O Mundo (Não Tão) Fantástico da Srta. Peregrine e Suas Crianças Peculiares

Confesso que minha curiosidade em relação a O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares surgiu após os rumores de que o cineasta Tim Burton estaria cogitando adaptar a história em seu próximo filme. Fã assumido do diretor, não hesitei em procurar a obra nas livrarias locais – busca essa que se tornou mais ávida à medida que colhia mais informações sobre o livro e sobre todo o universo criado pelo estreante Ransom Riggs.

01Narrado em primeira pessoa, O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares acompanha Jacob, um adolescente de família rica, que desde cedo foi criado ouvindo as histórias fantásticas contadas por seu avô, um herói de guerra saudosista e cheio de mistérios. Essas histórias envolviam crianças com poderes especiais (daí a alcunha de “peculiares”) e um orfanato onde esses seres viviam sob os cuidados da tal senhorita Alma Peregrine, que dedicava seu tempo a proteger essas crianças e mantê-las dentro de uma determinada fenda de tempo, já que o convívio com os humanos e o mundo futuro era, sob certo aspecto, perigoso. Após a morte inusitada do avô, Jacob embarca em uma aventura ao País de Gales, especificamente em uma pequena ilha onde deseja descobrir as verdades sobre o orfanato e os contos do avô – e assim, reconstruir sua imagem.

Longe de ser uma verdadeira obra prima, O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares é um livro apenas bom. Superestimado, devo admitir que se trata de uma literatura superior a outras do gênero (apesar do tom “sombrio” da trama, trata-se de uma obra infanto-juvenil), especialmente se levarmos em conta o fato de que é o trabalho de estréia de Riggs (blogueiro e autor de alguns curtas-metragens). A ideia realmente é ótima – e ficaria ainda melhor se ela estivesse presente nas páginas e não apenas em sua sinopse. As crianças peculiares do título, por exemplo, são escassamente exploradas – assim como suas origens e seus poderes, o que poderia criar um drama com muito mais suspense, mistério e terror (e não simplesmente uma versão burtoniana de Percy Jackson e seus amigos, ou uma abordagem teen de X-Men).

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Seria Helena, inevitavelmente, nossa Srta. Peregrine?

Outro ponto que deve ser mencionado é a falta de estabilidade da narrativa. O livro oscila entre momentos ótimos e outros excessivamente ruins. Há trechos que fazem você devorar a leitura e outros que são tão cansativos que chegam a incomodar o leitor. O início, por exemplo, apresenta de forma encantadora o personagem Jacob – um jovem aparentemente normal, como tantos outros, cuja existência consiste apenas em… existir. Mas depois disso são tantas reviravoltas e a história se perde entre tramas previsíveis, sequências de ação demasiadamente cansativas, mistérios fracos e um didatismo sem fundamento. Todo o bom material que o autor tinha nas mãos é desperdiçado na criação de uma mitologia que não funciona e, em alguns instantes, é tão bizarra que o leitor se questiona “o que é isso?”. Todo o mundo fantástico que Riggs criou (e que é digno de louvor, diga-se de passagem) serve apenas de cenário para acontecimentos não muito estilizados, que tornam o livro um emaranhado de trechos oscilando entre o real e o imaginário.

Vale também ressaltar aqui que, como mencionei, as crianças peculiares do título são mal exploradas, assim como suas histórias. Não há um personagem tão bem desenvolvido que enterneça o público – com exceção de Jacob, o garoto comum que é o retrato de uma juventude que é a cada dia mais cética. Jacob fica dividido entre os contos do avô e a probabilidade de sua veracidade, reconstruindo aos poucos a memória afetada do parente que ainda é mais destruída pelo restante da família capitalista do garoto. Mesmo o romance entre ele e Emma Bloom, uma peculiar que mantivera um caso com o avô de Jacob anos atrás, é retratado de forma tão superficial que é impossível sentir-se cativado pelo casal. Mesmo as tão faladas e assustadoras fotografias do livro (retiradas de acervos pessoais) não funcionam também como terror, fazendo com que as imagens sejam apenas uma espécie de ilustrações que complementam a narrativa – e nada alem disso.

