O Querido Diário de Hunter S. Thompson

O jornalista norte-americano Hunter S. Thompson, que se suicidou com um tiro de espingarda em fevereiro de 2005, aos 67 anos, escreveu seu romance The Rum Diary durante a década de 1960, com seus vinte e tantos anos. Entretanto, o livro só foi publicado em 1998, ano em que – coincidentemente ou não – seu livro Fear And Loathing in Las Vegas foi adaptado para o cinema pelo “surrealista” Terry Gilliam (do mais recente O Mundo Imaginário do Doutor Parnassus).

Ambos os livros tem algumas características em comum. Primeiro, contam a história de algum jornalista lançado em alguma região desconhecida e que passa por diversas situações regradas a drogas lícitas ou ilícitas. Segundo, o jornalista em questão é o alter-ego do próprio Thompson, notório consumidor de drogas e bebidas e criador do estilo de jornalismo gonzo (estilo no qual não há uma distinção clara entre ficção e não-ficção, levando muitas vezes o autor a participar da história como sujeito da narrativa).

Criador do estilo gonzo de jornalismo, apesar de pouco conhecido no Brasil, Thompson foi um dos mais populares jornalistas dos EUA.

O que difere as histórias, no entanto, é que enquanto em Fear And Loathing… o alter-ego de Thompson já está em sua fase mais louca e tresloucada (quando o autor usava e abusava de drogas), a trama central de The Rum Diary apresenta o jornalista em sua primeira fase, ainda no início do estilo gonzo – com um um escritor ainda como um mero coadjuvante da história, por vezes em tom até mesmo romanesco, como o próprio Thompson assumiu ser no início da carreira.

Bom, tudo isso é impontante dizer antes de comentar sobre Diário de um Jornalista Bêbado, adaptação cinematográfica de The Rum Diary, que estreou no país nesta semana. Na trama, Paul Kemp é um jornalista que vai trabalhar em um jornal à beira da falência em Porto Rico. Kemp, um alcoólatra inveterado, passa por divertidas situações ao lado de seus amigos – tão loucos quanto ele – e se apaixona por Chenault, namorada de um colega de profissão renegado, envolvido em um esquema de grilagem da terra.

Paul Kemp, logo no início da trama, em cena que revela todo o fraco do jornalista por bebidas.

O protagonista é vivido pelo multifacetado Johnny Depp, que também encarnou o personagem principal em Medo e Delírio – título em português da adaptação de Terry Gilliam – e foi amigo pessoal de Thompson (alguém tem dúvidas de que Depp também sempre foi chegado a exageros?). Depp inclusive insistia para que a obra de Thompson fosse levada para o cinema e está entre um dos produtores do longa.

Diário de um Jornalista Bêbado não alcançou o sucesso esperado. A produção, que custou cerca de 45 milhões de dólares, faturou pouco mais de 13 milhões nos EUA. Depp foi duramente criticado ao dizer que o público não estaria acostumado a filmes inteligentes como este e não se importava com os números, pois o longa se tornaria um clássico daqui há alguns anos. A baixa popularidade prejudicou até mesmo a distribuição do projeto: originalmente lançado nos EUA em 28 de outubro de 2011, o filme só chegou agora aos cinemas nacionais. Entretanto, a fita está muito longe de ser o fiasco que todos dizem.

O ambiente porto-riquenho da década de 50 foi bem recriado em “The Rum Diary”.

O filme é muito bem ambientado em um Porto Rico cheio de cores, alegre e descontraído, retratando muito bem o período (a história se passa na década de 1950), com seus habitantes e cultura locais, justamente na época em que a nação lutava por sua independência diante dos EUA, num país marcado por grandes desigualdades sociais (a cena em que um ricaço esnobe expulsa um grupo de nativos de sua “praia particular” é exemplo disso). Já a trilha sonora, característica e muito bem executada, foi uma das pré-indicadas para o Oscar 2012 – mas não ficou entre as selecionadas.

No quesito atuações, vale destacar Depp, que parece muito à vontade com sua personagem. Não muito exagerado, Depp consegue segurar consideravelmente suas caras e bocas – elas estão lá, mas muito menos que em outros trabalhos. Destaque também para Amber Heard (sensualíssima no papel de Chenault), Richard Jenkins (como o chefe do jornal onde Kemp trabalha) e, chamando os olhares para si a cada aparição, Michael Rispoli, como Bob Sala (um dos amigos bizarros de Kemp).

Michae Rispoli, à esquerda, como Bob Sala. Sim, teve até briga de galos.

Entretanto, o que mais se pode relevar em Diário… é sua direção. Bruce Robinson conseguiu criar um produto simpático – e este é o melhor adjetivo para o longa. Durante quase duas hora de projeção, Bruce não arrisca tanto na comédia física (na verdade, mostra-se bastante intimidado em relação a isso), mas cria cenas de pastelão divertidas avulsas – o que pode não agradar o público, pois não há um roteiro com estrutura rígida, o que deixa a sensação de altos e baixos a todo momento. Na verdade, o filme parece sem rumo. Mas talvez seja isso que o torne simpático, pois é despretensioso.

Talvez a experiência Medo e Delírio tenha deixado o público com um pé atrás quanto a Diário de um Jornalista Bêbado. O filme de Gilliam, para muitos, é uma das piores obras cinematográficas de todos os tempos. Para outros, é considerado um clássico. Talvez Depp esteja certo: daqui há alguns anos, Diário… pode se tornar um daqueles filmes cults que são vendidos a preços exorbitantes a colecionadores fanáticos. Ele já tem um ponto que o ajuda: não é um blockbuster. Apesar do texto à deriva, o longa é um bom programa que pode ser consumido sem moderação.

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