“Seremos História?”: Documentário com Leonardo DiCaprio é um Alerta Sobre as Mudanças Climáticas

Desde o início de sua carreira, Leonardo DiCaprio sempre se mostrou um árduo defensor das causas ambientais. Elogiado por inúmeros grupos ambientalistas devido ao trabalho que promove desde então, o intérprete foi nomeado pela ONU, em 2014, seu mensageiro da paz e representante das alterações climáticas no mundo – o que o tornou gabaritado para estrelar o potente documentário Seremos História?.

Com produção executiva de Martin Scorsese e direção de Fisher Stevens, Seremos História? acompanha a jornada de três anos do astro hollywoodiano em busca de respostas às ameaças ao meio ambiente. Durante o período, o ator rodou o planeta, visitando locais onde as mudanças climáticas são mais evidentes e causam maior impacto – como a Flórida, nos EUA, que sofre todos os anos com inundações; a Groenlândia, cujas geleiras se derretem mais rapidamente a cada dia; ou mesmo algumas ilhas do Pacífico, prestes a desaparecer com o aumento do nível do mar.

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A proposta do documentário é simples: alertar o público de que a situação é crítica e tem de ser discutida com urgência. O texto de Mark Monroe argumenta que os governos mundiais precisam tomar ações imediatas para preservar o meio ambiente. Entre elas, a cobrança de impostos sobre combustíveis que emitem dióxido de carbono; o incentivo ao uso de energias renováveis (como a eólica, por exemplo); e até mesmo uma nova dieta alimentar. A dificuldade, segundo a obra, reside inicialmente no fato de que as informações sobre as alterações do clima são bastante controversas: se por um lado há quem defenda que o aumento da temperatura mundial não é nada perto da evolução da humanidade nos últimos anos, os mais pessimistas acreditam que o momento é crucial: por mais que não possamos frear as consequências, podemos desde já arregaçar as mangas e buscar soluções que ajudem a minimizar os impactos causados.

Uma nação informada é uma nação empoderada.

DiCaprio discute o tema com os tipos mais variados: entre líderes políticos, cientistas e outros, Leonardo entrevista nomes como o presidente norte-americano, Barack Obama, o secretário-geral da ONU e o Papa Francisco, primeiro pontífice a se pronunciar acerca do aquecimento global. Apesar de sua visível falta de domínio do assunto, o ator é corajoso ao expor na tela aqueles que, de acordo com o roteiro, seriam os grandes vilões – incluindo nomes de políticos e empresas do ramo alimentício. Além disso, ele não se intimida ao dizer que o Acordo de Paris (assinado por líderes de vários cantos do mundo) não pode ficar restrito apenas ao papel; pelo contrário, ele deve abranger medidas concretas que precisam ser implementadas o quanto antes.

Já disponibilizado no National Geographic Channel, além de outras plataformas, Seremos História? é, antes de uma produção muito bem feita, um poderoso alerta a todos nós: cada um é responsável, em menor ou maior escala, pelo que acontece no mundo e todos podemos fazer a nossa parte. A conscientização aqui é fundamental. A pergunta do título é interessante e é justamente o que esta produção deseja: nos fazer refletir se, afinal, seremos capazes de salvar o planeta (e a nós mesmos) ou nos deixaremos ser consumidos por nossa própria arrogância.

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Please, Give That Man a Fucking Oscar!

Às vésperas da 88ª cerimônia de entrega dos Academy Awards, decido checar meus perfis nas redes sociais e me deparo com um evento no Facebook no mínimo criativo: “Se o Leonardo DiCaprio ganhar o Oscar, todo mundo se encontra na Avenida Paulista”. A princípio, ri bastante da criatividade dos internautas: os memes, as piadas, os gifs – realmente, a zoeira não tem limite. Mas depois de certo tempo comecei a refletir sobre a situação: o tão sonhado Oscar para Leonardo DiCaprio.

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De cara, devo confessar que nunca me simpatizei com DiCaprio, mas devo reconhecer que o cara manda bem. Ele sabe escolher seus filmes e tem controle absoluto sobre suas personagens. Costumo dizer que Leonardo é, definitivamente, um ator, mas não um artista. Disciplinado, competente, preciso – essas são algumas das muitas qualidades de DiCaprio diante das câmeras. Ele realmente sabe atuar. Para mim, talvez, falte apenas aquela “alma” em suas atuações – mas, sim, isto pode ser uma questão pessoal, pois no geral acho Leonardo um profissional excepcional. Arrisco dizer que ele é o melhor intérprete hollywoodiano de sua geração. Mais do que isso: seu progresso é admirável. De astro teen à um dos atores mais bem pagos e requisitados, o público acompanhou sua trajetória. O eterno Jack cresceu aos olhos do espectador – e isso, é claro, cria uma grande empatia. Isso explica a imensa torcida mundo afora para que DiCaprio, finalmente, receba seu merecido Oscar.