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Ao ler as páginas iniciais, foi impossível não associar a obra de Riggs a Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, filme burtoniano de 2003 – onde um filho tenta reconstruir a memória do pai através de suas histórias fantásticas. Também é impossível ler o livro e não enxerga-lo como um produto típico do universo burtoniano (ou mesmo enxergar Helena Bonham Carter como a provável senhorita Peregrine, caso realmente essa adaptação se confirme). O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares é uma boa obra, com um material não bem utilizado e com um final que, ao que tudo indica, abre margens para uma história muito mais interessante – tornando-a um prólogo para uma sequencia que pode ainda nos surpreender. Como produto literário final, o livro é um material agradável – mas com altos e baixos que colocam em dúvida sua qualidade.

Bienal Internacional do Livro 2012: Programação Cultural em São Paulo

Você mora em São Paulo e está procurando uma atividade cultural para os próximos dias? Então, uma ótima solução é a Bienal Internacional do Livro, que acontece no Pavilhão de Exposições do Anhembi, na zona norte da capital paulista. O evento, que começou na última quinta-feira (09), vai até o próximo domingo (19) e é uma boa opção de cultura e entretenimento para todas as idades.

Neste ano, a feira conta com aproximadamente 480 expositores, o que representa 37% a mais do que em sua última edição, em 2010. Segundo os responsáveis pelo evento, espera-se um público de cerca de 800 mil pessoas nesta edição. O tema deste ano é ” Livros transformam o mundo, livros transformam pessoas”, sugerindo a literatura como instrumento de transformação e a democratização do acesso à leitura.

Ao que tudo indica, esse processo de democratização é espelhado no próprio acesso ao evento: com ingressos a R$ 12,00 (e R$ 6,00 meia), a entrada é gratuita para professores, bibliotecários, maiores de 60 anos e crianças até 12 anos (desde que comprovada por documentação). Além disso, das 10h às 22h, o transporte de ida e volta é gratuito nas estações do Metrô Tietê e Barra Funda. Ou seja, só não vai mesmo quem não quer.

Com um investimento estimado em 32 milhões de reais, a 22ª edição da Bienal do Livro espera um público de cerca de 800 mil pessoas.

Uma outra novidade: este ano, os homenageados do evento são o escritor baiano Jorge Amado e o dramaturgo pernambucano Nelson Rodrigues. Jorge Amado é simplesmente o escritor brasileiro mais traduzido no exterior, com obras publicadas em mais de 5o países ao redor do mundo e adaptadas para televisão, teatro e cinema. Entre os mais célebres trabalhos de Jorge Amado, temos Gabriela Cravo e Canela (que, atualmente, está em sua segunda adaptação para TV), Tieta, Pastores da Noite, Dona Flor e Seus Dois Maridos (em cartaz nos palcos brasileiros) e Mar Morto (obra que inspirou livremente a novela Porto dos Milagres, de 2001). Já Nelson, além de romances e contos, escreveu 17 peças – verdadeiras obras-primas do teatro nacional. Dentre elas, as mais conhecidas são Vestido de Noiva, Beijo no Asfalto e Toda Nudez Será Castigada.

Jorge Amado, que completa seu centenário, é um dos homenageados do evento.

Alem de todas as atrações culturais, ainda vale a pena dar uma conferida nos espaços de cada um dos expositores e procurar aquele livro que você tanto deseja. Os preços bem atrativos e a grande variedade valem muito a pena.

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BIENAL INTERNACIONAL DO LIVRO 2012
Pavilhão de Exposição do Anhembi – Avenida Olavo Fontoura, 1209, Santana – São Paulo/SP
Data: de 09 a 19 de agosto
Ingressos: R$ 12,00 (inteira) e R$ 6,00 (meia-entrada)
Classificação: livre
Horário: das 10h às 20h (entrada até as 18h)
Site oficial: http://www.bienaldolivrosp.com.br

Jô Soares e Suas Esganadas

Há quem diga que 2011 não foi o melhor ano para o Programa do Jô que, ao longo dos últimos doze meses, sofreu inúmeras críticas da imprensa e do público. De fato, Jô parecia não se sentir muito à vontade em suas entrevistas – e ainda rolou-se boatos de que o programa poderia sair da grade da emissora carioca. Entretanto, se nas telinhas Jô parece não ter ido muito bem, o mesmo não podemos dizer nas livrarias: com seu último livro, As Esganadas, Jô consolida seu talento também como escritor, apresentando uma obra digna de grandes mestres.

