“O Lar das Crianças Peculiares” é Exercício de Estilo de Tim Burton

Não é difícil entender as razões que levaram Tim Burton a estar à frente de um projeto sobre seres peculiares – afinal, o próprio diretor é um tipo muito peculiar de artista. Sua obra é identificável logo à primeira vista, ainda que o conjunto dela não seja necessariamente excepcional – na verdade, Burton vem colecionando algumas produções bastante questionáveis nos últimos anos, deixando o espectador e a crítica em dúvida com relação aos seus dotes como cineasta. Mas é inegável que O Lar das Crianças Peculiares, seu mais novo trabalho, é o seu melhor filme desde Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, de 2007.

A história é adaptada do best-seller O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares, romance escrito pelo norte-americano Ransom Riggs, lançado em 2011 e que se tornou uma febre mundial. Com ares de franquia teen, a trama principal da série acompanha um grupo de crianças com poderes especiais – entre eles, o jovem Jacob (Asa Butterfield). Após a morte repentina de seu avô (um veterano de guerra cheio de casos para contar), o adolescente segue algumas pistas e viaja até o País de Gales para visitar o orfanato de que tanto seu ente falecido lhe falara quando ainda era criança. Ao chegar lá, Jacob descobre uma fenda temporal que o transporta ao ano de 1943, onde ele conhece as crianças que dão o título ao longa e sua guardiã, a Srta. Peregrine (Eva Green). No entanto, uma monstruosa ameaça paira sobre o local – recaindo sobre Jacob a responsabilidade de proteger aquele grupo.

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Deixando de lado o material original (afinal, para aqueles que leram o livro, são nítidas as variações feitas pelo roteiro do próprio Ransom Riggs em parceria com Jane Goldman), O Lar das Crianças Peculiares sofre de um evidente desequilíbrio narrativo. A primeira parte da fita praticamente se concentra em Jacob e nas demais crianças, desenvolvendo apropriadamente cada uma delas (o que, consequentemente, faz com que o ritmo neste momento seja mais lento). Apesar do excesso de personagens, cada um deles ganha tempo suficiente em cena para ter suas peculiaridades devidamente exploradas. Curiosamente, no entanto, é a personagem de Eva Green quem ganha menos destaque, resumindo-se apenas a uma mera coadjuvante. Green só aparece na tela com a função de “explicar” os fatos (muitas vezes de forma desnecessariamente didática) e agregar um ar de mistério ao ambiente – o que até confunde o espectador quanto ao seu real caráter. Mais decepcionante ainda, o vilão interpretado por Samuel L. Jackson exagera na canastrice, passando pouca credibilidade para quem assiste.

Mas se o filme demora a acontecer, ele não para em sua parte final (como se para recuperar o tempo perdido). Aqui, encontramos as melhores sequências, como o confronto entre as crianças e os etéreos, com direito inclusive a um exército de caveiras (seria uma referência à passagem bíblica, no livro do profeta Isaías, sobre o vale dos ossos secos?). A partir daí, a ação se acelera, ainda que algumas inverossimilhanças surjam aqui e ali. O herói Jacob de herói tem pouco (ele não é nada além de um garoto comum de sua idade) e é difícil digerir o romance entre ele e a bela Emma Bloom (a mesma que, décadas atrás, se envolvera com seu avô). O lance das fendas temporais também soa confuso em alguns instantes, sendo mencionado como se apenas para encontrar soluções (fáceis) para o argumento.

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Mas se há deslizes no roteiro, eles são compensados com o aspecto visual do longa (mais do que em qualquer outra de suas últimas produções). O universo de Tim Burton está impresso ali, desde o jardim do orfanato até o parque de diversões macabro, por exemplo. O design dos monstros é incrível e os efeitos especiais são muito “pés no chão” – para se ter noção, Burton recorre até a técnica de stop motion (o que, de imediato, nos faz recordar de Beetlejuice, repare). Também é interessante ver o cineasta livre de algumas antigas parcerias – Johnny Depp não passa nem perto, assim como Helena Bonham Carter ou, surpreendentemente, Danny Elfman (que até então não fez a trilha de apenas 2 filmes do diretor). Tim ainda dá o ar da graça, rapidamente – mas para conferir isso você terá que prestar atenção.

O desfecho de O Lar das Crianças Peculiares até abre ponta para uma continuação, mas o arco dramático é fechado sem muita dificuldade. O filme perde bastante pela sua instabilidade narrativa, é verdade, mas compensa por outros pontos, em especial pela sua estética irrepreensível. Talvez O Lar das Crianças Peculiares sofra com seu público alvo, que não é bem definido – afinal, do ponto de vista literário, a história é simples para os pequenos, mas Burton não economiza no clima gótico e assustador, o que pode afugentar naturalmente os mais jovens. O Lar das Crianças Peculiares é um filme muito agradável, com potencial para uma franquia de sucesso, mas não é, necessariamente, peculiar como o título sugere. Pelo contrário: é um puro exercício de estilo de seu idealizador, cuja peculiaridade já está para lá de manjada…

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“Alice Através do Espelho”: Não Era Necessário, Mas Fazer o Quê?

