“O Regresso”: Muito Maior do que Leonardo DiCaprio

Não faz um ano que vimos o mexicano Alejandro González Iñárritu subir ao palco para receber das mãos de Ben Affleck o Oscar de melhor diretor – e, minutos depois, voltar lá e faturar o prêmio mais disputado da noite (desbancando o favorito da ocasião, Boyhood – Da Infância à Juventude). Ali, Iñarritu atestava seu talento incontestável como cineasta – e, por essas razões, as expectativas quanto ao seu novo filme, O Regresso, são altas. Mas não apenas por isso: todo o histórico da produção contribuiu para seu produto final. Dos inúmeros boatos envolvendo as extravagâncias de Alejandro às declarações de DiCaprio de que este seria “o trabalho mais difícil de sua carreira”, O Regresso chega como um dos mais fortes concorrentes ao Oscar do próximo ano.

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Baseado na obra homônima de Michael Punke e roteirizado pelo próprio Iñarritu em parceria com Mark L. Smith, O Regresso nos traz a história real do famoso explorador Hugh Glass (Leonardo DiCaprio), que após escapar de um ataque de índios durante uma expedição no inóspito interior norte-americano, é atacado por um urso e abandonado como morto pelos membros de sua equipe. Guiado pelo amor de sua família e um instinto de vingança contra John Fitzgerald (Tom Hardy), que assassinara seu único filho a sangue frio, Glass vai enfrentar a natureza selvagem e um inverno brutal em busca da sobrevivência – e também de sua própria redenção.

O Regresso é absolutamente impressionante visualmente – e o maior êxito do longa é a primorosa fotografia de Emmanuel Lubezki (de A Árvore da Vida, Gravidade e Birdman). Se muitos já ficaram de boca aberta por seus trabalhos anteriores (especialmente em A Árvore da Vida – para mim, um dos filmes mais belos de todos os tempos), certamente é em O Regresso que o diretor assina sua obra-prima. É claro que as ótimas locações (do Canadá à Patagônia argentina) ajudaram muito, mas sua técnica aqui é soberba: praticamente cada frame é um vislumbre visual – isso sem falar nos estonteantes planos-sequências, principalmente nas cenas de perseguição e no ataque indígena no início da fita. Vale ainda ressaltar que o filme foi rodado exclusivamente com luz natural, o que favoreceu muito a performance de Lubezki – bem como a montagem de Stephen Mirrione, que evita a perda de ritmo (para uma película com mais de duas horas e meia de duração), o tornando menos cansativo do que se pode esperar.

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Quanto a DiCaprio, pouco há a se dizer exceto “magnífico”. Sempre fui um tanto contrário ao ator – na realidade, nunca o achei um intérprete acima da média; apenas um bom profissional na escolha de suas personagens. Mas devo reconhecer que já há alguns anos o não mais Jack vem se tornando um excelente artista. Não fosse por Eddie Redmayne (em A Garota Dinamarquesa), Leonardo seria meu favorito. Ele se entrega de corpo e alma (literalmente, afinal O Regresso flerta em alguns instantes com algumas questões espiritualistas – em uma vaga e singela lembrança à Dead Man, de Jim Jarmusch). Para além disso, o desenvolvimento de sua personagem se dá de forma gradual – prendendo a atenção do público até o grande clímax. Não menos inspirado, Tom Hardy também se mostra sóbrio na construção do vilão da trama: um homem egoísta, cuja ambição parece estar acima de tudo. Hardy é outro que merece ser olhado com mais carinho nos próximos anos.