As Esganadas foi recebido sem muita empolgação. Mas o romance, desde seu lançamento, se tornou um dos mais vendidos nas livrarias em todo o país. Surpresa? Nem tanto. Jô, desde sua estréia na literatura com O Xangô de Baker Street, em 1995, agradou ao público com suas histórias de humor recheadas de cultura geral – quase inaugurando um novo estilo. E As Esganadas, quarto livro do autor, parece não ter ficado muito atrás.

Um dos elementos mais comuns nos livros de Jô é o serial-killer. Em As Esganadas não é diferente. A narrativa acompanha os horríveis crimes cometidos por Caronte, proprietário de uma funerária, que obcecado pela figura materna, segue matando todas as gordas que encontra. Sim, é inusitado, mas é isso mesmo: o serial-killer em questão é obcecado por gordas.

Diferente, entretanto, do que acontece nas histórias policiais tradicionais (e que acompanhou Jô em suas obras anteriores), o serial-killer aqui é revelado logo no início. Sabendo quem é o meliante logo no início, muitos podem imaginar que a trama pode cansar ou não despertar muito interesse. Entretanto, o mistério agora consiste em saber como Caronte será descoberto – e até aí, o livro nos surpreende com boas cenas de humor (típico de Jô Soares – aliás, em muitos trechos é possível imaginar o autor fazendo as piadas em seu programa), tendo como pano de fundo um Rio de Janeiro da década de 30 que Jô demonstra conhecer bem. Os detalhes que o artista apresenta – em uma narrativa muito convincente – demonstram também a boa pesquisa que o autor fez sobre uma época bastante peculiar no país.

Aliás, esta é mais uma características do trabalho de Jô: o autor consegue nos fazer voltar ao passado – e o faz muito bem. Ao longo do livro, ele mistura personagens reais e fictícios; mas até mesmo os personagens reais caminham em planos fictícios, costurando uma história muito bem elaborada. Ou seja, Jô usa e abusa de características que são marcantes em sua obra mas ainda assim consegue criar uma leitura original e única.

Se por um lado o leitor pode se aborrecer com o fato do serial-killer ser revelado logo no início, ele não se cansa com o livro. Do contrário: as situações vividas pelo grupo policial em busca do assassino das gordas são hilárias. Aliás, os tipos criados por Jô são excelentes: um policial rabugento, um assistente medroso, uma repórter moderno, um ex-detetive português, além de outras figuras que recheiam a trama e deixam a história muito mais rica.

Seria inevitável As Esganadas não alcançar o sucesso que alcançou. Assistindo ao Jô Soares na televisão, você percebe claramente que sua narrativa é reflexo de seu humor inteligente e sarcástico. Tambem pudera: uma das figuras mais influentes do país, Jô ainda pode se dar ao luxo de escrever sobre o que quer e como quer. Portanto, leitor, não se acanhe: o livro é excelente leitura. Só, por favor, cuidado para não se esganar com a leitura (trocadilho óbvio).

As Esganadas –
Jô Soares
Companhia das Letras, 2011, 260 páginas.

Rimbaud: O Poeta Rebelde

Não é exagero dizer que Arthur Rimbaud tenha sido um dos maiores nomes da história da poesia moderna. Afinal, com apenas 16 anos, o jovem poeta já demonstrava sinais de que sua obra seria revolucionária e uma das bases da literatura que se seguiu posteriormente.

Baseado nisso, Edmund White apresenta a vida do jovem artista no livro Rimbaud – A Vida Dupla de um Rebelde. A biografia, leitura obrigatória para os amantes da obra de Rimbaud, é um ensaio sobre a vida do garoto desde seus primeiros dias em Charleville, França, sob os cuidados da mãe dominadora até seus últimos dias pelo continente africano, após abandonar a literatura.

Capa de "Rimbaud - A Vida Dupla de um Rebelde", do crítico Edmund White.