Já comentei outras vezes aqui sobre a importância do burtoniano Alice no País das Maravilhas à época de seu lançamento, em 2010. Apesar das críticas pouco amistosas, o longa foi um sucesso de bilheteria, alavancou a indústria do 3D nos cinemas e também iniciou a febre dos remakes de contos infantis já vistos em animações clássicas. É até estranho que a Disney tenha demorado exatos seis anos para conceder uma sequência à história – desta vez com Tim Burton assumindo apenas a produção do projeto e deixando a claquete nas mãos de James Bobin (cujo currículo modesto não inclui nada além de dois filmes da série Muppets).

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A narrativa desta nova aventura parte exatamente de onde terminou a primeira e segue basicamente a mesma premissa: Alice está em uma situação importante de sua vida “real” e é forçada a regressar ao mundo subterrâneo para resolver uma situação que só ela é capaz. Neste caso, Alice é agora a capitã do navio de seu falecido pai, e após uma extensa viagem de negócios, retorna a Londres e descobre que sua mãe está prestes a ceder a embarcação a Hamish Ascot (o antigo noivo da jovem) em troca da hipoteca da casa da família. Seus amigos do País das Maravilhas, entretanto, estão preocupados com a vida do Chapeleiro Maluco – e para salva-lo, Alice terá que enfrentar o Tempo e resgatar todo o clã dos Cartolas.

É inegável que a primeira pergunta que se passa na cabeça de qualquer um ao assistir Alice Através do Espelho é: esta sequência é realmente necessária? Ao que tudo indica, a resposta é clara: não. A fórmula é saturada, não há novidades e, pior, repete praticamente os mesmos “moldes” do primeiro filme (que era repleto de erros – entre eles, o roteiro atropelado de Linda Woolverton, que demonstra não ter se importado com as críticas da fita anterior e aposta nas mesmas características). O argumento parou, literalmente, no tempo e não procurou corrigir as falhas de outrora, desperdiçando até boas tramas paralelas que poderiam trazer maior profundidade ao enredo.

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O que ganha certo destaque agora é a protagonista: Alice, definitivamente, tem vida aqui. Existe uma temática de valorização e libertação da figura feminina que permeia o lado “real” da jornada de Alice, apesar de pouco explorada, é verdade. Para além disso, Mia Wasikowska parece estar muito à vontade com o papel, tomando às rédeas como protagonista – e, para falar a verdade, eu que já a critiquei muito tenho que admitir que ela apresenta uma das poucas boas atuações em um filme carregado de estrelas “apagadas”. Sacha Baron Cohen é o mesmo tresloucado de sempre; Anne Hathaway está bem menos carregada do que no longa anterior e isso tirou o charme de sua personagem; já Johnny Depp ainda dá sinais de não ter se achado. Além de Mia, o único “alívio” fica por conta de Helena Bonham Carter, que retorna como a Rainha Vermelha, rendendo divertidos momentos. Tecnicamente, é importante ainda salientar o bom uso do CGI, que criou cenários exuberantes em uma fotografia mais “clara”, “alegre”, “convidativa” – diferente da atmosfera um tanto “assustadora” da produção burtoniana (inclusive, Alice Através do Espelho tem classificação livre, enquanto que, em Alice no País das Maravilhas, a classificação é de dez anos).

Mas se você, leitor, quer uma dica, eu diria: vá assistir Alice Através do Espelho, sim. É óbvio que o longa vale a pena como entretenimento para a família, mesmo com suas deficiências. E é isso que muita gente procura indo ao cinema: se divertir. Talvez Alice Através do Espelho sequer tenha o mesmo desempenho do primeiro, uma vez que sua estreia coincide com a de X-Men: Apocalipse. Ou seja, Alice chegou de forma errada na hora mais errada ainda – mas mesmo assim, caso você não espere muito, Alice Através do Espelho cumpre muito bem sua proposta de ser um blockbuster. Descartável, sim, mas que funciona de algum jeito…

“Grandes Olhos”, de Tim Burton: Pena Não Ter Sido Tão Grande Assim

04Há aqueles que o amam, há os que o detestam, mas não há como negar que Tim Burton é um cineasta, no mínimo, pop. Em suas estreias, sempre é possível ver as salas de cinemas carregadas, tanto por aqueles que o veneram quanto pelos haters que aguardam o menor deslize do diretor (os pseudo críticos de plantão, geralmente levados pela repulsa natural a Tim). Por mais que não se queira admitir, todos esperam alguma coisa de Tim Burton (seja boa ou ruim). Não à toa, Burton, apesar de ter uma obra um tanto irregular mas facilmente identificável, é um dos nomes do cinema mais populares de sua geração. Grandes Olhos (Big Eyes), seu novo trabalho, é seu filme mais “sério” em anos (após uma sequência de fiascos e produções questionáveis) e também o que mais se distancia do universo que o artista criou e se tornou uma marca de sua filmografia.

