fácil” norte-americano. A trama abre margem para diversas suposições – e cabe ao expectador decidir qual delas é a mais adequada. As ótimas cenas (o suicídio no começo do filme já diz bastante do que se vem por aí) e boas sacadas de câmera (a cena em que Dorso é atacado com um golpe na cabeça) são exemplos do talento do diretor para criar sequências de suspense que não menosprezam a inteligência do expectador – algo que, como cinéfilo, eu admiro profundamente. Apesar do ritmo lento em alguns momentos, O Último Portal é um thriller que proporciona um bom debate sobre as forças ocultas e satanismo – o que aumenta ainda mais os mitos acerca da obra e, principalmente, da vida de Polanski.

Repulsa ao Sexo

Repulsa ao Sexo foi a primeira produção de Roman Polanski rodado em língua inglesa – além de ser o primeiro filme de uma sequência que ficou conhecida como “trilogia do apartamento” – onde as histórias se desenrolam dentro desse tipo de moradia, o que acentua a paranoia de suas personalidades, a claustrofobia e clima obscuro do lugar e, sobretudo, muito mistério e suspense. Seguida ainda por O Bebê de Rosemary (1968) e O Inquilino (1976), essa trilogia é composta por aqueles que, para muitos fãs do cineasta, são considerados as melhores obras de Polanski.

01

Uma das coisas que admiro na obra de Roman é o seu talento para fazer temas simples crescerem de forma absurda na tela. Repulsa ao Sexo é um bom exemplo desse dom natural do cineasta. Na história, acompanhamos a bela Carol, manicure que trabalha num salão de beleza londrino e mora em um pequeno apartamento com a irmã mais velha. Inicialmente vista como uma moça tímida e retraída, Carol aos poucos revela um estado de desligamento completo do mundo ao seu redor, culminando em uma repressão sexual que mais tarde (quando sozinha no apartamento devido a viagem da irmã junto com o amante) tornaria seus medos e angústias em situações de esquizofrenia repletas de violência e perversão.

04

Repulsa ao Sexo é um dos melhoras produções que abordam a questão da esquizofrenia feminina. Em tempos de Cisne Negro, obviamente uma bela produção do gênero, Repulsa ao Sexo (que foi pessimamente traduzido de Repulsion, título original e muito melhor) é um filme que talvez não funcionasse tão bem em nossa geração. A Londres da época estava em efervescência cultural crescente. Mais do que apenas uma trama sobre esquizofrenia (que irei falar mais adiante), Repulsa ao Sexo também é uma resposta do cinema de Polanski ao machismo que imperava no período, mostrado sutilmente em pequenos golpes de tela, como nas cantadas que Carol recebe na rua, na maneira como sua irmã é tratada pelo amante casado, o cobrador de aluguel que tenta se aproveitar da garota ou mesmo na reação de seu admirador ao ser esnobado por ela – o que fomenta os debates sobre a origem do comportamento doentio da personagem principal.

03

Mas, espere: será Carol a personagem principal deste thriller? Do ponto de vista psicológico, talvez. No entanto, Polanski faz algo surreal: dá vida ao apartamento, que acaba se tornando o centro do desenrolar de toda a narrativa. Se antes o apartamento servia como refúgio de Carol contra tudo o que lhe afligia, quando se vê sozinha nele o mesmo local se torna seu maior algoz. Se antes o sexo esteve sempre fora de seu lar, agora ele penetra todos os cômodos de seu apartamento, vagando de forma impulsiva e, por vezes, violenta. Os cômodos se tornam cada vez mais claustrofóbicos e opressivos, aumentando gradativamente o processo de degradação psicológica da personagem de Carol. Aqui, Polanski cria um locação assustadora: ele altera as dimensões do ambiente, expandindo os cômodos e movimentando paredes, fazendo com que o público sinta quase o mesmo efeito da mentalidade distorcida de Carol. Com metáforas que evidenciam essa degradação (o coelho temperado que apodrece fora da geladeira, batatas que criam raízes, as paredes cheias de rachaduras), o diretor permite ao espectador acompanhar como um voyeur a desconstrução da racionalidade de Carol.

02

Uma observação há de ser feita: nada disso seria possível sem a habilidade de Polanski em extrair boas atuações de seu elenco. Definitivamente, Roman é um ótimo diretor de atores – e em Repulsa ao Sexo ele consegue deixar Catherine Deneuve completamente oca, vazia. Seu olhar perdido direto para o chão rachado no meio da rua ou enquanto faz seu serviço de manicure evidenciam todo o talento da então jovem atriz – aliás, já nos créditos iniciais, esse mesmo olhar é focado em uma tomada que já nos deixa atordoados logo no início da projeção. Alem do olhar constantemente perdido (o que já derruba por terra a questão da repulsão ao sexo apenas), Catherine empresta seus movimentos contidos e receosos e sua voz tímida para construir uma manifestação de esquizofrenia que apavora o espectador. Seus delírios beiram o surreal (como na cena do suposto estupro), assim como sua aversão a tudo aquilo que tenha qualquer vínculo sexual (os gemidos da irmã enquanto mantém relações com o amante no quarto ao lado ou o simples fato de dividir sua pia com objetos do cunhado).

05

Do ponto de vista técnico ainda, todos os elementos estão harmoniosamente sincronizados (especialmente a direção de arte e fotografia em preto e branco, que deixam o apartamento muito mais assustador). São esses mesmos elementos que contribuem muito mais para a história do que os próprios diálogos. Mais do que palavras, é a fotografia e o belo uso da linguagem visual que acentuam a claustrofobia do ambiente e a insanidade de Carol (as cenas das mãos masculinas agarrando Carol na parede é um delírio visual).

Repulsa ao Sexo é, portanto, um belo início para uma ótima trilogia – mas, infelizmente, esquecido pelo sucesso O Bebê de Rosemary, que também ofuscou o ótimo O Inquilino (provavelmente, o melhor da série). No site Rotten Tomatoes, o filme tem 100% de avaliação positiva da crítica – o que não seria uma surpresa. Como estudo psicológico, Repulsa ao Sexo se aprofunda na psique humana para demonstrar o processo de degradação psicológica de uma personagem, mas sem se preocupar em explicar as origens desta deterioração. Como obra cinematográfica, é um belo exemplar daquilo que podemos chamar de thriller psicológico, o que o torna um dos trabalhos mais perturbadores que Polanski já produziu – e por que não dizer o próprio cinema?