Mas podemos dizer que Leonardo foi injustiçado todos estes anos? Creio que não. Apesar colecionar boas performances ao longo de sua carreira (o que lhe rendeu 5 indicações ao Oscar), o grande problema que persegue DiCaprio é o fato de sempre ter alguém “melhor” do que ele concorrendo na mesma categoria. Em 1994, quando recebeu sua primeira indicação como coadjuvante, Leo perdeu o prêmio para Tommy Lee Jones por O Fugitivo. Uma década depois, foi Jamie Foxx (por seu papel magnânimo na cinebiografia Ray) quem tirou de DiCaprio o sonho da primeira estatueta. Em 2014, a situação foi ainda mais inquietante: com aquela que, talvez, é sua melhor atuação em anos (em O Lobo de Wall Street), Leonardo perdeu mais uma vez – aqui para Matthew McConaughey, por seu brilhante trabalho em Clube de Compras Dallas (e, cá entre nós, não havia chances de o resultado ser diferente). Todos estes exemplos só reforçam uma coisa: Leonardo sempre mereceu o prêmio, mas sempre aparecia alguém que merecia mais do que ele.

A Internet não perdoa mesmo...

A Internet não perdoa mesmo…

Neste ano, a situação pode ser diferente: Leo é o favorito de sua categoria. Além disso, a torcida por ele é muito forte. Mas é um fato: se realmente ganhar, DiCaprio vai entrar na lista daqueles que levaram um Oscar pelo conjunto da obra e não pela obra em si – porque a verdade é que sua atuação é boa, sim, mas… Você, leitor, já assistiu a A Garota Dinamarquesa? Tem noção do que é Eddie Redmayne neste filme? Não? Pois eu sugiro que você corra e assista esta produção imediatamente. Eddie é espetacular e não fosse por ter ganhado o Oscar no ano anterior (precocemente, talvez), eu poderia afirmar que este ano é dele. Ao menos, é o meu favorito.

DiCaprio já teve inúmeros momentos mais inspirados do que em O Regresso, mas esta talvez seja sua hora. Para seus fãs, um prêmio merecido – para mim (e muitos outros) um reconhecimento questionável. Mas pensemos pelo lado positivo: se Leo perder (mais uma vez), ao menos durante um ano poderemos nos divertir na Internet com sua incansável busca pelo Oscar.

“O Regresso”: Muito Maior do que Leonardo DiCaprio

Não faz um ano que vimos o mexicano Alejandro González Iñárritu subir ao palco para receber das mãos de Ben Affleck o Oscar de melhor diretor – e, minutos depois, voltar lá e faturar o prêmio mais disputado da noite (desbancando o favorito da ocasião, Boyhood – Da Infância à Juventude). Ali, Iñarritu atestava seu talento incontestável como cineasta – e, por essas razões, as expectativas quanto ao seu novo filme, O Regresso, são altas. Mas não apenas por isso: todo o histórico da produção contribuiu para seu produto final. Dos inúmeros boatos envolvendo as extravagâncias de Alejandro às declarações de DiCaprio de que este seria “o trabalho mais difícil de sua carreira”, O Regresso chega como um dos mais fortes concorrentes ao Oscar do próximo ano.

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Baseado na obra homônima de Michael Punke e roteirizado pelo próprio Iñarritu em parceria com Mark L. Smith, O Regresso nos traz a história real do famoso explorador Hugh Glass (Leonardo DiCaprio), que após escapar de um ataque de índios durante uma expedição no inóspito interior norte-americano, é atacado por um urso e abandonado como morto pelos membros de sua equipe. Guiado pelo amor de sua família e um instinto de vingança contra John Fitzgerald (Tom Hardy), que assassinara seu único filho a sangue frio, Glass vai enfrentar a natureza selvagem e um inverno brutal em busca da sobrevivência – e também de sua própria redenção.