Não sei dizer ao certo o quanto isso é bom – afinal, Burton nos apresentou a um mundo muito particular, cheio de fantasia, terror e imaginação, com seus personagens problemáticos, onde grotesco e belo se fundem. E é justamente isso que os fãs esperam quando assistem a um filme burtoniano. Portanto, é de se surpreender ver Burton dirigir a biografia de Margaret Keane, a artista plástica responsável por uma série de pinturas que foi uma das maiores sensações no mundo da arte durante os anos 50 e 60. No entanto, durante muito tempo a autoria dos quadros foi creditada a seu esposo – que também cuidava da divulgação e distribuição da obra. Anos depois, já separada de Walter, Margaret resolve processar o antigo companheiro e dar um fim às mentiras que carregou durante mais de uma década.

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Com um orçamento modesto, estimado em míseros 10 milhões de dólares (uma ninharia perto dos 200 milhões de Alice in Wonderland, uma das maiores bilheterias do diretor – e por isso, há quem diga que isso é impossível conhecendo as extravagâncias de Burton), Grandes Olhos não é um longa burtoniano tradicional: tem um “Q” de filme alternativo, independente – muito diferente das melomaníacas produções do cineasta. Grandes Olhos é o menos Tim Burton dos filmes de Tim Burton: é o mais maduro e, consequentemente, o menos extravagante de sua carreira (vale lembrar que Burton é constantemente acusado de ter problemas com sua própria maturidade). O universo burtoniano até está ali, mas em menor escala. A própria personagem principal é uma espécie de alter ego de Tim: insegura, avessa à imprensa, tímida – um perfeito tipo burtoniano, ou seja, gente fora dos padrões convencionais (a cena em que Margaret fica constrangida ao ver seus desenhos sendo vendidos no supermercado é o mesmo que enxergar Burton retraído nas premiações em que participa, por exemplo). Margaret é tão insegura ao ponto de permitir que o marido assine suas pinturas – o que lhe asseguraria um bom casamento e a possibilidade de um futuro melhor para a filha (uma vez que Margaret já vinha de um relacionamento frustrado). Além disso, a história se passa nas décadas de 50 e 60 – e vale lembrar que, naquela época, “mulher” não tinha voz nem autonomia para nada e servia apenas para procriar e cuidar da casa e família. Logo, obra “de mulher” não vendia.

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Com o roteiro escrito pela dupla Scott Alexander e Larry Karaszewski (que também escreveu Ed Wood, de 1994) nas mãos, Burton trata com sensibilidade o caso de Margaret – especialmente a luta constante que trava consigo mesma por conta da fraude que vive com o esposo. Burton é controlado, quase limitado, inovando muito pouco – o que não diminui Grandes Olhos; pelo contrário: essa leveza ajuda a conduzir a trama de forma sutil e nem um pouco cansativa. Como um drama, não há grandes momentos (okay, talvez tenha faltado uma cena memorável) e tudo é muito equilibrado, apesar de um ou outro deslize (algumas cenas em que Burton perde a mão e exagera). E o equilíbrio e exagero da fita estão explícitos justamente nas atuações dos astros principais. Enquanto Amy Adams é de uma sutileza incrível seja na voz e nos gestos (o que lhe rendeu um Globo de Ouro), Christoph Waltz, em uma desnecessária abordagem cômica, acaba aparecendo mais do que devia sem ter um personagem tão interessante quanto o de Amy. Em diversas vezes, era possível visualizar em sua performance resquícios de seu Hans Landa (de Bastardos Inglórios), com seu sarcasmo e humor ácido aflorando em trechos inoportunos. A tão comentada cena do tribunal poderia – e deveria! – ser incrível, não fosse o tom exacerbado de Waltz (que eu não sei se foi proposital ou limitação do ator mesmo).