O livro, entretanto, foca a vida e obra de Rimbaud tendo como fundo a conturbada relação que o jovem teve com o poeta Paul Verlaine que, durante a adolescência de Rimbaud, financiava a obra do poeta. Paul, já célebre no meio parisiense, abandonou amigos, destruiu seu casamento e partiu para uma vida com Rimbaud rumo ao desconhecido. Anos depois, Verlaine seria preso por conta de Rimbaud, que daria as costas para sua obra e partiria para uma vida de aventuras no continente africano.

Arthur Rimbaud, o fundador da poesia moderna.

Obviamente, Edmund, como tantos jovens do século XX, é fascinado pela obra de Rimbaud. Também não seria diferente: em apenas cerca de quatro anos de produção literária, Rimbaud forçou um estilo que se tornou revolucionário. Ainda hoje, há inúmeras referências à obra de Rimbaud na literatura, nas artes plásticas e na música. O menino com cara de anjo (com seus olhos azuis, traços femininos e delicados e cabelos louros) foi a voz de uma geração, sendo iluminado por sua própria genialidade – e também sua loucura.

O crítico Edmund White, responsável por uma das biografias mais sensíveis do poeta Arthur Rimbaud.


Rimbaud – A Vida Dupla de um Rebelde
não é o primeiro ensaio biográfico de Edmund White, que já escreveu também as biografias de Jean Genet e Marcel Proust. Homossexual, Edmund questiona se o exemplo satânico de Rimbaud não teria influenciado o comportamento deplorável do artista quando jovem.

Edmund não seria o único. A juventude do início do século XX enxergou em Rimbaud um novo caminho para a arte. A poesia moderna jamais teria chegado ao patamar em que chegou se não fosse a contribuição de Arthur Rimbaud. Talvez jamais poderíamos conhecer as personalidades incomuns de gênios como Jim Morrison (vocalista da banda The Doors), Cazuza e tantos outros que foram influenciados pela obra do artista que mudou para sempre os rumos da literatura em sua época.

Morrison e Cazuza: dois grandes nomes que foram influenciados pela obra e comportamento (satânicos?) de Rimbaud.

Se você já assistiu ao filme Eclipse de uma Paixão (com Leonardo DiCaprio no papel do jovem Arthur Rimbaud), certamente poderá conhecer com mais precisão alguns detalhes da biografia de Rimbaud que foram inexplorados no filme. O crítico Edmund refaz todo o trajeto de Rimbaud de forma desmistificadora, revelando uma figura surpreendente.

Rimbaud é considerado o fundador da poesia moderna – e também um grande enigma na história da literatura. Por não ter sido reconhecido como desejara, o precoce poeta rejeitou toda sua obra aos 20 anos. Com Rimbaud – A Vida Dupla de um Rebelde, Edmund White consegue um feito invejável: traduziu de forma brilhante um retrato sensível de um artista incomum, que revolucionou sua época e que deu as costas à sua própria criação.

 

Arthur Rimbaud sem dúvida não se parecia com o diabo. Com um anjo decaído, talvez, com seus cabelos densos, indomados, que ele deixava crescer até os ombros quando tinha dezesseis anos, e seus olhos azul-celeste que se tornavam quase brancos nas fotografias da época, seus traços delicados e sua boca determinada, séria. Verlaine o chamava de “um anjo no exílio”. A ligeira assimetria na cavidade central acima do lábio superior é uma dessas falhas intrigantes num rosto quanto ao mais tão perfeito que faz o observador prender a respiração. Acho que é o mesmo que acontece com o jeito tímido-infantil-culpado de James Dean quando baixa a cabeça e levanta o olhar para nós através das sobrancelhas, com um sorriso. Verlaine mais tarde falaria da “luz cruel dos olhos azuis” de Rimbaud e da “boca forte, vermelha, com sua dobra amarga – misticismo e sensualidade em alto grau”.

Rimbaud – A Vida Dupla de um Rebelde
Edmund White (tradução de Marcos Bagno)
Companhia das Letras, 2010, 188 páginas.

Burton: Das Telonas Para as Livrarias

Há algumas semanas, postei aqui no site uma matéria sobre o cineasta Tim Burton e suas incríveis histórias que encantam os apaixonados pelo cinema. Na ocasião, entretanto, ainda não tinha lido O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra e Outras Histórias, uma reunião de pequenos poemas escritor pelo artista que descrevem bem um pouco da personalidade imaginária do autor.

