“Medo Viral”: Terror Que Referencia Clássicos, Mas Pouco Assusta

O terror é um gênero que tem rendido bons títulos nos últimos anos. Um Lugar Silencioso recebeu inúmeros elogios de público e crítica, enquanto Corra!, com todo louvor, recebeu quatro indicações ao Oscar, inclusive para melhor filme – isto apenas para citar exemplos recentes que sustentam a tese de que o terror possui um vasto repertório de ideias que, quando bem executadas, podem surpreender. Medo Viral, longa dirigido pelos irmãos Abel e Burlee Vang, é mais um exemplar que reflete, inclusive, uma tendência do mercado: explorar tecnologia e o mundo virtual para fomentar suas tramas, uma aposta que mira claramente no público mais jovem (fatalmente, o que mais consome cinema na nossa atualidade).

A premissa de Medo Viral pode parecer, a princípio, um tanto surreal: após a morte de uma garota em circunstâncias desconhecidas, um grupo de amigos recebe o convite para acessar um estranho aplicativo (semelhante ao Siri, do IOS). Aos poucos, a natureza sinistra do app se revela e estes adolescentes passam a ser perseguidos por uma entidade maligna capaz de reconhecer os medos mais profundos de cada um deles e, assim, assusta-los até a morte.

O problema de Medo Viral é que ele se apropria de inúmeros clichês do gênero, mas ao mesmo tempo é incapaz de ser um filme “sério”, parecendo muito mais uma sátira a este tipo de narrativa, já que, na prática, ele não consegue assustar. As soluções encontradas acabam sendo fáceis, quase sem lógica alguma e fatalmente previsíveis, recorrendo a recursos usados à exaustão em outras fitas e carecendo do óbvio: o terror gráfico, quase sempre em off screen. Com isso, os sustos servem mais para quebrar a pouca tensão que o roteiro cria, fazendo com que o terror em si fuja do gênero. Apesar do nítido esforço em homenagear os grandes clássicos (há, por exemplo, a apropriação do balão vermelho do Pennywise), Medo Viral não vai além de uma obra de pouca relevância, daquelas que podem até servir como entretenimento para um fim de noite (e até vale a pena ser conferido, se você estiver disposto a encarar o absurdo tão comum ao gênero), mas que está longe de ser marcante o suficiente para os amantes do terror.

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“Águas Rasas” Referencia Clássicos do Cinema

O cenário é estonteante: uma praia paradisíaca no México, com águas claras e um visual arrebatador. É para lá que a estudante Nancy viaja após perder sua mãe em decorrência de um câncer. Quando a jovem adentra o mar em sua prancha, ela esbarra em um cadáver de baleia encalhado, despertando assim a atenção de um tubarão que prontamente a ataca. Ferida e sem saída, Nancy se refugia em uma rocha no meio do oceano, iniciando uma luta desesperada por sobrevivência.

Já comentei em outras ocasiões que o terror não é um dos meus gêneros favoritos – e aqueles que se utilizam de animais como antagonistas muito menos. Simples questão de gosto. Mas isso não me impede de falar sobre Águas Rasas, novo longa do realizador espanhol Jaume Collet-Serra (de A Casa de Cera e A Órfã). Já de cara, um aviso: o filme não é nada inovador. Na realidade, Águas Rasas tem um argumento até mesmo questionável, que referencia escancaradamente dois clássicos do cinema: o próprio Tubarão, de Steven Spielberg em 1975, e Náufrago, estrelado por Tom Hanks em 2000. Entretanto, ainda que as referências sejam boas, o roteiro é fraco e não aproveita a trama. Poderíamos dividir a fita em duas partes: a primeira, destinada à apresentação de sua protagonista (algo que dura por volta da primeira meia hora de projeção e é uma sucessão de episódios que não ajudam o público a nutrir nenhuma empatia por Nancy); e a segunda, onde acompanhamos a personagem tentando sobreviver.

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Mas se o roteiro peca no desenvolvimento de uma história mais “palpável”, Águas Rasas acerta na escolha de Blake Lively. Dona de uma beleza invejável, a atriz é a personificação do “erotismo” em cena. Seja no loiro dos cabelos, nas curvas do corpo ou tentando uma ou outra palavra em espanhol, Lively é o típico padrão de beleza norte-americano. E mais do que isso: ainda que sua personagem não seja das melhores, ela consegue manter o espectador atento devido à aflição que transmite. Além disso, a fotografia de Águas Rasas é ótima e, com seus planos certeiros, valoriza bem as locações – recomendo que o filme seja assistido no cinema para que você, leitor, possa apreciar esse ponto altamente favorável da produção.

A crítica lá fora tem sido generosa com Águas Rasas (houve quem dissesse que o filme é o “Tubarão do século XXI”). Não vamos exagerar. Águas Rasas não é tudo isso, mas é uma obra competente em sua proposta de entreter – só o fato de ter uma curta duração já ajuda bastante. O longa ainda tem uma particularidade: ele está na linha tênue entre uma produção “séria” e o trash da década de 80 – logo, se você for fã deste estilo, é capaz de sair da sessão com um sorrisão no rosto.