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Costumo dizer que Burton tem três tipos de filmes: os ruins (Planetas dos Macacos, Sombras da Noite), os bons (A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, Marte Ataca!) e os ótimos (Ed Wood, Peixe Grande, Edward – Mãos de Tesoura). Grandes Olhos está, a meu ver, na linha tênue entre o bom e o ótimo, com propensão ao primeiro. Possui um belo design de produção, fotografia e reconstituição de época, incluindo o figurino de Colleen Atwood. A trilha sonora do parceiro de longa data de Tim, Danny Elfman, também é precisa, apesar de nenhum trecho excepcional (PS.: se houve um grande momento musical na história, este ficou nas mãos de Lana Del Rey, com seu Big Eyes – injustamente esnobada pela Academia). Apesar de certas irregularidades (onde os defeitos de Burton como diretor ficam mais evidentes), Grandes Olhos é Burton fazendo cinema de “gente grande”, como Hollywood tanto prega. Nas mãos de qualquer outro cineasta, Grandes Olhos seria apenas mais uma história; com Tim, o filme se torna um curioso caso de superação e reconhecimento, provando que Burton sabe, sim, fazer cinema como qualquer outro e o faz quando e como quiser. Faltou pouco para Grandes Olhos ser uma obra-prima – talvez justamente aquele toque burtoniano que todo fã esperava…

“A Pequena Loja de Suicídios”: Um Musical Trágico-Cômico Inteligente

04Há muito tempo as animações deixaram de ser um gênero exclusivamente infantil. Seja pela técnica diferenciada ou mesmo pelas histórias criativas, as animações tem conquistado um público cada vez maior – de todas as idades, do garotão de oito anos ao vovô de oitenta. O francês A Pequena Loja de Suicídios, que estreia essa semana no país, tem tudo para ser o típico desenho que agrada a todos – mas especialmente aos adultos apaixonados por este tipo de cinema.

Baseada no romance homônimo de Jean Teulé, a história de A Pequena Loja de Suicídios se passa em mundo (não muito futuro) onde a depressão e a falta de esperança com a vida atingem praticamente toda a população. Nesse cenário cinzento, uma família ganha a vida vendendo artigos que auxiliam as pessoas a cometerem suicídio. No entanto, os negócios da família são ameaçados com o nascimento do filho caçula, que desde cedo demonstra ter um espírito feliz e alegre, contrastando com o restante da família que vive em completo estado de morbidez emocional. Os pais tentam a todo custo “consertar” o filho, ensinando-lhe que não há motivos para sorrir em meio a uma vida tão triste. O problema é que a felicidade do garoto aos poucos contagia não apenas a família, mas também aos moradores de toda aquela cidade – e tudo o que o garoto mais deseja é mudar aquele cenário catastrófico.

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O grande mérito de A Pequena Loja de Suicídios é tratar um tema tão delicado de forma tão sensível. Aqui, ocorre um paradoxo: a trama é contada através de números musicais – e se você despreza este gênero, fica uma dica: assista, pois vai ser muito difícil você sair do cinema sem ter gostado do longa. Da mesma forma que Tim Burton fez em A Noiva Cadáver ou O Estranho Mundo de Jack, o diretor e roteirista Patrice Leconte criou com bastante êxito uma alegoria musical que contraria tudo o que podíamos esperar de um filme com esta temática. Se em A Noiva Cadáver, por exemplo, Burton deu cor e vida ao mundo dos mortos enquanto o mundo dos vivos era frio e infeliz, Leconte canta sobre o suicídio de forma tão alegre e entusiasmada enquanto na tela pessoas pulam dos prédios e se jogam na frente de caminhões. Essa cena inicial já é, por si só, um espetáculo.

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O formato musical bem explorado fica ainda mais passível de admiração ao longo da trama. As músicas crescem no decorrer da história e ainda que o filme possua muitas cenas perturbadoras, as canções – que no início eram tristes e melancólicas – tornam-se um pouco mais otimistas. Essa mudança gradual é fruto de um roteiro muito rápido e inteligente, marcado por um humor negro que, ao contrário do que se possa esperar, não atrapalha nem incomoda. Pelo contrário: em meio à morbidez latente do início do filme, por exemplo, o que mais incomoda é o sorriso da criança recém-nascida.

Alem dos números musicais serem ótimos, os personagens são extremamente cativantes. A família principal é cômica e lembra muito os personagens daquele universo burtoniano que muita gente ama (aliás, é impossível assistir A Pequena Loja de Suicídios e não se remeter, inevitavelmente, à estética do cineasta), alem de ser muito graciosa. Outros pontos que merecem destaque no filme são a fotografia impecável e a direção de arte – que soube caracterizar muito bem todo o universo melancólico e sem esperança daquela cidade.

