“A Pequena Loja de Suicídios”: Um Musical Trágico-Cômico Inteligente

04Há muito tempo as animações deixaram de ser um gênero exclusivamente infantil. Seja pela técnica diferenciada ou mesmo pelas histórias criativas, as animações tem conquistado um público cada vez maior – de todas as idades, do garotão de oito anos ao vovô de oitenta. O francês A Pequena Loja de Suicídios, que estreia essa semana no país, tem tudo para ser o típico desenho que agrada a todos – mas especialmente aos adultos apaixonados por este tipo de cinema.

Baseada no romance homônimo de Jean Teulé, a história de A Pequena Loja de Suicídios se passa em mundo (não muito futuro) onde a depressão e a falta de esperança com a vida atingem praticamente toda a população. Nesse cenário cinzento, uma família ganha a vida vendendo artigos que auxiliam as pessoas a cometerem suicídio. No entanto, os negócios da família são ameaçados com o nascimento do filho caçula, que desde cedo demonstra ter um espírito feliz e alegre, contrastando com o restante da família que vive em completo estado de morbidez emocional. Os pais tentam a todo custo “consertar” o filho, ensinando-lhe que não há motivos para sorrir em meio a uma vida tão triste. O problema é que a felicidade do garoto aos poucos contagia não apenas a família, mas também aos moradores de toda aquela cidade – e tudo o que o garoto mais deseja é mudar aquele cenário catastrófico.

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O grande mérito de A Pequena Loja de Suicídios é tratar um tema tão delicado de forma tão sensível. Aqui, ocorre um paradoxo: a trama é contada através de números musicais – e se você despreza este gênero, fica uma dica: assista, pois vai ser muito difícil você sair do cinema sem ter gostado do longa. Da mesma forma que Tim Burton fez em A Noiva Cadáver ou O Estranho Mundo de Jack, o diretor e roteirista Patrice Leconte criou com bastante êxito uma alegoria musical que contraria tudo o que podíamos esperar de um filme com esta temática. Se em A Noiva Cadáver, por exemplo, Burton deu cor e vida ao mundo dos mortos enquanto o mundo dos vivos era frio e infeliz, Leconte canta sobre o suicídio de forma tão alegre e entusiasmada enquanto na tela pessoas pulam dos prédios e se jogam na frente de caminhões. Essa cena inicial já é, por si só, um espetáculo.

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O formato musical bem explorado fica ainda mais passível de admiração ao longo da trama. As músicas crescem no decorrer da história e ainda que o filme possua muitas cenas perturbadoras, as canções – que no início eram tristes e melancólicas – tornam-se um pouco mais otimistas. Essa mudança gradual é fruto de um roteiro muito rápido e inteligente, marcado por um humor negro que, ao contrário do que se possa esperar, não atrapalha nem incomoda. Pelo contrário: em meio à morbidez latente do início do filme, por exemplo, o que mais incomoda é o sorriso da criança recém-nascida.

Alem dos números musicais serem ótimos, os personagens são extremamente cativantes. A família principal é cômica e lembra muito os personagens daquele universo burtoniano que muita gente ama (aliás, é impossível assistir A Pequena Loja de Suicídios e não se remeter, inevitavelmente, à estética do cineasta), alem de ser muito graciosa. Outros pontos que merecem destaque no filme são a fotografia impecável e a direção de arte – que soube caracterizar muito bem todo o universo melancólico e sem esperança daquela cidade.

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Em um mundo onde a taxa de suicídios cresce exponencialmente, A Pequena Loja de Suicídios se sobressai como uma animação que, apesar de não possuir muitos requintes, possui um tema muito interessante e que deve ser debatido. Apesar do desfecho óbvio (e da enrolação para chegar a tal), é de se apreciar que uma animação utilize tanta inteligência e criatividade para abordar um tema sério e necessário. A Pequena Loja de Suicídios é um musical trágico-cômico que perturba e é capaz de gerar algum tipo de debate, porém é intensamente belo. E para os que dizem que este filme não deve ser assistido por crianças, fico apenas com uma frase que é dita ao longo da trama: a vida é sempre melhor que a morte.

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