“Corrente do Mal”: Tem Beleza, Mas Cadê o Conteúdo?

Apontado como uma das gratas surpresas do Festival de Sundance 2015, Corrente do Mal está sendo saudado pela crítica como um dos melhores filmes de terror dos últimos anos – e, considerando o gênero, não é algo que a gente encontre por aí todo dia. De fato, esta produção sobre fantasmas tem seus devidos méritos e pode agradar aos fãs do estilo, apesar de não ser um projeto memorável. A trama, passada no subúrbio de uma Detroit decadente (cinza e solitária, como uma verdadeira cidade fantasma), acompanha Jay, uma adolescente comum como tantas outras de sua idade. Após uma noite de sexo casual com Hugh, o rapaz com quem está saindo, Jay descobre algo improvável: Hugh transmitiu a ela uma maldição, que fará com que Jay seja perseguida por uma entidade que assume diversos corpos. Para se livrar desta criatura e salvar sua vida, Jay tem que passar esse mal adiante da mesma forma como o contraiu: transando com outra pessoa.

01 A princípio, alguns podem pensar que trata-se de uma analogia ao sexo sem proteção e a disseminação de doenças sexualmente transmissíveis, mas a verdade é que a metáfora pode estar muito mais ligada à perda da virgindade ainda na adolescência – e a “maldição” como uma punição que acompanhará o jovem (ou melhor, a jovem) durante toda sua vida. É como se fosse um peso que se tem a carregar, o que traz um caráter ligeiramente mais social à história. No entanto, são apenas teorias – que podem até mesmo ser jogadas por terra com o fato de que o “mal” em questão perde seu impacto quando passado adiante. A câmera do diretor David Robert Mitchell nos dá a interessante sensação de que estamos próximos da protagonista, uma vez que é como se os personagens estivessem sendo observados a todo instante. Alem disso, as lentes percorrem todos os cantos, valorizando a boa fotografia. Os cenários são variados: a casa minimamente decorada, uma praia deserta ou mesmo os bairros de um subúrbio deprimente, que agregam um ar de mistério à narrativa. No entanto, é a trilha sonora quem mais contribui para o clima macabro da fita: com uma pegada psicodélica e abstrata, o uso de sintetizadores nos leva de volta aos filmes de terror dos anos 80 e, de longe, é o ponto forte de Corrente do Mal.

02 Infelizmente, as atuações deixam a desejar e não acompanham os aspectos técnicos de Corrente do Mal. Apesar de uma protagonista regular, o elenco de apoio é fraco – mas não tanto quanto o argumento. Na tentativa de aumentar o suspense, os personagens não foram suficientemente desenvolvidos, muito menos a entidade. Nenhuma informação sobre qualquer coisa em Corrente do Mal é fornecida, como se o cineasta quisesse apenas retratar os fatos como são, dando ao espectador a oportunidade de tirar suas próprias conclusões. Infelizmente, o filme perde o fôlego em vários momentos, onde os poucos sustos são postos de lado e dramas não tão atraentes vem à tona, alem da falta de terror gráfico. Corrente do Mal até consegue assustar aqui e ali e criar uma aura de tensão, mas se sai muito melhor em seu visual vintage, que reforça o mistério e gera uma identidade única para o filme. Pena que nem sempre beleza fala mais alto – às vezes, é importante ter um pouco de conteúdo…

“Jessabelle”: Mais um Terror Que Deixa a Desejar

Após perder o noivo em um trágico acidente automobilístico e ficar confinada temporariamente à uma cadeira de rodas, Jessie se vê obrigada a retornar à casa de seu mórbido e distante pai para um período de recuperação. Ao revirar o quarto em que está instalada (e que pertenceu à sua mãe, antes da mesma falecer de câncer logo após o nascimento da menina), Jessie descobre algumas fitas que a mãe gravara antes de morrer e, ao assisti-las, começa a sentir uma presença sobrenatural dentro da moradia.

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Jessabelle – O Passado Nunca Morre, dirigido por Kevin Greutert (que em seu currículo não teria nada muito expressivo além de dois filmes da franquia Jogos Mortais), é uma produção de terror que procura flertar com o ocultismo ao longo de pouco menos de uma hora e meia de projeção – mas carece de suspense suficiente para empolgar o espectador. Apesar do argumento aparentemente inovador (ou pelo menos que se mostra interessante, à primeira leitura), falta ousadia do cineasta para apostar em cenas com sustos ou temas sobrenaturais mais atraentes, desperdiçando um bom material em sequências sem impacto, com tensão pouca ou quase nula – isso sem mencionar o final anticlimático que, embora abra espaço para uma continuação, não consegue ser marcante.