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Em um mundo onde a taxa de suicídios cresce exponencialmente, A Pequena Loja de Suicídios se sobressai como uma animação que, apesar de não possuir muitos requintes, possui um tema muito interessante e que deve ser debatido. Apesar do desfecho óbvio (e da enrolação para chegar a tal), é de se apreciar que uma animação utilize tanta inteligência e criatividade para abordar um tema sério e necessário. A Pequena Loja de Suicídios é um musical trágico-cômico que perturba e é capaz de gerar algum tipo de debate, porém é intensamente belo. E para os que dizem que este filme não deve ser assistido por crianças, fico apenas com uma frase que é dita ao longo da trama: a vida é sempre melhor que a morte.

O Mundo (Não Tão) Fantástico da Srta. Peregrine e Suas Crianças Peculiares

Confesso que minha curiosidade em relação a O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares surgiu após os rumores de que o cineasta Tim Burton estaria cogitando adaptar a história em seu próximo filme. Fã assumido do diretor, não hesitei em procurar a obra nas livrarias locais – busca essa que se tornou mais ávida à medida que colhia mais informações sobre o livro e sobre todo o universo criado pelo estreante Ransom Riggs.

01Narrado em primeira pessoa, O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares acompanha Jacob, um adolescente de família rica, que desde cedo foi criado ouvindo as histórias fantásticas contadas por seu avô, um herói de guerra saudosista e cheio de mistérios. Essas histórias envolviam crianças com poderes especiais (daí a alcunha de “peculiares”) e um orfanato onde esses seres viviam sob os cuidados da tal senhorita Alma Peregrine, que dedicava seu tempo a proteger essas crianças e mantê-las dentro de uma determinada fenda de tempo, já que o convívio com os humanos e o mundo futuro era, sob certo aspecto, perigoso. Após a morte inusitada do avô, Jacob embarca em uma aventura ao País de Gales, especificamente em uma pequena ilha onde deseja descobrir as verdades sobre o orfanato e os contos do avô – e assim, reconstruir sua imagem.

Longe de ser uma verdadeira obra prima, O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares é um livro apenas bom. Superestimado, devo admitir que se trata de uma literatura superior a outras do gênero (apesar do tom “sombrio” da trama, trata-se de uma obra infanto-juvenil), especialmente se levarmos em conta o fato de que é o trabalho de estréia de Riggs (blogueiro e autor de alguns curtas-metragens). A ideia realmente é ótima – e ficaria ainda melhor se ela estivesse presente nas páginas e não apenas em sua sinopse. As crianças peculiares do título, por exemplo, são escassamente exploradas – assim como suas origens e seus poderes, o que poderia criar um drama com muito mais suspense, mistério e terror (e não simplesmente uma versão burtoniana de Percy Jackson e seus amigos, ou uma abordagem teen de X-Men).

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Seria Helena, inevitavelmente, nossa Srta. Peregrine?

Outro ponto que deve ser mencionado é a falta de estabilidade da narrativa. O livro oscila entre momentos ótimos e outros excessivamente ruins. Há trechos que fazem você devorar a leitura e outros que são tão cansativos que chegam a incomodar o leitor. O início, por exemplo, apresenta de forma encantadora o personagem Jacob – um jovem aparentemente normal, como tantos outros, cuja existência consiste apenas em… existir. Mas depois disso são tantas reviravoltas e a história se perde entre tramas previsíveis, sequências de ação demasiadamente cansativas, mistérios fracos e um didatismo sem fundamento. Todo o bom material que o autor tinha nas mãos é desperdiçado na criação de uma mitologia que não funciona e, em alguns instantes, é tão bizarra que o leitor se questiona “o que é isso?”. Todo o mundo fantástico que Riggs criou (e que é digno de louvor, diga-se de passagem) serve apenas de cenário para acontecimentos não muito estilizados, que tornam o livro um emaranhado de trechos oscilando entre o real e o imaginário.

Vale também ressaltar aqui que, como mencionei, as crianças peculiares do título são mal exploradas, assim como suas histórias. Não há um personagem tão bem desenvolvido que enterneça o público – com exceção de Jacob, o garoto comum que é o retrato de uma juventude que é a cada dia mais cética. Jacob fica dividido entre os contos do avô e a probabilidade de sua veracidade, reconstruindo aos poucos a memória afetada do parente que ainda é mais destruída pelo restante da família capitalista do garoto. Mesmo o romance entre ele e Emma Bloom, uma peculiar que mantivera um caso com o avô de Jacob anos atrás, é retratado de forma tão superficial que é impossível sentir-se cativado pelo casal. Mesmo as tão faladas e assustadoras fotografias do livro (retiradas de acervos pessoais) não funcionam também como terror, fazendo com que as imagens sejam apenas uma espécie de ilustrações que complementam a narrativa – e nada alem disso.