Não menos importante, outros pontos se destacam em O Regresso, desde a caprichosa direção de arte à discreta (mas não medíocre) trilha sonora, que se mostra presente de forma bastante concreta – aliás, todo o trabalho de som da projeção é digno de aplausos, capaz de dar ao espectador a possibilidade de imergir na narrativa como poucas vezes no cinema. Com isso, O Regresso é quase uma experiência sensorial (em algumas cenas, por exemplo, é possível ver a respiração ofegante de DiCaprio na câmera ou sentir-se sufocado com a sequência do ataque de urso). Seu grande “porém” é, talvez, seu próprio protagonista: na ânsia por premiar Leonardo DiCaprio, o público reduz o filme apenas a ele – o que é um erro terrível, visto a qualidade inegável de todo o projeto. Uma pena: O Regresso é único em sua totalidade e, ganhando prêmios ou não, já é um marco para quem sabe apreciar cinema.

“Birdman” e as Inesperadas Virtudes de Iñárritu

O último álbum de Lady Gaga flopou – mas eis uma verdade que a cantora pop clamou em uma das músicas de trabalho do disco e que resume bem a sociedade midiática em que vivemos: “I live for the applause!”. Mas por que iniciei meu texto sobre Birdman com esta constatação? Então, vamos lá…

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) é o novo e empolgante projeto do diretor mexicano Alejandro G. Iñárritu (dos elogiados Babel, Biutiful e Amores Brutos) e uma das maiores apostas ao Oscar 2015, concorrendo em 9 categorias. Na trama, que se passa nos bastidores da Broadway, acompanhamos Riggan, um ator famoso na década de 90 por interpretar um herói de sucesso no cinema (o tal “Birdman” do título), mas que caiu no esquecimento do público nos anos seguintes após rejeitar filmar uma sequência da franquia. Em decadência, Riggan decide montar uma peça de teatro para recuperar os tempos de glória e também para ter seu talento (sempre questionado) finalmente reconhecido.

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Ao mesmo tempo em que acompanha o antigo astro de cinema em sua empreitada de retornar aos holofotes, Birdman também nos apresenta subtramas e personagens tão incríveis quanto nosso protagonista – e são justamente esses os problemas que Riggan terá que enfrentar para recuperar o prestígio perdido. E aqui temos alguns dos momentos mais interessantes da fita: a luta com seu alter-ego (na verdade, o próprio herói que um dia interpretou), a reaproximação com a filha, o relacionamento com um produtor que só visa lucros ou mesmo os desentendimentos com um ator surtado e cheio de extravagâncias. Através dessas histórias, o cineasta faz uma crítica implacável e com um humor inteligentemente sarcástico à indústria da fama e a todos os meios aos quais nós nos submetemos para mantermos nossa imagem sempre em evidência.

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Com um elenco estelar, o destaque inevitavelmente fica por conta de Michael Keaton, nosso protagonista – curiosamente com uma história de carreira bastante similar à de sua personagem, mas deixemos isso em off. Ao vê-lo em cena, é engraçado como sua atuação me lembrou instantaneamente a de Cate Blanchett em Blue Jasmine: apesar do restante do elenco estar devidamente competente em seus papeis, ele brilha a cada aparição e chama a atenção para si. Arriscaria dizer que este é seu melhor trabalho em anos. Outro que aparece e quase ofusca Keaton é Edward Norton – uma explosão de variadas emoções e é simplesmente hilário.

05Iñárritu ainda dá um show de técnica, com uma fotografia que fica ainda melhor com os longos planos-sequências – chegando até a enganar o espectador com a ilusão de que as ações da trama se desenrolam sem cortes, o que contribui muito ao roteiro inteligente e rápido escrito pelo cineasta em parceria com alguns amigos. Junta-se ainda a frenética trilha sonora (com muita percussão) assinada por Antonio Sanchez e os diálogos (profundos, mas sem soar “cafona”), que dão ritmo à história e tornam a produção dinâmica – apesar de algumas irregularidades causadas por sequências menos “agitadas” mas nem por isso descartáveis.

Birdman não é um filme fácil – e pode até causar certo estranhamento à primeira vista. Repleto de metáforas (que se cruzam até mesmo à realidade dos personagens), Birdman é um longa onde tudo funciona direito, criando uma obra que durante muito tempo vai ficar na mente do público.