Ao longo de pouco mais de 120 páginas, Tim Burton nos revela um pouco de seu mundo. Philippe Barcinski apresenta a obra com a seguinte declaração:

A mente de Burton é um universo à parte. E este livro parece ser sua melhor radiografia.”

A verdade é que este livro nos apresenta algumas características que são primordiais na obra do diretor, como a melancolia (presente em Edward Mãos de Tesoura), a fantasia e imaginação (marcantes em Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas), o ambiente gótico (explorado em A Noiva Cadáver), entre outros. É isso que o leitor vai encontrar nesse livro, que retrata bem a mente insana do cineasta como nenhum outro filme seu poderia fazer. O leitor vai ser apresentado a personagens que beiram o grotesco, o bizarrismo e também a inumanidade.

A leitura é obrigatória para os amantes do trabalho de Burton – e mesmo para aqueles que não a conhecem. Os 23 poemas escritos apresentam a ambiguidade tão comum à obra de Tim: ao mesmo tempo que é triste, é também engraçado. Além disso, fica difícil considera-lo um produto infantil, tamanho é o tom soturno e desesperançoso do livro.

O diretor na época de sua cultuada animação “O Estranho Mundo de Jack”.

Os poemas tratam bem as relações afetivas e também os conflitos psicológicos de cada um de seus personagens. São figuras infantis bastante distintas que, na maior parte das vezes, são incompreendidas e lutam para encontrar seu lugar em um mundo cada vez mais cruel. Os heróis para Burton são infelizes, decadentes e desesperançosos – expondo um lado negro que existe em cada um de nós.

Para completar, o livro é recheado de ilustrações criadas pelo próprio autor. Os desenhos são facilmente identificados, pois a forma tão peculiar de Burton já é bastante conhecida em seus filmes. Vale também destacar a excelente tradução de Márcio Suzuki, que conseguiu preservar as características principais do texto original, como as figuras de linguagem, as métricas e também o jogo de palavras.

Na imagem, alguns personagens de Burton: acima, Stain Boy; abaixo, a versão de Burton para a Rainha Vermelha da história de Alice (que no filme do cineasta, foi interpretada por sua esposa Helena Bonham Carter).

Longe de ser apenas a opinião de um fã assumido de Tim Burton, o livro se revela uma opção incrível de leitura. É curto, não é cansativo e nos traz o que há de melhor na obra do cineasta norte-americano. Em tempos em que a leitura está sendo substituída por videogames e celulares, O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra nos oferece bons momentos de entretenimento. Mais do que isso: nos permite também enxergar um pouco do universo incompreendido de um artista tão pouco casual.

Dia desses no parque
Vi uma moça de raro encanto.
Tinha tantos, tantos olhos
Que, confesso, fiquei meio tonto.

A sua beleza não era pouca
(Aliás, que tremenda gatinha!),
Quando notei que tinha boca,
Engatamos uma conversinha.

Falamos sobre ecologia,
Sobre suas aulas de poesia,
Sobre os óculos que usaria
Se um dia tivesse miopia.

Mas, de tudo, o que eu mais adoro
É seu olhar diversificado.
Se entretanto ela cai no choro,
Não tem quem não fique molhado.

(“A menina de muitos olhos”)

O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra e Outras Histórias
Tim Burton (tradução de Márcio Suzuki)
Editora Girafinha, 2010, 123 páginas.

Diagnosticando a Febre Starbucks

Existe uma fórmula perfeita para transformar uma pequena rede de cafeterias em um dos maiores impérios mundiais? Bem, se existe, Howard Schultz a usou bem e criou uma das marcas mais famosas do mundo. Mas a questão é como ele chegou até aqui. E é isso o que tenta desvendar o jornalista Taylor Clark em A Febre Starbucks – Uma Dose Dupla de Cafeína, Comércio e Cultura.

Capa de "A Febre Starbucks", o primeiro livro do jornalista Taylor Clark.