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Ao ler as páginas iniciais, foi impossível não associar a obra de Riggs a Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, filme burtoniano de 2003 – onde um filho tenta reconstruir a memória do pai através de suas histórias fantásticas. Também é impossível ler o livro e não enxerga-lo como um produto típico do universo burtoniano (ou mesmo enxergar Helena Bonham Carter como a provável senhorita Peregrine, caso realmente essa adaptação se confirme). O Orfanato da Srta. Peregrine Para Crianças Peculiares é uma boa obra, com um material não bem utilizado e com um final que, ao que tudo indica, abre margens para uma história muito mais interessante – tornando-a um prólogo para uma sequencia que pode ainda nos surpreender. Como produto literário final, o livro é um material agradável – mas com altos e baixos que colocam em dúvida sua qualidade.

Grandes Diretores e Seus Maiores Fiascos

Está certo que todo cinéfilo tem aquele seu diretor preferido. Todo grande cineasta tem um jeito peculiar de filmar (e que facilmente já se torna uma marca em suas produções) e, consequentemente, todo admirador da sétima arte acaba se identificando com o estilo de um ou outro artista.

Mas, por mais que se queira admitir, todo grande diretor já errou a mão uma vez na vida. Na realidade, são poucos os cineastas que conseguem ter uma obra uniforme – todos acabam, em algum momento de sua carreira, fazendo uma produção que serve de vergonha alheia para toda a comunidade cinéfila. Por isso, decidi listar abaixo dez grandes nomes hollywoodianos que já enfiaram o pé na jaca e realizaram trabalhos de caráter, digamos, duvidoso. Não se preocupe se o seu diretor favorito estiver na lista – afinal, nem só de glórias vive um grande artista.

1. Roman Polanski – O Último Portal (1999)
Sempre polêmico, Polanski também sempre produziu filmes igualmente polêmicos, atuando nos mais variados gêneros. No entanto, O Último Portal, de 1999, é um daqueles filmes que tinha tudo para dar certo mas… não deu. O longa gira em torno de um especialista em livros raros que embarca numa viagem para a Europa para confirmar a autenticidade de um livro que, ao que tudo indica, teria sido escrito pelo próprio demônio. No entanto, a história se perde no decorrer da trama e, principalmente, deixa a desejar no desfecho maluco, tornando um dos roteiros mais desperdiçados de Polanski.

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2. Alfred Hitchcock – Valsas de Viena (1935)
Até mesmo o mestre do suspense já pisou na bola… Se por um lado Hitchcock dirigiu clássicos do cinema mundial como PsicoseUm Corpo Que CaiDique M Para Matar entre muitos outros, o cineasta também tem um ou outro filme que não honram o nome do diretor. Entre eles, um de seus trabalhos menos aclamados ainda é Valsas de Viena, de 1935, cuja história gira em torno de um rapaz forçado a abandonar a carreira na música para trabalhar em uma confeitaria.

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3. Steven Spielberg – Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (2008)
Rei do gênero pipoca nos cinemas, Steven Spielberg é o mestre por trás de produções como E.T. – O ExtraterrestreTubarãoA Lista de Schindler e mais uma porrada de filmes que marcaram a infância de muito cinéfilo aqui. Também é o homem que dirigiu a saga Indiana Jones e, por esta razão, foi frustrante para os fãs do diretor vê-lo retomar uma franquia quase vinte cinco anos após o último episódio e fazer uma continuação tão fraca como Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal, cujo maior mérito foi apenas reunir parte do elenco original. Fora isso, o restante se divide entre um roteiro muito ruim e piadas tão estúpidas que beiram à canastrice.

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4. Tim Burton – Planeta dos Macacos (2001)
Com seu estilo tão peculiar, o excêntrico Tim Burton conquistou fãs ao redor do mundo com suas produções macabras e fantasiosas. Ao longo da carreira, Burton fez filmes ótimos (Peixe Grande e Suas HistóriasEd WoodEdward Mãos de Tesoura), bons (A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, BatmanA Fantástica Fábrica de Chocolate) e ruins (Marte Ataca!Alice no País das MaravilhasSombras da Noite). No entanto, é quase unanimidade que a versão burtoniana para Planeta dos Macacos, de 2001, foi a pior produção do diretor em anos – e é considerada a maior “mancha” no currículo do cineasta.

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5. Martin Scorsese – New York, New York (1977)
Dizem que Scorsese é tão cinéfilo que houve uma época em que ele tinha assistido a todos os filmes já produzidos no cinema. Se é verdade ou não, o fato é que o diretor de Taxi DriverTouro IndomávelOs Bons Companheiros entre tantos outros clássicos cinematográficos, já dirigiu filmes muito aquém de sua real capacidade. Entre eles, o fiasco maior (devido à proporção na época de lançamento) foi o musical New York, New York, concebido pelo cineasta como uma homenagem à sua cidade natal. Alem de ter sido detonado pela crítica, foi uma das piores bilheterias da carreira de Scorsese.

