“Grandes Olhos”, de Tim Burton: Pena Não Ter Sido Tão Grande Assim

04Há aqueles que o amam, há os que o detestam, mas não há como negar que Tim Burton é um cineasta, no mínimo, pop. Em suas estreias, sempre é possível ver as salas de cinemas carregadas, tanto por aqueles que o veneram quanto pelos haters que aguardam o menor deslize do diretor (os pseudo críticos de plantão, geralmente levados pela repulsa natural a Tim). Por mais que não se queira admitir, todos esperam alguma coisa de Tim Burton (seja boa ou ruim). Não à toa, Burton, apesar de ter uma obra um tanto irregular mas facilmente identificável, é um dos nomes do cinema mais populares de sua geração. Grandes Olhos (Big Eyes), seu novo trabalho, é seu filme mais “sério” em anos (após uma sequência de fiascos e produções questionáveis) e também o que mais se distancia do universo que o artista criou e se tornou uma marca de sua filmografia.

Não sei dizer ao certo o quanto isso é bom – afinal, Burton nos apresentou a um mundo muito particular, cheio de fantasia, terror e imaginação, com seus personagens problemáticos, onde grotesco e belo se fundem. E é justamente isso que os fãs esperam quando assistem a um filme burtoniano. Portanto, é de se surpreender ver Burton dirigir a biografia de Margaret Keane, a artista plástica responsável por uma série de pinturas que foi uma das maiores sensações no mundo da arte durante os anos 50 e 60. No entanto, durante muito tempo a autoria dos quadros foi creditada a seu esposo – que também cuidava da divulgação e distribuição da obra. Anos depois, já separada de Walter, Margaret resolve processar o antigo companheiro e dar um fim às mentiras que carregou durante mais de uma década.

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Com um orçamento modesto, estimado em míseros 10 milhões de dólares (uma ninharia perto dos 200 milhões de Alice in Wonderland, uma das maiores bilheterias do diretor – e por isso, há quem diga que isso é impossível conhecendo as extravagâncias de Burton), Grandes Olhos não é um longa burtoniano tradicional: tem um “Q” de filme alternativo, independente – muito diferente das melomaníacas produções do cineasta. Grandes Olhos é o menos Tim Burton dos filmes de Tim Burton: é o mais maduro e, consequentemente, o menos extravagante de sua carreira (vale lembrar que Burton é constantemente acusado de ter problemas com sua própria maturidade). O universo burtoniano até está ali, mas em menor escala. A própria personagem principal é uma espécie de alter ego de Tim: insegura, avessa à imprensa, tímida – um perfeito tipo burtoniano, ou seja, gente fora dos padrões convencionais (a cena em que Margaret fica constrangida ao ver seus desenhos sendo vendidos no supermercado é o mesmo que enxergar Burton retraído nas premiações em que participa, por exemplo). Margaret é tão insegura ao ponto de permitir que o marido assine suas pinturas – o que lhe asseguraria um bom casamento e a possibilidade de um futuro melhor para a filha (uma vez que Margaret já vinha de um relacionamento frustrado). Além disso, a história se passa nas décadas de 50 e 60 – e vale lembrar que, naquela época, “mulher” não tinha voz nem autonomia para nada e servia apenas para procriar e cuidar da casa e família. Logo, obra “de mulher” não vendia.

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Com o roteiro escrito pela dupla Scott Alexander e Larry Karaszewski (que também escreveu Ed Wood, de 1994) nas mãos, Burton trata com sensibilidade o caso de Margaret – especialmente a luta constante que trava consigo mesma por conta da fraude que vive com o esposo. Burton é controlado, quase limitado, inovando muito pouco – o que não diminui Grandes Olhos; pelo contrário: essa leveza ajuda a conduzir a trama de forma sutil e nem um pouco cansativa. Como um drama, não há grandes momentos (okay, talvez tenha faltado uma cena memorável) e tudo é muito equilibrado, apesar de um ou outro deslize (algumas cenas em que Burton perde a mão e exagera). E o equilíbrio e exagero da fita estão explícitos justamente nas atuações dos astros principais. Enquanto Amy Adams é de uma sutileza incrível seja na voz e nos gestos (o que lhe rendeu um Globo de Ouro), Christoph Waltz, em uma desnecessária abordagem cômica, acaba aparecendo mais do que devia sem ter um personagem tão interessante quanto o de Amy. Em diversas vezes, era possível visualizar em sua performance resquícios de seu Hans Landa (de Bastardos Inglórios), com seu sarcasmo e humor ácido aflorando em trechos inoportunos. A tão comentada cena do tribunal poderia – e deveria! – ser incrível, não fosse o tom exacerbado de Waltz (que eu não sei se foi proposital ou limitação do ator mesmo).

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Costumo dizer que Burton tem três tipos de filmes: os ruins (Planetas dos Macacos, Sombras da Noite), os bons (A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça, Sweeney Todd: O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet, Marte Ataca!) e os ótimos (Ed Wood, Peixe Grande, Edward – Mãos de Tesoura). Grandes Olhos está, a meu ver, na linha tênue entre o bom e o ótimo, com propensão ao primeiro. Possui um belo design de produção, fotografia e reconstituição de época, incluindo o figurino de Colleen Atwood. A trilha sonora do parceiro de longa data de Tim, Danny Elfman, também é precisa, apesar de nenhum trecho excepcional (PS.: se houve um grande momento musical na história, este ficou nas mãos de Lana Del Rey, com seu Big Eyes – injustamente esnobada pela Academia). Apesar de certas irregularidades (onde os defeitos de Burton como diretor ficam mais evidentes), Grandes Olhos é Burton fazendo cinema de “gente grande”, como Hollywood tanto prega. Nas mãos de qualquer outro cineasta, Grandes Olhos seria apenas mais uma história; com Tim, o filme se torna um curioso caso de superação e reconhecimento, provando que Burton sabe, sim, fazer cinema como qualquer outro e o faz quando e como quiser. Faltou pouco para Grandes Olhos ser uma obra-prima – talvez justamente aquele toque burtoniano que todo fã esperava…

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