Oscar 2016: Resumão

Pois é, acabou de acontecer neste domingo (28), no Teatro Dolby, em Los Angeles, a 88ª cerimônia de entrega dos Academy Awards – o Oscar 2016, a maior premiação do cinema mundial.

O anfitrião deste ano foi o comediante Chris Rock, que já havia assumido o posto em 2005 – e o rapaz já iniciou a noite fazendo piadinhas bem mais ou menos sobre algumas polêmicas desta edição (talvez até mesmo como forma de diminuir as provocações que a Academia sofreu). Com um discurso fraco sobre racismo, salvou-se apenas a declaração em alto e bom som “Nós (negros) queremos oportunidades!” – e, cá entre nós, Hollywood precisa repensar nisso urgentemente.

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Fato: a cerimônia deste ano veio acompanhada de muito falatório. A princípio, a Academia recebeu inúmeras críticas pela diversidade (ou falta dela) entre os indicados: além da visível ausência de indicações do sexo feminino, não houve nenhum negro nas categorias de melhores atores e atrizes coadjuvantes e principais (assim como na edição anterior). Além disso, chamou a atenção também o fato de que não havia grandes “favoritos” nas principais categorias – e isso, sob certo aspecto, ajudou a acirrar a disputa, que ficou ainda mais concorrida nos últimos dias.

Com uma apresentação pouco empolgante, Dave Grohl homenageou os principais nomes da indústria cinematográfica que nos deixaram recentemente, como David Bowie, os atores Christopher Lee, Alan Hickman e Omar Sharif e o musicista James Horner, autor da trilha sonora de Titanic. De musical, vale lembrar que a popstar Lady Gaga também performou sua Till It Happens to You – música que perdeu o prêmio de melhor canção original para Writing on The Wall, do filme 007 Contra Spectre, interpretada por Sam Smith. Quem também emocionou foi Ennio Morricone, o veterano compositor italiano que levou sua merecida estatueta por seu trabalho em Os 8 Odiados – o desprezado último filme de Quentin Tarantino.

À esquerda, Leonardo DiCaprio em "O Regresso"; à direita, "Mad Max: Estrada da Fúria", maior premiado da noite.

À esquerda, Leonardo DiCaprio em “O Regresso”; à direita, “Mad Max: Estrada da Fúria”, maior premiado da noite.

No final, o maior premiado da noite foi Mad Max: Estrada da Fúria, que levou pra casa 6 estatuetas (todos técnicos). O Regresso, que recebeu o maior número de indicações, ficou com 3 prêmios, incluindo o tão sonhado Oscar para Leonardo DiCaprio e de direção para Alejandro G. Iñarritu – que ganhou pelo segundo ano consecutivo como melhor diretor. A grande “zebra” da noite ficou por conta de Spotlight: Segredos Revelados, que ganhou o prêmio máximo, deixando muita gente frustrada.

Confira abaixo os vencedores desta edição:

CATEGORIA VENCEDORES
FILME Spotlight: Segredos Revelados
DIRETOR Alejandro G. Iñarritu (O Regresso)
ATOR Leonardo DiCaprio (O Regresso)
ATRIZ Brie Larson (O Quarto de Jack)
ATOR COADJUVANTE Mark Rylance (Ponte dos Espiões)
ATRIZ COADJUVANTE Alicia Vikander (A Garota Dinamarquesa)
ROTEIRO ADAPTADO A Grande Aposta
ROTEIRO ORIGINAL Spotilight: Segredos Revelados
FILME EM LÍNGUA ESTRANGEIRA Filho de Saul (Hungria)
ANIMAÇÃO Divertida Mente
DOCUMENTÁRIO Amy
EDIÇÃO Mad Max: Estrada da Fúria
EFEITOS VISUAIS Ex-Machina: Instinto Artificial
FIGURINO Mad Max: Estrada da Fúria
DIREÇÃO DE ARTE Mad Max: Estrada da Fúria
MAQUIAGEM E CABELO Mad Max: Estrada da Fúria
MIXAGEM DE SOM Mad Max: Estrada da Fúria
EDIÇÃO DE SOM Mad Max: Estrada da Fúria
FOTOGRAFIA O Regresso
TRILHA SONORA Os 8 Odiados
CANÇÃO ORIGINAL Writing on The Wall (007 Contra Spectre)
DOCUMENTÁRIO (CURTA) A Girl in The River: The Price of Forgiveness
ANIMAÇÃO (CURTA) Bear Story
CURTA Stutterer

Please, Give That Man a Fucking Oscar!