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6. Gus Van Sant – Psicose (1998)
Dirigindo um estilo que mescla cultura de massa e cinema independente, Gus tem filmes que, na maior parte das vezes, a crítica ama e o público esnoba. Com sua câmera única, certamente a pior produção de Gus, ao longo de mais de vinte anos de carreira, é seu remake de Psicose, obra-prima de Hitchcock. Aliás, não se trata apenas de um longa ruim – mas também um dos piores remakes de todos os tempos.

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7. Woody Allen – Você Vai Encontrar o Homem dos Seus Sonhos (2010)
Todos concordam quando os críticos dizem que a década de 2000 foi a mais fraca da carreira de Woody Allen – que há trinta anos, lança um filme por ano. Desde então, Woody teve alguns sucessos de crítica e público como o elogiado Meia Noite em ParisVicky Cristina BarcelonaPonto Final – Match Point e também alguns fiascos como Scoop – O Grande FuroIgual a Tudo na Vida e, principalmente, Você Vai Conhecer o Homem dos Seus Sonhos, de 2010, que apesar do elenco estelar (Antonio Banderas, Naomi Watts, Anthony Hopkins, entre outros) não convence e é, talvez, um dos piores filmes da carreira do cineasta.

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8. Clint Eastwood – J. Edgar (2011)
O carrancudo Clint Eastwood é uma lenda vida do cinema norte-americano. Tanto na frente das câmeras quanto na direção, Clint é um daqueles nomes que chamam público ao cinema. No entanto, o astro de Os ImperdoáveisMenina de OuroAs Pontes de Madison já dirigiu filmes bem menos badalados, como J. Edgar, de 2011. De fato, a história do homem à frente do FBI durante seus primeiros anos tem uma das piores classificações da carreira do diretor.

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9. Francis Ford Coppola – Jack (1996)
É difícil acreditar que o diretor da trilogia O Poderoso Chefão possa, em algum momento de sua vasta carreira, ter criado um filme, digamos, ruim. Mas foi isso o que aconteceu com o mestre Coppola quando, em 1996, o cineasta decidiu dirigir Robin Williams em Jack, que conta a história de um garoto que envelhece muito rápido devido uma doença rara. Apesar de ser uma comédia que muita gente admira, o fato é que, se comparado a outras obras de Coppola, o filme é um mero desperdício de talento.

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10. Ridley Scott – Prometheus (2012)
Para quem dirigiu Alien, O Oitavo PassageiroGladiadorThelma & Louise, Ridley Scott escorregou feio quando decidiu, em 2012, dirigir Prometheus. Piadinha pronta, mas realmente o longa prometeu e não cumpriu, se tornando um dos maiores fiascos do ano e um daqueles filmes que facilmente poderiam ser apagados da lista do diretor que ninguém daria por falta.

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Johnny Depp: Mil Faces em 50 anos

Ele é bonito, charmoso, rico e tem presença. Toca guitarra e já pegou Winona Ryder e Kate Moss. Já foi eleito o homem mais sexy do mundo diversas vezes. Dizem as más línguas que ele já presenteou uma de suas namoradas com uma ilha.  Ele tem tatuagens fodas. É amigo de Al Pacino, Leonardo DiCaprio e Marlon Brando. Já até rejeitou o papel principal em Titanic. Nem a Desciclopédia foi capaz de zoar o cara. Além de tudo isso, tem um currículo que impressiona por sua versatilidade e irreverência. Ah, e claro: é um grande ator. E nem continue este texto se você pensar o contrário, está bem?

johnnyEstamos falando dele: Johnny Depp, que hoje, 9 de junho, completa 50 anos. Pois é, a vida passa, os anos voam e o um dos artistas mais queridos da atualidade se torna um dos cinquentões mais famosos do cinema. Conhecido por  interpretar personagens excêntricos – se transformando em um camaleão ambulante -, Depp decidiu ainda cedo que queria ser guitarrista. Por sorte, conheceu no início da década de 80 o ator Nicolas Cage, que conseguiu um teste para aquele que seria seu primeiro longa-metragem, A Hora do Pesadelo. No final da década, Depp já era ídolo do público juvenil e símbolo sexual norte-americano graças a seu personagem na série 21 Jump Street (que chegou ao país com o péssimo título de Anjos da Lei). Desde então, foi um sucesso atrás do outro – e hoje, reconhecidamente, Johnny Depp é hoje um dos maiores atores de sua geração.

Nosso Número 01!

Nosso Número 01!