O Regresso é absolutamente impressionante visualmente – e o maior êxito do longa é a primorosa fotografia de Emmanuel Lubezki (de A Árvore da Vida, Gravidade e Birdman). Se muitos já ficaram de boca aberta por seus trabalhos anteriores (especialmente em A Árvore da Vida – para mim, um dos filmes mais belos de todos os tempos), certamente é em O Regresso que o diretor assina sua obra-prima. É claro que as ótimas locações (do Canadá à Patagônia argentina) ajudaram muito, mas sua técnica aqui é soberba: praticamente cada frame é um vislumbre visual – isso sem falar nos estonteantes planos-sequências, principalmente nas cenas de perseguição e no ataque indígena no início da fita. Vale ainda ressaltar que o filme foi rodado exclusivamente com luz natural, o que favoreceu muito a performance de Lubezki – bem como a montagem de Stephen Mirrione, que evita a perda de ritmo (para uma película com mais de duas horas e meia de duração), o tornando menos cansativo do que se pode esperar.

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Quanto a DiCaprio, pouco há a se dizer exceto “magnífico”. Sempre fui um tanto contrário ao ator – na realidade, nunca o achei um intérprete acima da média; apenas um bom profissional na escolha de suas personagens. Mas devo reconhecer que já há alguns anos o não mais Jack vem se tornando um excelente artista. Não fosse por Eddie Redmayne (em A Garota Dinamarquesa), Leonardo seria meu favorito. Ele se entrega de corpo e alma (literalmente, afinal O Regresso flerta em alguns instantes com algumas questões espiritualistas – em uma vaga e singela lembrança à Dead Man, de Jim Jarmusch). Para além disso, o desenvolvimento de sua personagem se dá de forma gradual – prendendo a atenção do público até o grande clímax. Não menos inspirado, Tom Hardy também se mostra sóbrio na construção do vilão da trama: um homem egoísta, cuja ambição parece estar acima de tudo. Hardy é outro que merece ser olhado com mais carinho nos próximos anos.

Não menos importante, outros pontos se destacam em O Regresso, desde a caprichosa direção de arte à discreta (mas não medíocre) trilha sonora, que se mostra presente de forma bastante concreta – aliás, todo o trabalho de som da projeção é digno de aplausos, capaz de dar ao espectador a possibilidade de imergir na narrativa como poucas vezes no cinema. Com isso, O Regresso é quase uma experiência sensorial (em algumas cenas, por exemplo, é possível ver a respiração ofegante de DiCaprio na câmera ou sentir-se sufocado com a sequência do ataque de urso). Seu grande “porém” é, talvez, seu próprio protagonista: na ânsia por premiar Leonardo DiCaprio, o público reduz o filme apenas a ele – o que é um erro terrível, visto a qualidade inegável de todo o projeto. Uma pena: O Regresso é único em sua totalidade e, ganhando prêmios ou não, já é um marco para quem sabe apreciar cinema.

“Na Próxima, Acerto no Coração” Estuda a Mente de Serial Killer

02Ninguém dava bola para Guillaume Canet, quando lá no início dos anos 2000, o rapaz atuou ao lado de Leonardo DiCaprio em A Praia, de Danny Boyle. Em começo de carreira, Guillaume não era lá um grande intérprete – mas o tempo passou e foi generoso: com muita dedicação, o bonitão se tornou um dos mais promissores atores franceses de sua geração (além de diretor e roteirista). Agora, o quarentão é o nome principal de Na Próxima, Acerto no Coração, thriller dirigido por Cédric Anger inspirado em acontecimentos reais que chocaram uma pequena comunidade na França no final da década de 70. A trama acompanha um policial extremamente rígido em suas funções, designado junto com sua equipe a investigar uma série de crimes brutais cometidos contra jovens mulheres. Na verdade, o serial killer em questão é o próprio militar.

O argumento de Na Próxima, Acerto no Coração foge do convencional estilo “investigativo”: já de cara, a identidade do assassino é revelada. Isso não diminui o filme; pelo contrário: a narrativa se concentra praticamente na construção de seu protagonista da forma mais abrangente possível. O roteiro não se lança sobre a investigação, mas sim sobre Franck: sua rotina, seus sentimentos, trejeitos e comportamento diante dos fatos. O personagem tem consciência do que é moralmente certo ou errado; ele pratica autoflagelação, apesar de não ser um fanático religioso; vem de uma família aparentemente amorosa, mas trata suas vítimas com total frieza; tem nojo de sujeira e se incomoda com o sangue das mulheres que mata, mas passa horas caminhando por florestas inóspitas. Enfim, cada detalhe é importante para que a personalidade de Franck seja bem definida.

