Frankenweenie: A Redenção de Burton?

Dizem por aí que Tim Burton não produz um bom filme desde 2007, quando dirigiu o musical Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, longa que recebeu boas críticas mas não empolgou tanto o público nas bilheterias. De fato, as produções que se seguiram não foram as mais felizes para o cineasta. Alice no País das Maravilhas recebeu uma enxurrada de críticas negativas (apesar de ser uma das maiores bilheterias da história, boa parte pelo uso dos recursos em 3D, então em alta), enquanto Sombras da Noite tem a pior aprovação das fitas burtonianas. Entretanto, se há um terreno cinematográfico onde Burton sabe caminhar muito bem é nas animações – e isso explica a ansiedade dos fãs pelo lançamento de Frankenweenie, que chegou aos cinemas brasileiros nesta sexta-feira (02).


Frankenweenie
é baseado livremente no curta  homônimo dirigido pelo próprio Tim Burton em 1984. Originalmente filmado em live-action, o curta não teve uma recepção muito calorosa na época pelos estúdios Disney, que produziram o projeto mas não deram muita ênfase na sua promoção (quem duvida que a história bizarra de Burton não se encaixava muito bem nos padrões da empresa que adorava animais fofinhos e princesas puras?). Anos depois,  Burton traz de volta às telas a história de um garoto que perde seu cão Sparky em um trágico atropelamento. Inconsolado com a perda do melhor amigo, o garoto tenta trazer seu cão de volta à vida através de experimentos científicos, motivados pelas aulas de ciência do colégio.

Universo burtoniano em sua melhor definição.

A versão de 2012 foi rodada em em stop-motion e totalmente em 3D. Outra novidade aqui é que a fita foi filmada em preto e branco – vale ressaltar que o cineasta já usou desta “técnica” em um outra produção que dirigiu, o premiado Ed Wood, de 1994. Essa característica acentua o universo burtoniano, que está impregnado em todo a projeção e torna Frankenweenie o filme que talvez melhor traduza o universo de Tim Burton. A começar, é difícil rotularmos Frankenweenie dentro de algum gênero específico. Também seria difícil dizermos que se trata de um filme para crianças. É um produto para adultos que gostam de animação – e isto é um fato. Mas o que mais fica perceptível nesta nova versão de Frankenweenie é que, ao que tudo indica, Burton não quis apenas criar uma boa história, mas também homenagear toda a sua obra – e quem acaba ganhando com isso são seus fãs.


Há inúmeras referências ao universo burtoniano, começando pelos personagens do longa, que são as melhores definições dos rascunhos do diretor. Uma das personagens secundárias, por exemplo, foi retirada de seu livro de poemas O Triste Fim do Pequeno Menino Ostra. As imagens em preto e branco também realçavam o ambiente de filmes de terror B, que Tim tanto admirava quando criança. E quem não pensou em Vincent Price quando viu a cara do professor de ciências do garoto Victor?

Mesmo se este universo fosse totalmente novo, ainda assim o filme teria grandes méritos – e é por isso que é bem capaz que Burton conquiste novos fãs a partir daqui. O longa bem produzido tem um roteiro bem estruturado (coisa que não é muito comum nos trabalhos burtonianos, devo admitir), que ora comove, faz rir, faz chorar, dá medo – o que quebrou a cara de muito fã chato que dizia que Burton não conseguiria segurar quase 1 hora e meia de projeção a partir de um curta de cerca de 30 minutos. O roteiro foi “recriado” mas sem perder em nenhum momento a essência do original, apresentando novos personagens que dão o tom de animação da trama.

À esquerda, a fisionomia assustadora de Vincent Price serve de inspiração para compor o personagem M. Rzykruski; à direita, a Menina de Olhos Fitos, já conhecida dos fãs da obra de Burton.

O projeto foi bem desenvolvido nos aspectos técnicos também. Visualmente, Burton e sua equipe continuam impecáveis. Danny Elfman, parceiro de longas datas de Tim, parece que acertou a mão e criou uma trilha digna – que ficou bem apagada em Sombras da Noite, diga-se de passagem. Também deve-se comentar aqui a dublagem correta dos principais personagens, feitas por veteranos como Martin Landau, Winona Ryder, Martin Short e Catherine O’Hara – que já trabalharam com o diretor em seu tempo áureo.

Sim, admito que trata-se de uma crítica de um fã inveterado de Tim Burton. Mas quem acompanha as minhas postagens, sabe que eu tento ser imparcial – como o fui em Sombras da Noite, há alguns tempos atrás. O fato é que é impossível ficar indiferente a Frankenweenie. Muito mais do que uma simples animação (do cara que é a “cabeça” de projetos como O Estranho Mundo de JackA Noiva CadáverJames e o Pêssego Gigante), Frankenweenie é um dos retratos mais fiéis da obra burtoniana. Além disso, este retrato tem qualidade cinematográfica indiscutível, mostrando que o cineasta ainda está em forma – e é por isso que pode se dar ao luxo de fazer o projeto que quiser. O que vai ser daqui pra frente, não se sabe. Mas Frankenweenie, de longe, é um dos filmes indispensáveis para os fãs do diretor – e de todo o estranho mundo de Tim Burton.

E nada melhor que assistir um curta do cara para entendermos um pouco seu universo, certo? Então, selecionei o curta Vincent, narrado pelo próprio gênio Vincent Price, que é praticamente uma obra-prima burtoniana.

E para aqueles que curtem o universo de Tim Burton, tem outros posts aqui que podem interessar:

Mais Um Filme de Tim Burton, Apenas…
Dark Shadows: a Novela Vampiresca de Burton e Depp
Burton: Das Telonas Para as Livrarias
O Estranho Mundo de Tim Burton

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3 pensamentos sobre “Frankenweenie: A Redenção de Burton?

  1. Bela crítica!

    Concordo com você que é realmente difícil se manter imparcial ao descrever Frankenweenie, pois é fato que Burton “acertou a mão”. Talvez uma das melhores animações do ano, talvez (E mais uma vez a direção de arte e a fotografia ficaram impecáveis, no melhor modo expressionista).

    Sobre o fato de ser “animação infantil”, creio que o filme consegue prender ambos os públicos, cada um ao seu modo. De certa forma, Burton consegue arrancar a atenção e a empatia das crianças com alguns pequenas doses de “humor inocente”, o brilhante universo diegético e com a bela relação entre Victor e Sparky; bem como agrada seus fãs em todos os sentidos – um verdadeiro presente de Burton para os espectadores.

  2. Bom, como eu acabei deixando dois comentários com logins diferentes, esqueci de uma coisa:

    Tenho um site sobre cinema, literatura, música etc., junto com dois amigos meus. Chama-se “Café Com Whisky”. Como gostei muito dos seus posts, estava pensando em uma parceria, claro, se você quiser.

    O endereço: http://cafecomwhisky.com.br/

    Qualquer coisa, entre em contato comigo por: lud.psykhe@live.com

    Abraços!

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