E é pra comemorar esta data que é pra lá de especial (afinal, eu já assumi em diversas ocasiões que Sir Depp é meu ator favorito), vamos fazer uma lista com alguns personagens mais memoráveis de Johnny:

Edward (Edward Mãos de Tesoura, 1990)
Primeira parceria com Tim Burton, Edward Mãos de Tesoura é o trabalho que apresentou Depp ao mundo. Aqui, ele interpreta um ser criado por um inventor que falece antes de terminar sua obra, deixando a pobre criatura sozinha e com tesouras no lugar das mãos. Uma das tramas mais sensíveis e poéticas de Burton, o filme se tornou um clássico instantâneo.

edward
Edward Davis Wood Junior (Ed Wood, 1994)
Quatro anos após Edward Mãos de Tesoura, Johnny Depp retorna à sua parceria com Tim Burton no longa Ed Wood, que retrata a vida do artista homônimo considerado “o pior diretor de todos os tempos”. Rodado em preto e branco e baseado na obra de Rudolph Grey, o filme traz Johnny Depp contracenando com Martin Landau, que no papel do famoso Bela Lugosi, faturou o Oscar de melhor coadjuvante. Ah, Johnny se traveste! Confira:

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John Wilmot (O Libertino, 2004)
Neste longa de Laurence Dunmore, Johnny Depp é John Wilmot, o segundo Conde de Rochester, famoso na corte de Charles II, na Inglaterra, durante o século XVII. Na história, John é um poeta libertino e inveterado  boêmio, que desafiou a corte de seu rei e se tornou uma lenda no seu tempo. Apesar do filme não ter decolado, certamente traz uma das melhores atuações de Depp em toda sua carreira. Só o prólogo já vale por todo o restante.


Willy Wonca(A Fantástica Fábrica de Chocolate, 2005)

Parece que Burton adora ver Depp em tipos caricatos. Não à toa, Depp caiu como uma luva no papel do maluco Willy Wonca (personagem que já havia sido vivido por Gene Wilder na primeira versão da adaptação do livro de Roald Dahl), dono da fábrica de chocolates mais amada do cinema. Inspirando-se abertamente no ícone pop Michael Jackson (nas vestes, gestos e excentricidade), Depp recebeu uma indicação ao Globo de Ouro na categoria de melhor ator de comédia/musical.

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Jack Sparrow (Saga Piratas do Caribe, 2003-2011)
Mesmo que você fosse um alienígena, você não conseguiria viver nesta galáxia sem conhecer Jack Sparrow, personagem icônico da saga Piratas do Caribe – aliás, Jack é a própria saga, diga-se de passagem. Com Jack Sparrow, Depp conseguiu sua primeira indicação ao Oscar, em 2003. Também conseguiu voltar aos holofotes hollywoodianos, se tornando um dos atores mais bem pagos da história.

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TAMBÉM MERECE SER VISTO…

Com a quantidade de filmes e personagens que Depp já fez, é difícil chegar a um consenso sobre os melhores. Por isso, segue abaixo alguns dos outros filmes do cinquentão que devem ser assistidos:

>>> Cry-Baby (John Waters, 1990)

Johnny faz o papel de um adolescente rebelde na cidade de Baltimore, neste delicioso musical do polêmico John Waters.

Johnny faz o papel de um adolescente rebelde na cidade de Baltimore, neste delicioso musical do polêmico John Waters.

>>> Benny e Joon – Corações em Conflito (Jeremiah S. Chechik, 1993)

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Depp interpreta Sam, um jovem que passa o tempo inteiro imitando Buster Keaton e Charles Chaplin.

>>> O Bravo (Johnny Depp, 1997)

Primeira incursão de Depp na direção,

Primeira incursão de Depp na direção, “O Bravo” conta a história de um índio cherokee que sacrifica a própria vida dar melhores condições à sua família. Com o amigo Marlon Brando no elenco, o filme foi indicado ao Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 1997.

>>> A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (Tim Burton, 1999)

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Mais uma parceria com Tim Burton, nesse longa Johnny vive um policial que viaja para uma cidade do interior para solucionar os crimes cometidos por um indivíduo de outro mundo.

>>> Em Busca da Terra do Nunca (Marc Forster, 2004)

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Filme que rendeu a segunda indicação ao Oscar de melhor ator para Depp. No longa, ele interpreta o criador do personagem Peter Pan e o processo que desenvolveu um dos personagens infantis mais famosos.

>>> Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet (Tim Burton, 2007)

Terceira indicação de Depp ao Oscar de melhor ator e mais uma parceria com Burton. Na trama, ele vive um barbeiro que retorna à Londres para se vingar daqueles que o fizeram ficar aprisionado durante 15 anos.

Terceira indicação de Depp ao Oscar de melhor ator e mais uma parceria com Burton. Na trama, ele vive um barbeiro que retorna à Londres para se vingar daqueles que o fizeram ficar aprisionado durante 15 anos.