De tudo, Jessabelle não é totalmente descartável. As cenas em quase found footage (os vídeos da mãe de Jessie) são até passíveis de elogio, assim como a boa atuação da protagonista, Sarah Snook, que se desdobra – literalmente – na cadeira de rodas e nas caras e bocas para se fazer assustar e tornar a narrativa mais horripilante (há quem até aposte na atriz para futuros trabalhos). Pena que faltou mais e o filme não evolui de maneira alguma. Jessabelle – O Passado Nunca Morre não apresenta nada novo e pode até ser conferido sem muita expectativa mas, com sua quantidade de clichês do gênero, não passa de uma produção que será fatalmente esquecida.

A Crise de Identidade de “A Marca do Medo”

03A Hammer Film Productions é uma produtora britânica fundada em 1934 e especializada em cinema de terror. Durante os anos 50 e 70, a companhia foi absoluta no gênero, alcançando seu auge na década de 60, quando realizou diversas produções sobre Drácula, Frankstein e outros monstros – imortalizando astros como Christopher Lee e Peter Cushing. Durante a década de 80, a empresa passou a produzir séries de terror para a televisão, não muito bem recebidas pela crítica, até sua total decadência. Recentemente, a Hammer voltou à ativa, com filmes como A Mulher de Preto (com Daniel Radcliffe) e Deixe-me Entrar (versão norte-americana para o original sueco de Tomas Alfredson).

Toda essa introdução é importante para que você, leitor, entenda as expectativas em torno de A Marca do Medo, que chega essa semana aos cinemas nacionais. Provavelmente, A Marca do Medo era um dos filmes mais aguardados pelos fãs do gênero – e a julgar pelo trailer, a produção realmente prometia. Mas como nem sempre o trailer é capaz de expor a qualidade real de um filme, A Marca do Medo se tornou uma das maiores decepções do ano.

A Marca do Medo é baseado em uma história real dos anos 70, que ficou conhecida como “O Experimento Philip”. Na trama, o professor universitário Joseph Coupland (vivido por Jared Harris) reúne uma equipe para fazer um experimento com o objetivo de provar a existência de fantasmas. Após sua universidade cortar os recursos do projeto, o professor e seus alunos se instalam em uma desolada mansão em um lugar distante, onde Joseph utiliza seus métodos pouco ortodoxos para “destruir” um fantasma que perturba a adolescente Jane Harper (Olivia Cooke) – mesmo que para isso ele coloque em risco a integridade física de sua cobaia. Conforme a pesquisa avança, uma estranha força maligna se torna cada vez mais presente, provocando situações incomuns e aterrorizantes.

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Primeiro, quero deixar claro que nunca fui um fã de terror – e isso é uma questão de gosto pessoal. Portanto, eu particularmente já não me simpatizei muito com toda A Marca do Medo – exceto pelo fato de ser uma produção da Hammer, uma lenda neste tipo de cinema. O que acontece é que A Marca do Medo aparentemente tinha tudo para ser ótimo para os admiradores do gênero: tem um bom elenco, tem boas condições e a trama desperta uma curiosidade. Mas o maior pecado do longa está em sua falta de foco: afinal, é um filme de assombração ou possessão? O diretor John Pogue se estende na tática (falha) de deixar em aberto várias possibilidades e a impressão é que temos duas histórias em uma. Como resultado, A Marca do Medo se perde na vã tentativa de ser uma coisa e outra – e acaba não sendo nenhuma delas.

Outro quesito em que o diretor fica em cima do muro é a alternância de sequências de película tradicional e o conhecido found footage (que dá a sensação de falso documentário). Mas a transição entre um recurso e outro não funciona e dá ainda menos credibilidade à narrativa, sustentada por um roteiro frouxo e que não ajuda no desenvolvimento de suas personagens (recheado de estereótipos típicos dos filmes de terror, do bonitão obcecado pelo poder à loira vadia). O mesmo roteiro desleixado é o responsável por uma sequencia de cenas desnecessárias, forçando susto e história onde não há – o que cansa o espectador, pois as cenas se tornam até mesmo repetitivas. Nem mesmo o elenco parece colaborar – com exceção da competente Olivia Cooke, excelente no papel da psicótica Jane – com ótimos momentos de drama e sofrimento que são fundamentais para fazer com que o público se compadeça de sua personagem. Sua boa atuação também contribui para a boa química entre sua personagem e Brian (Sam Claflin, da saga Jogos Vorazes), que até arriscam um romance meio distorcido. Considerando o enredo, Sam e Olivia fazem milagre.

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A Marca do Medo perde a oportunidade de se tornar um grande filme de terror, desperdiçando uma história com potencial em um roteiro bastante falho. Apesar de conseguir dar alguns pouquíssimos sustos, o longa até que ganha certo charme com sua boa trilha sonora e um design de produção equilibrado (que retrata bem os anos 70 norte-americanos daquela região), mas perde a chance de abusar um pouco mais da violência gráfica – aliás, os efeitos visuais, especialmente na cena final, machucam os olhos de tão ruins que são, mas deixa pra lá. Isso não é nada se comparado à incansável crise de identidade que A Marca do Medo sofre: não sabe quem é e muito menos para que veio.