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Canet é competente em sua atuação. Seu tipo misógino (apesar do filme não escancarar uma possível homossexualidade de Franck) é reforçado por uma constante expressão de insatisfação, com muita sobriedade (algo que só sua maturidade diante das câmeras foi capaz de produzir). Com uma fotografia que preza as cores frias e uma trilha sonora inquietante, Na Próxima, Acerto no Coração é um longa que não oferece pistas muito fáceis ao espectador –  até mesmo porque a história não se debruça sobre os fatos, mas sim sobre seu protagonista. Sabemos que Franck será capturado em algum momento, mas queremos seguir seus passos, aguardando seu próximo crime. Na Próxima, Acerto no Coração pode não ser memorável, é verdade, mas acerta em cheio ao abandonar os clichês do gênero e explorar com propriedade a mente de um assassino.

Ilha do Medo

Está no meu perfil, pode conferir: Scorsese é um dos meus cineastas preferidos – mas apesar disso, tenho uma relação um tanto conturbada com sua filmografia, algo que percorre a linha tênue entre o amor e o ódio, bem extremista mesmo. Há filmes que eu realmente amo e há outros que eu definitivamente desprezo (e isso vale para qualquer tipo de obra, das mais unânimes àquelas mais pessoais). Daqueles que eu amo, por exemplo: Os Infiltrados, O Lobo de Wall Street, Os Bons Companheiros ou A Invenção de Hugo Cabret. Os que eu deixo de lado: Taxi Driver, O Aviador e Ilha do Medo. Pois é, Ilha do Medo é um filme que me cansa. Embora seja uma das fitas mais elogiadas de Scorsese, admito que este thriller estrelado por Leonardo DiCaprio está longe de me agradar – isto desde sua época de lançamento. A trama acompanha o agente federal Teddy Daniels durante a investigação do desaparecimento de uma assassina internada em um presídio psiquiátrico, localizado na inóspita Shutter Island. Devido a uma tempestade de última hora, o policial é forçado a permanecer no local, enfrentando adversidades e descobrindo verdades mais obscuras do que supunha inicialmente.

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Está certo que o roteiro de Ilha do Medo é bem estruturado e desenvolve bem sua personagem principal. É meu dever dizer também que, tecnicamente, Ilha do Medo faz jus às melhores películas de um cineasta que é referência até hoje. A fotografia é muito competente e favorece os bons cenários através de seus enquadramentos certeiros. Gosto muito do tom meio noir do filme (é impossível não desconfiar que nosso “detetive” não seja alvo de algum tipo de conspiração, não é?) e também do clima intenso que Scorsese cria, deixando o público sempre na dúvida sobre o que, afinal de contas, é real naquela ilha. Só mesmo um diretor gabaritado como Scorsese para fazer isso com um tema que é, aparentemente, um clichê de gêneros. É interessante notar ainda que Ilha do Medo é um dos momentos mais ousados de Scorsese – o que é reconfortante, especialmente se levarmos em conta que Ilha do Medo foi lançado pouco tempo após Os Infiltrados, pelo qual Martin faturou o merecido Oscar de melhor diretor (ou seja, o artista não se acomodou com o prêmio e continuou produzindo coisas diferentes).

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Mas, ao longo de quase duas horas e meia de projeção, nem todo mundo está disposto a comprar a ideia de Ilha do Medo. Eu sou um que já o assisti várias vezes, tentando encontrar alguma coisa que me prenda a atenção – e não consigo achar. Se o argumento é bem delineado, falta aquele gostinho a mais neste filme capaz de torna-lo totalmente memorável. Talvez um protagonista mais simpático (e não DiCaprio ligado em modo automático) ou antagonistas melhores; quem sabe uma trilha mais presente e marcante; ou até mesmo cenas mais “digeríveis” – e não algumas extensas sequências que dão sono ou flashbacks usados a exaustão. Ilha do Medo não é ruim – e há pessoas que, de fato, embarcam com tudo nesta aventura. Bom, acho que este é o segredo: talvez seja necessário que o espectador entre na história. Resta saber se ele vai ter muita disposição pra isso. De minha parte, dispenso…

Politicamente Incorreto, Perfeitamente Eletrizante: Assim é “O Lobo de Wall Street”

Cá entre nós: com mais de 70 anos de idade, Martin Scorsese alcançou um patamar de excelência onde o cineasta já não precisaria mais provar nada a ninguém. No entanto, o diretor continua na ativa – e, felizmente, ainda consegue surpreender seu público a cada novo filme lançado. Após o excelente A Invenção de Hugo Cabret, Scorsese apresenta o politicamente incorreto O Lobo de Wall Street, seu mais novo longa, que tem gerado diversas polêmicas ao redor do mundo mas comprova o talento de uns dos mais tradicionais nomes da Nova Hollywood.