Às vésperas da 88ª cerimônia de entrega dos Academy Awards, decido checar meus perfis nas redes sociais e me deparo com um evento no Facebook no mínimo criativo: “Se o Leonardo DiCaprio ganhar o Oscar, todo mundo se encontra na Avenida Paulista”. A princípio, ri bastante da criatividade dos internautas: os memes, as piadas, os gifs – realmente, a zoeira não tem limite. Mas depois de certo tempo comecei a refletir sobre a situação: o tão sonhado Oscar para Leonardo DiCaprio.

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De cara, devo confessar que nunca me simpatizei com DiCaprio, mas devo reconhecer que o cara manda bem. Ele sabe escolher seus filmes e tem controle absoluto sobre suas personagens. Costumo dizer que Leonardo é, definitivamente, um ator, mas não um artista. Disciplinado, competente, preciso – essas são algumas das muitas qualidades de DiCaprio diante das câmeras. Ele realmente sabe atuar. Para mim, talvez, falte apenas aquela “alma” em suas atuações – mas, sim, isto pode ser uma questão pessoal, pois no geral acho Leonardo um profissional excepcional. Arrisco dizer que ele é o melhor intérprete hollywoodiano de sua geração. Mais do que isso: seu progresso é admirável. De astro teen à um dos atores mais bem pagos e requisitados, o público acompanhou sua trajetória. O eterno Jack cresceu aos olhos do espectador – e isso, é claro, cria uma grande empatia. Isso explica a imensa torcida mundo afora para que DiCaprio, finalmente, receba seu merecido Oscar.

Mas podemos dizer que Leonardo foi injustiçado todos estes anos? Creio que não. Apesar colecionar boas performances ao longo de sua carreira (o que lhe rendeu 5 indicações ao Oscar), o grande problema que persegue DiCaprio é o fato de sempre ter alguém “melhor” do que ele concorrendo na mesma categoria. Em 1994, quando recebeu sua primeira indicação como coadjuvante, Leo perdeu o prêmio para Tommy Lee Jones por O Fugitivo. Uma década depois, foi Jamie Foxx (por seu papel magnânimo na cinebiografia Ray) quem tirou de DiCaprio o sonho da primeira estatueta. Em 2014, a situação foi ainda mais inquietante: com aquela que, talvez, é sua melhor atuação em anos (em O Lobo de Wall Street), Leonardo perdeu mais uma vez – aqui para Matthew McConaughey, por seu brilhante trabalho em Clube de Compras Dallas (e, cá entre nós, não havia chances de o resultado ser diferente). Todos estes exemplos só reforçam uma coisa: Leonardo sempre mereceu o prêmio, mas sempre aparecia alguém que merecia mais do que ele.

A Internet não perdoa mesmo...

A Internet não perdoa mesmo…

Neste ano, a situação pode ser diferente: Leo é o favorito de sua categoria. Além disso, a torcida por ele é muito forte. Mas é um fato: se realmente ganhar, DiCaprio vai entrar na lista daqueles que levaram um Oscar pelo conjunto da obra e não pela obra em si – porque a verdade é que sua atuação é boa, sim, mas… Você, leitor, já assistiu a A Garota Dinamarquesa? Tem noção do que é Eddie Redmayne neste filme? Não? Pois eu sugiro que você corra e assista esta produção imediatamente. Eddie é espetacular e não fosse por ter ganhado o Oscar no ano anterior (precocemente, talvez), eu poderia afirmar que este ano é dele. Ao menos, é o meu favorito.

DiCaprio já teve inúmeros momentos mais inspirados do que em O Regresso, mas esta talvez seja sua hora. Para seus fãs, um prêmio merecido – para mim (e muitos outros) um reconhecimento questionável. Mas pensemos pelo lado positivo: se Leo perder (mais uma vez), ao menos durante um ano poderemos nos divertir na Internet com sua incansável busca pelo Oscar.

