A Crise de Identidade de “A Marca do Medo”

03A Hammer Film Productions é uma produtora britânica fundada em 1934 e especializada em cinema de terror. Durante os anos 50 e 70, a companhia foi absoluta no gênero, alcançando seu auge na década de 60, quando realizou diversas produções sobre Drácula, Frankstein e outros monstros – imortalizando astros como Christopher Lee e Peter Cushing. Durante a década de 80, a empresa passou a produzir séries de terror para a televisão, não muito bem recebidas pela crítica, até sua total decadência. Recentemente, a Hammer voltou à ativa, com filmes como A Mulher de Preto (com Daniel Radcliffe) e Deixe-me Entrar (versão norte-americana para o original sueco de Tomas Alfredson).

Toda essa introdução é importante para que você, leitor, entenda as expectativas em torno de A Marca do Medo, que chega essa semana aos cinemas nacionais. Provavelmente, A Marca do Medo era um dos filmes mais aguardados pelos fãs do gênero – e a julgar pelo trailer, a produção realmente prometia. Mas como nem sempre o trailer é capaz de expor a qualidade real de um filme, A Marca do Medo se tornou uma das maiores decepções do ano.

A Marca do Medo é baseado em uma história real dos anos 70, que ficou conhecida como “O Experimento Philip”. Na trama, o professor universitário Joseph Coupland (vivido por Jared Harris) reúne uma equipe para fazer um experimento com o objetivo de provar a existência de fantasmas. Após sua universidade cortar os recursos do projeto, o professor e seus alunos se instalam em uma desolada mansão em um lugar distante, onde Joseph utiliza seus métodos pouco ortodoxos para “destruir” um fantasma que perturba a adolescente Jane Harper (Olivia Cooke) – mesmo que para isso ele coloque em risco a integridade física de sua cobaia. Conforme a pesquisa avança, uma estranha força maligna se torna cada vez mais presente, provocando situações incomuns e aterrorizantes.

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Primeiro, quero deixar claro que nunca fui um fã de terror – e isso é uma questão de gosto pessoal. Portanto, eu particularmente já não me simpatizei muito com toda A Marca do Medo – exceto pelo fato de ser uma produção da Hammer, uma lenda neste tipo de cinema. O que acontece é que A Marca do Medo aparentemente tinha tudo para ser ótimo para os admiradores do gênero: tem um bom elenco, tem boas condições e a trama desperta uma curiosidade. Mas o maior pecado do longa está em sua falta de foco: afinal, é um filme de assombração ou possessão? O diretor John Pogue se estende na tática (falha) de deixar em aberto várias possibilidades e a impressão é que temos duas histórias em uma. Como resultado, A Marca do Medo se perde na vã tentativa de ser uma coisa e outra – e acaba não sendo nenhuma delas.

Outro quesito em que o diretor fica em cima do muro é a alternância de sequências de película tradicional e o conhecido found footage (que dá a sensação de falso documentário). Mas a transição entre um recurso e outro não funciona e dá ainda menos credibilidade à narrativa, sustentada por um roteiro frouxo e que não ajuda no desenvolvimento de suas personagens (recheado de estereótipos típicos dos filmes de terror, do bonitão obcecado pelo poder à loira vadia). O mesmo roteiro desleixado é o responsável por uma sequencia de cenas desnecessárias, forçando susto e história onde não há – o que cansa o espectador, pois as cenas se tornam até mesmo repetitivas. Nem mesmo o elenco parece colaborar – com exceção da competente Olivia Cooke, excelente no papel da psicótica Jane – com ótimos momentos de drama e sofrimento que são fundamentais para fazer com que o público se compadeça de sua personagem. Sua boa atuação também contribui para a boa química entre sua personagem e Brian (Sam Claflin, da saga Jogos Vorazes), que até arriscam um romance meio distorcido. Considerando o enredo, Sam e Olivia fazem milagre.

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A Marca do Medo perde a oportunidade de se tornar um grande filme de terror, desperdiçando uma história com potencial em um roteiro bastante falho. Apesar de conseguir dar alguns pouquíssimos sustos, o longa até que ganha certo charme com sua boa trilha sonora e um design de produção equilibrado (que retrata bem os anos 70 norte-americanos daquela região), mas perde a chance de abusar um pouco mais da violência gráfica – aliás, os efeitos visuais, especialmente na cena final, machucam os olhos de tão ruins que são, mas deixa pra lá. Isso não é nada se comparado à incansável crise de identidade que A Marca do Medo sofre: não sabe quem é e muito menos para que veio.

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