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O Lobo de Wall Street é a adaptação para o cinema da autobiografia do corretor da bolsa novaiorquina Jordan Belfort, que aos 26 anos já era uma das figuras mais ricas dos EUA. O filme mostra como Jordan ficou milionário em pouco tempo, montando uma corretora de investimentos com atividades suspeitas, até sua prisão na década de 90. Scorsese narra a história de ascensão e queda da dupla formada por Belfort e Danny Porush (melhor amigo do corretor, que abandonara seu emprego como vendedor de móveis para embarcar no ramo dos investimentos), explicitando seus escândalos, polêmicas, fraudes, corrupção (que envolvia até a máfia) e, principalmente, seus excessos.

Aliás, excesso é um termo que pode ser aplicado bem em O Lobo de Wall Street: tudo é perfeitamente exagerado. O excesso não é o limite, sempre haverá mais, a começar pelas suas longas três  horas de duração – apesar do ritmo frenético da trama (que não deixa você, espectador, se cansar em nenhum momento), temos que reconhecer que estamos diante de um filme com exatos 179 minutos de duração. Com tanto tempo disponível para se contar uma boa história, Scorsese não poupou os detalhes e fez dos excessos o maior triunfo de O Lobo de Wall Street: quando falamos que os personagens estão fazendo uma orgia, eles realmente estão fazendo uma orgia; se falar que Jordan ficou tão rico que jogava dinheiro fora, é porque ele realmente descartava dólares no lixo como lenços de papel; quando dizemos que Jordan consumia drogas demasiadamente, é porque ele praticamente só ficou sóbrio nos primeiros 15 minutos de filme (aliás, em uma das melhores e mais criativas sequências, Jordan aspira cocaína no traseiro de mulher com canudinho – cena que foi eliminada em diversos países).

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Alem da cena citada acima, alguns países se sentiram incomodados também com outras diversas sequências (especialmente, uma que envolvia uma orgia gay e outra em que um dos personagens se masturbava em público). Nos Emirados Árabes (país com a censura mais profunda até o momento), o longa teve 45 minutos a menos do que a versão original – isso sem contar que Scorsese também já havia adequado o filme ao território norte-americano para que a censura não caísse matando. Isso não foi o suficiente para que o filme não fosse repleto de cenas de sexo e palavrões (só a expressão fuck foi usada mais de 550 vezes!), o que já seria o suficiente para levantar a bandeira da censura em países mais conservadores. Houve até quem se incomodasse com uma cena em que é praticado um jogo de tiro ao alvo com anões – sugerindo que o longa faça apologia à ofensa de minorias.

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Esses detalhes deixam o filme politicamente incorreto, sim, mas simetricamente eletrizante: tudo funciona bem. Da trilha sonora (que Scorsese, para variar, escolhe muito bem) à rápida edição e fotografia iluminada, O Lobo de Wall Street ainda traz um elenco inspirado. O destaque, obviamente, fica por conta de Leonardo DiCaprio que, no papel de Jordan, tem uma das melhores atuações de sua carreira. Se DiCaprio nunca faturou um Oscar ao longo de sua carreira, essa é a hora. A cena em que sofre uma paralisia e tenta entrar em sua Ferrari faz a platéia chorar de rir com tamanha tragédia. Seu personagem promove discursos tão encorajadores que a platéia se sente motivada junto com todos seus funcionários. Somos capazes de amar Jordan, mesmo detestando sua vida abominável. Jonan Hill, que recebeu uma indicação ao prêmio de melhor coadjuvante, também está divertidíssimo, fugindo daquele estereótipo que o vem acompanhando nos últimos trabalhos e criando um Danny tresloucado. O restante do elenco mantem o nível da trama e deixam o filme muito mais divertido de se ver.

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Narrado em voice over – recurso típico de Scorsese, mas nem por isso banalizado – , O Lobo de Wall Street é um raro caso de filme que funciona bem em todos os aspectos. Não à toa, a obra recebeu cinco indicações ao Oscar deste ano (melhor filme, melhor direção, melhor ator para DiCaprio e coadjuvante para Jonan e melhor roteiro adaptado) e tem fortes chances de sair premiado em alguma categoria. Polêmico do início ao fim, O Lobo de Wall Street traz excelentes atuações dentro de um roteiro com um humor inteligente e cheio de críticas, alem de muita orgia, drogas e dinheiro. Com um ritmo eletrizante, O Lobo de Wall Street é um filme que faz jus ao nome do diretor que carrega – e a todos os elogios que vem recebendo.