“O Regresso”: Muito Maior do que Leonardo DiCaprio

Não faz um ano que vimos o mexicano Alejandro González Iñárritu subir ao palco para receber das mãos de Ben Affleck o Oscar de melhor diretor – e, minutos depois, voltar lá e faturar o prêmio mais disputado da noite (desbancando o favorito da ocasião, Boyhood – Da Infância à Juventude). Ali, Iñarritu atestava seu talento incontestável como cineasta – e, por essas razões, as expectativas quanto ao seu novo filme, O Regresso, são altas. Mas não apenas por isso: todo o histórico da produção contribuiu para seu produto final. Dos inúmeros boatos envolvendo as extravagâncias de Alejandro às declarações de DiCaprio de que este seria “o trabalho mais difícil de sua carreira”, O Regresso chega como um dos mais fortes concorrentes ao Oscar do próximo ano.

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Baseado na obra homônima de Michael Punke e roteirizado pelo próprio Iñarritu em parceria com Mark L. Smith, O Regresso nos traz a história real do famoso explorador Hugh Glass (Leonardo DiCaprio), que após escapar de um ataque de índios durante uma expedição no inóspito interior norte-americano, é atacado por um urso e abandonado como morto pelos membros de sua equipe. Guiado pelo amor de sua família e um instinto de vingança contra John Fitzgerald (Tom Hardy), que assassinara seu único filho a sangue frio, Glass vai enfrentar a natureza selvagem e um inverno brutal em busca da sobrevivência – e também de sua própria redenção.

O Regresso é absolutamente impressionante visualmente – e o maior êxito do longa é a primorosa fotografia de Emmanuel Lubezki (de A Árvore da Vida, Gravidade e Birdman). Se muitos já ficaram de boca aberta por seus trabalhos anteriores (especialmente em A Árvore da Vida – para mim, um dos filmes mais belos de todos os tempos), certamente é em O Regresso que o diretor assina sua obra-prima. É claro que as ótimas locações (do Canadá à Patagônia argentina) ajudaram muito, mas sua técnica aqui é soberba: praticamente cada frame é um vislumbre visual – isso sem falar nos estonteantes planos-sequências, principalmente nas cenas de perseguição e no ataque indígena no início da fita. Vale ainda ressaltar que o filme foi rodado exclusivamente com luz natural, o que favoreceu muito a performance de Lubezki – bem como a montagem de Stephen Mirrione, que evita a perda de ritmo (para uma película com mais de duas horas e meia de duração), o tornando menos cansativo do que se pode esperar.

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Quanto a DiCaprio, pouco há a se dizer exceto “magnífico”. Sempre fui um tanto contrário ao ator – na realidade, nunca o achei um intérprete acima da média; apenas um bom profissional na escolha de suas personagens. Mas devo reconhecer que já há alguns anos o não mais Jack vem se tornando um excelente artista. Não fosse por Eddie Redmayne (em A Garota Dinamarquesa), Leonardo seria meu favorito. Ele se entrega de corpo e alma (literalmente, afinal O Regresso flerta em alguns instantes com algumas questões espiritualistas – em uma vaga e singela lembrança à Dead Man, de Jim Jarmusch). Para além disso, o desenvolvimento de sua personagem se dá de forma gradual – prendendo a atenção do público até o grande clímax. Não menos inspirado, Tom Hardy também se mostra sóbrio na construção do vilão da trama: um homem egoísta, cuja ambição parece estar acima de tudo. Hardy é outro que merece ser olhado com mais carinho nos próximos anos.

Não menos importante, outros pontos se destacam em O Regresso, desde a caprichosa direção de arte à discreta (mas não medíocre) trilha sonora, que se mostra presente de forma bastante concreta – aliás, todo o trabalho de som da projeção é digno de aplausos, capaz de dar ao espectador a possibilidade de imergir na narrativa como poucas vezes no cinema. Com isso, O Regresso é quase uma experiência sensorial (em algumas cenas, por exemplo, é possível ver a respiração ofegante de DiCaprio na câmera ou sentir-se sufocado com a sequência do ataque de urso). Seu grande “porém” é, talvez, seu próprio protagonista: na ânsia por premiar Leonardo DiCaprio, o público reduz o filme apenas a ele – o que é um erro terrível, visto a qualidade inegável de todo o projeto. Uma pena: O Regresso é único em sua totalidade e, ganhando prêmios ou não, já é um marco para quem sabe apreciar cinema.