O polêmico Schultz era um simples vendedor de utensílios domésticos quando aproveitou a chance de sua vida: comprou uma nova e até então pequena rede de cafeteria nos EUA e, através de uma estratégia empreendedora, se tornou o homem a frente de uma das maiores empresas de varejo do mundo. A Starbucks hoje é a líder mundial no mercado de torrefação e varejo dos chamados cafés “especiais” – e leva esse título a sério. Algumas companhias menores acusam a gigante norte-americana de monopolismo, valendo-se até mesmo de táticas nada éticas para se manter na liderança.

Em A Febre Starbucks (primeiro livro a mostrar o crescimento assustador da Starbucks e do consumo de cafeína no planeta), o jovem Taylor Clark nos conduz diante de uma das histórias de maior sucesso no empreendedorismo mundial. O livro conta detalhes sobre a trajetória da empresa, desde a compra da primeira loja (e a sacada genial de Schultz em seu plano de expansão) até os dias atuais, quando a empresa, ao lado de gigantes como McDonalds e Coca-Cola, se tornou uma das marcas mais presentes ao redor do mundo.

O excêntrico Howard Schultz - de ex-vendedor de utensílios domésticos e um dos homens mais poderosos do mundo.

E quando falamos em presença, falamos no sentido mais próprio da palavra: atualmente, a Starbucks está presente nos lugares mais improváveis do mundo. Através de um estudo minucioso, Taylor nos mostra como a empresa chegou a esse patamar soberano e como é o comportamento da marca hoje diante do mercado. Mais do que isso: Taylor nos prova o quanto a força desta marca foi capaz de mudar o american way life. A cultura de toda uma geração e o comportamento de toda uma sociedade foram influenciados (ainda que indiretamente) por uma simples empresa do ramo do café.  Quer um exemplo? Você sabia que os norte-americanos consomem uma quantidade tão alta de café que já foram detectados altos índices de cafeína em inúmeros rios e lagos nos EUA?

Do ponto de vista dos negócios, a experiência Starbucks é invejável. Howard construiu um império digno – que destrói sem piedade qualquer concorrente que sequer ouse pensar em alcançar a empresa. Isso ajudou a levantar polêmicas sobre a marca: se por um lado há quem a ame, há aqueles que a odeiam também (caso comum que acontece com outras gigantes do varejo). De um lado, temos os viciados que tomam altas doses de café diariamente e ostentam com todo orgulho o copo com o logotipo da empresa; do outro lado, temos os ativistas mais radicais, que boicotam as atividades da rede e a acusam de crimes como exploração do trabalho.

No Brasil, a rede vem se espalhando cuidadosamente. Já temos algumas lojas em São Paulo, Rio de Janeiro e Campinas, mas ainda há certa resistência ao produto. Alguns estudiosos alegam que isso é fruto da maneira como a empresa oferece sua marca ao público, apenas com a sensação de “status”. E realmente: não é qualquer um que pode pagar R$ 10,90 em um copo de café ou chá gelado. E os que podem, abertamente assumem que pagam muito mais pelo status que a bebida pode lhe conferir do que propriamente a qualidade do produto (cá entre nós: algumas bebidas são extremamente fortes para o paladar brasileiro). A marca está intimamente associada à uma imagem de sofisticação, beleza artística e refinamento que é nova para o público nacional.

Faixada da loja Starbucks do Shopping Center 3, na Avenida Paulista, em São Paulo.

O livro não é indicado apenas para aqueles que amam a empresa. De fato, há uma tendência em glorificar os feitos da Starbucks, mas este não é o objetivo final do livro de Clark. A obra é ideal em vários níveis de estudo: seja para o amante do café, seja para o empreendedor que quer buscar idéias e conhecer histórias de sucesso; ou mesmo para um curioso que tem vontade de conhecer a rede. Você vai saber como a Starbucks consegue abrir 6 lojas por dia ao redor do planeta, vai conhecer a relação da empresa com os plantadores de café e também como os americanos tomavam café há algumas décadas atrás.

Portanto, prepare sua poltrona e seu caneca antes de começar sua leitura. Mas, de qualquer forma, esteja certo disto: após esse livro seu café nunca mais será o mesmo.

A Febre Starbucks – Uma Dose Dupla de Cafeína, Comércio e Cultura
Taylor Clark (tradução de Daniela P. B. Dias)
Editora Matrix, 2008, 407 páginas.