Os Infiltrados

Repare: qualquer lista de melhores filmes do cinema inclui alguma obra de Martin Scorsese. O cultuado cineasta é um dos maiores ícones da história do cinema – sinônimo de erudição e conhecimento cinematográfico (além de algumas polêmicas pessoais). No entanto, foi apenas com Os Infiltrados, de 2006, que a Academia reconheceu (finalmente) o talento do diretor, lhe conferindo a estatueta de melhor direção após 5 indicações: Touro Indomável (1980), A Última Tentação de Cristo (1988), Os Bons Companheiros (1990), Gangues de Nova York (2002) e O Aviador (2004).

Os Infiltrados é a versão de Scorsese para Infernal Affairs (“Conflitos Internos”), uma produção de Hong Kong de 2002, dirigido por Alan Mak e Andrew Lau. Enquanto no filme original a história é centrada na guerra entre a polícia e os criminosos de Hong Kong, Scorsese (ao lado de William Monahan) adapta a narrativa, transformando-a em um sanguinário combate entre a polícia de Boston e a máfia irlandesa. No entanto, a estrutura da narração é basicamente a mesma: um policial na gangue de bandidos e um bandido dentro da corporação policial.

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Na introdução de Os Infiltrados (que dura pouco mais de 18 minutos), somos apresentados a três personagens centrais. Entre eles, está Frank Costello (Jack Nicholson), mafioso irlandês que apadrinha o garoto Colin Sullivan (vivido, quando adulto, por Matt Damon). Inteligente e bom aluno, Sullivan se forma com méritos na academia de polícia, conquistando uma posição de destaque dentro da corporação – e se tornando o informante ideal de Costello. Paralelamente, conhecemos também Billy Costigan (Leonardo DiCaprio), policial recém formado cuja família com antecedentes criminais e ligações com a máfia o tornam a melhor escolha da polícia para se infiltrar no grupo de Costello.

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Tanto Costigan quanto Sullivan passam por um questionamento moral ao longo da trama: até quando conseguirão esconder sua identidade e, principalmente, seu caráter sem arriscar suas vidas? Para protagonizar personagens com esse dilema, Scorsese consegue extrair o melhor da atuação de DiCaprio e Damon. O primeiro é instável emocionalmente – o que reflete claramente o inferno em que vive ao se manter incluso no grupo de bandido – enquanto o segundo é um tipo dissimulado que causa uma espécie de ódio imediato no público. Em ambos os casos, tanto DiCaprio quanto Damon mantém atuações eficientes ao longo de toda a trama. No entanto, em filme com Jack Nicholson, é difícil ser melhor do que… Jack Nicholson. Na primeira parceria com Scorsese, Jack cria um tipo brilhante – e, certamente, um de seus melhores papéis no cinema. Na pele de Costello, ele chama a atenção à cada aparição, disparando frases antológicas (“A Igreja diz que podemos ser policiais ou criminosos. Mas com uma arma na cabeça, que diferença isso faz?” ou o prólogo “Eu não quero ser um produto do meio ambiente. Eu quero que o meio ambiente seja um produto meu.”). Vale ainda citar a participação de Mark Wahlberg, como um agente estressadinho que traz o grande (e surpreendente) desfecho do filme.

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Mantendo o mesmo estilo “urbano” de alguns de seus clássicos, como Cassino ou Os Bons Companheiros, tecnicamente, além do roteiro alinhado, deve-se destacar a bela fotografia, marcada pelo uso constante de elementos sombreados (Costello na introdução do filme, por exemplo, só é mostrado através de sombras) que deixam as imagens ainda mais reais. Como se não bastasse, Scorsese ainda seleciona uma trilha sonora que, assim como em seus maiores clássicos, tornam as ações ainda mais excitantes. Excepcional, Os Infiltrados é um dos marcos da carreira de Scorsese, na mesma linha de seus antigos clássicos, voltando um pouco às origens de suas primeiras produções. Com uma direção competente e um roteiro eletrizante, o público chega a ignorar o fato de que está assistindo a um filme com mais de duas horas e meia de duração. No melhor padrão Scorsese (sim, ele merece isso…), Os Infiltrados é um filme arrebatador, nos contagiando com sua explosão frenética de corrupção, drogas e muita violência inteligente.