“Jessabelle”: Mais um Terror Que Deixa a Desejar

Após perder o noivo em um trágico acidente automobilístico e ficar confinada temporariamente à uma cadeira de rodas, Jessie se vê obrigada a retornar à casa de seu mórbido e distante pai para um período de recuperação. Ao revirar o quarto em que está instalada (e que pertenceu à sua mãe, antes da mesma falecer de câncer logo após o nascimento da menina), Jessie descobre algumas fitas que a mãe gravara antes de morrer e, ao assisti-las, começa a sentir uma presença sobrenatural dentro da moradia.

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Jessabelle – O Passado Nunca Morre, dirigido por Kevin Greutert (que em seu currículo não teria nada muito expressivo além de dois filmes da franquia Jogos Mortais), é uma produção de terror que procura flertar com o ocultismo ao longo de pouco menos de uma hora e meia de projeção – mas carece de suspense suficiente para empolgar o espectador. Apesar do argumento aparentemente inovador (ou pelo menos que se mostra interessante, à primeira leitura), falta ousadia do cineasta para apostar em cenas com sustos ou temas sobrenaturais mais atraentes, desperdiçando um bom material em sequências sem impacto, com tensão pouca ou quase nula – isso sem mencionar o final anticlimático que, embora abra espaço para uma continuação, não consegue ser marcante.

De tudo, Jessabelle não é totalmente descartável. As cenas em quase found footage (os vídeos da mãe de Jessie) são até passíveis de elogio, assim como a boa atuação da protagonista, Sarah Snook, que se desdobra – literalmente – na cadeira de rodas e nas caras e bocas para se fazer assustar e tornar a narrativa mais horripilante (há quem até aposte na atriz para futuros trabalhos). Pena que faltou mais e o filme não evolui de maneira alguma. Jessabelle – O Passado Nunca Morre não apresenta nada novo e pode até ser conferido sem muita expectativa mas, com sua quantidade de clichês do gênero, não passa de uma produção que será fatalmente esquecida.

A Crise de Identidade de “A Marca do Medo”

03A Hammer Film Productions é uma produtora britânica fundada em 1934 e especializada em cinema de terror. Durante os anos 50 e 70, a companhia foi absoluta no gênero, alcançando seu auge na década de 60, quando realizou diversas produções sobre Drácula, Frankstein e outros monstros – imortalizando astros como Christopher Lee e Peter Cushing. Durante a década de 80, a empresa passou a produzir séries de terror para a televisão, não muito bem recebidas pela crítica, até sua total decadência. Recentemente, a Hammer voltou à ativa, com filmes como A Mulher de Preto (com Daniel Radcliffe) e Deixe-me Entrar (versão norte-americana para o original sueco de Tomas Alfredson).

Toda essa introdução é importante para que você, leitor, entenda as expectativas em torno de A Marca do Medo, que chega essa semana aos cinemas nacionais. Provavelmente, A Marca do Medo era um dos filmes mais aguardados pelos fãs do gênero – e a julgar pelo trailer, a produção realmente prometia. Mas como nem sempre o trailer é capaz de expor a qualidade real de um filme, A Marca do Medo se tornou uma das maiores decepções do ano.

A Marca do Medo é baseado em uma história real dos anos 70, que ficou conhecida como “O Experimento Philip”. Na trama, o professor universitário Joseph Coupland (vivido por Jared Harris) reúne uma equipe para fazer um experimento com o objetivo de provar a existência de fantasmas. Após sua universidade cortar os recursos do projeto, o professor e seus alunos se instalam em uma desolada mansão em um lugar distante, onde Joseph utiliza seus métodos pouco ortodoxos para “destruir” um fantasma que perturba a adolescente Jane Harper (Olivia Cooke) – mesmo que para isso ele coloque em risco a integridade física de sua cobaia. Conforme a pesquisa avança, uma estranha força maligna se torna cada vez mais presente, provocando situações incomuns e aterrorizantes.

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Primeiro, quero deixar claro que nunca fui um fã de terror – e isso é uma questão de gosto pessoal. Portanto, eu particularmente já não me simpatizei muito com toda A Marca do Medo – exceto pelo fato de ser uma produção da Hammer, uma lenda neste tipo de cinema. O que acontece é que A Marca do Medo aparentemente tinha tudo para ser ótimo para os admiradores do gênero: tem um bom elenco, tem boas condições e a trama desperta uma curiosidade. Mas o maior pecado do longa está em sua falta de foco: afinal, é um filme de assombração ou possessão? O diretor John Pogue se estende na tática (falha) de deixar em aberto várias possibilidades e a impressão é que temos duas histórias em uma. Como resultado, A Marca do Medo se perde na vã tentativa de ser uma coisa e outra – e acaba não sendo nenhuma delas.

Outro quesito em que o diretor fica em cima do muro é a alternância de sequências de película tradicional e o conhecido found footage (que dá a sensação de falso documentário). Mas a transição entre um recurso e outro não funciona e dá ainda menos credibilidade à narrativa, sustentada por um roteiro frouxo e que não ajuda no desenvolvimento de suas personagens (recheado de estereótipos típicos dos filmes de terror, do bonitão obcecado pelo poder à loira vadia). O mesmo roteiro desleixado é o responsável por uma sequencia de cenas desnecessárias, forçando susto e história onde não há – o que cansa o espectador, pois as cenas se tornam até mesmo repetitivas. Nem mesmo o elenco parece colaborar – com exceção da competente Olivia Cooke, excelente no papel da psicótica Jane – com ótimos momentos de drama e sofrimento que são fundamentais para fazer com que o público se compadeça de sua personagem. Sua boa atuação também contribui para a boa química entre sua personagem e Brian (Sam Claflin, da saga Jogos Vorazes), que até arriscam um romance meio distorcido. Considerando o enredo, Sam e Olivia fazem milagre.

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A Marca do Medo perde a oportunidade de se tornar um grande filme de terror, desperdiçando uma história com potencial em um roteiro bastante falho. Apesar de conseguir dar alguns pouquíssimos sustos, o longa até que ganha certo charme com sua boa trilha sonora e um design de produção equilibrado (que retrata bem os anos 70 norte-americanos daquela região), mas perde a chance de abusar um pouco mais da violência gráfica – aliás, os efeitos visuais, especialmente na cena final, machucam os olhos de tão ruins que são, mas deixa pra lá. Isso não é nada se comparado à incansável crise de identidade que A Marca do Medo sofre: não sabe quem é e muito menos para que veio.