Pixar: A Fantástica Fábrica de Sonhos Americana

A fusão entre Pixar e Walt Disney rendeu uma parceria de sucesso. Enquanto a primeira empresa se encarrega de toda a produção, a segunda cuida de todos os aspectos relacionados à distribuição dos filmes. Há quem faça comparações entre os dois estúdios, o que é previsível e justificado: cada um deles, em sua determinada época, trouxe uma relevante contribuição para o cinema.

Se durante muito tempo a Disney povoou o imaginário de milhares de pessoas com suas produções mágicas e encantadoras, hoje é a Pixar quem mora no coração desta geração mais moderna – e por esta razão, a empresa recebeu o merecido titulo de “nova fábrica dos sonhos norte-americana”. Com essa perspectiva em mente, Robert Velarde apresenta sua obra “A Fábrica de Sonhos da Pixar”.

Guia dos filmes Pixar, "A Fábrica de Sonhos da Pixar" fala sobre os temas centrais da obra do estúdio.

 

Que os filmes da Pixar são divertidos e garantia de entretenimento, todo mundo concorda. O que Robert pretende com seu livro é mostrar outro lado da obra do estúdio que revolucionou a maneira de se fazer animação – e que muitas vezes é dificilmente percebido pelo público. Praticamente em todos os longas-metragens da empresa é possível identificar valores humanos que vão além da simples animação feita por computação gráfica.

A trilogia "Toy Story" trata abertamente do tema da amizade.

 

Longe de ser um livro de caráter religioso, Robert traça o perfil dos dez primeiros filmes do estúdio sob um olhar ético, baseado nas virtudes que encontramos nos ensinamentos religiosos cristãos. Temas centrais das histórias como amizade, família, coragem e outros são abordados por Robert sob uma perspectiva que nos leva a repensar e refletir sobre nossos valores mais essenciais e como podemos construir um mundo melhor tendo-os como base de nossas vidas.

Em "Up - Altas Aventuras", temos uma maravilhosa sequencia que mostra todo o amor do tímido Carl por sua esposa.

 

Muitas vezes, somos tão surpreendidos pelas histórias e pelas extraordinárias animações dos filmes que não percebemos os conceitos mais simples que podem ser absorvidos ali. E é justamente esse o intuito de Robert: levantar debates. No final de cada capítulo, há uma série de perguntas que podem ser respondidas individualmente ou em grupo – o que mostra também o direcionamento (pseudo) didático da obra.

Já em "Wall-e", o robô inocente e, por vezes, infantil se apaixona por Eva. Além disso, a questão da tecnologia nos nossos tempos também é abordada.

 

Em “Procurando Nemo” ou “Up – Altas Aventuras”, é possível levantar um debate sobre os valores humanísticos relacionados à família (seja na relação entre pai e filho ou no amor maduro de um casal apaixonado). Já na trilogia “Toy Story”, o sentimento de amizade é predominante. Em “Vida de Inseto”, o segundo filme da Pixar, encontramos nitidamente aspectos relacionados à justiça e à coragem.

Aparentemente, “A Fábrica de Sonhos da Pixar” pode parecer um livro de caráter cristão. Mas não o é. De fato, há diversas referencias a textos bíblicos – portanto, a leitura do livro acompanhada de uma Bíblia pode ajudar bastante – e relações dos temas centrais com a vida cristã. Mas, como cito, trata-se de ensinamentos da vida cristã – e não apenas da vida religiosa, protestante. Robert conduz o leitor a experimentar a sensação de que podemos ser pessoas melhores a partir do momento que refletimos sobre a vida e sobre seus verdadeiros valores. Tanto é que os primeiros dois capítulos do livro são dedicados a uma visão geral sobre os conceitos de virtude e sabedoria, assim como falam sobre dois pontos essenciais nos filmes da Pixar, a imaginação e a criatividade – que são fatores importantes dentro da vida cristã.

Leitura obrigatória, para os amantes das obras da empresa, “A Fábrica de Sonhos da Pixar” é um guia dos filmes do estúdio sob a ótica moral e ética. Mais do que um livro biográfico, é um bom material para debate que nos leva a refletir (individualmente ou em grupo) sobre os tópicos mais essenciais na vida humana, como a amizade, o amor, a justiça, fé e, sem dúvida alguma, nossa capacidade de sonhar.