“Nosso Fiel Traidor”: Thriller Narra Esquema da Máfia Russa

Durante uma viagem com a esposa ao Marrocos, o professor universitário Perry conhece o carismático Dima, membro do alto escalão da máfia russa e responsável por comandar um poderoso esquema internacional de lavagem de dinheiro. Buscando proteger sua integridade e a de sua família, Dima pede ajuda a Perry para entregar informações confidenciais ao MI6 (Serviço Secreto Britânico), em troca de asilo político na Inglaterra – envolvendo o docente e sua companheira em um perigoso jogo de espionagem internacional.

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O prólogo de Nosso Fiel Traidor desperta certa curiosidade, sim – pena que o restante do filme não acompanha a boa introdução. Adaptado do best-seller homônimo escrito por John le Carré, Nosso Fiel Traidor sofre por sua falta de originalidade: tudo o que se vê ao longo de quase duas horas de fita é mais do mesmo, uma reciclagem batida de elementos que, individualmente, são até interessantes. O thriller flerta com o cinema hitchcockiano (é inevitável a comparação com o clássico O Homem Que Sabia Demais) e também com o gênero noir de outrora – mas as escolhas equivocadas da diretora Susanna White fazem com que a atenção do público logo se esvaeça. A história tenta, a todo custo, forçar um clima de mistério e suspense (principalmente através da eficiente trilha de Marcelo Zarvos) e até o consegue em determinados instantes. O roteiro, entretanto, se revela confuso e Nosso Fiel Traidor definitivamente não avança, se tornando um produto para lá de enfadonho.

Mas Nosso Fiel Traidor não é, de tudo, um desperdício. Amparado por uma fotografia caprichada e um elenco competente (Ewan McGregor é o protagonista, enquanto Stellan Skarsgard dá vida a um Dima extravagante), sua trama não deixa de ter seus atrativos para aqueles que se propuserem a acompanha-la – e tiverem paciência, é claro. Filme fácil, Nosso Fiel Traidor parece ter sido encomendado como um grande presente: envolto a uma embalagem de primeira, seu conteúdo não chega, no entanto, a surpreender. Daí, a percepção só depende de você: é aceitar ou se decepcionar.

“Toque de Mestre”: Suspense Com Toques de Previsibilidade

Há quem diga que o espanhol Eugenio Mira tenha buscado inspiração em fontes hitchcockianas para dirigir Toque de Mestre (Grand Piano, 2013), que chegou aos cinemas brasileiros esta semana. De fato, Toque de Mestre é um explícito exercício do gênero, apostando praticamente em vários elementos que contribuem para a construção de um bom suspense – mas com alguns erros que o impedem de se tornar uma obra-prima do gênero ou algo memorável.

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A história de Toque de Mestre acompanha o pianista Tom Selznick (Elijah Wood), que retorna aos palcos após 5 anos de um hiato ocasionado por uma apresentação desastrosa, quando teria fracassado ao executar uma das composições preferidas de seu mentor, Patrick Godureaux. No palco, tudo parece ir bem, quando o inseguro Tom folheia sua partitura e descobre mensagens de ameaça de um provável assassino (estrategicamente instalado), cuja exigência maior é que Tom execute seu concerto sem nenhum erro – inclusive a mesma melodia que o pianista executara cinco anos antes e que causara o grande vexame de sua carreira.

Para uma produção com pouco menos de 1 hora e meia, há de se admitir que a narrativa de Toque de Mestre é ideal. O longa retrata praticamente em tempo real cada ação de sua personagem principal – de sua chegada ao teatro ao desfecho da história. O filme funciona excepcionalmente bem até sua primeira parte, ao final do primeiro ato do concerto de Tom (aliás, um elogio merecido fica por conta dos créditos iniciais). Até aqui, tudo parece ir caminhando de forma tranquila e, seguindo a linha hitchcockiana de se fazer suspense, temos um “MacGuffin” (elemento narrativo que move a trama) muito bem definido: o piano único e feito sob encomenda para o tutor do protagonista. Até aqui, o roteiro vem crescendo gradualmente – até atingir o ponto em que o excesso de clichês do gênero tornam o filme um exercício estilístico sem muito apuro.

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Não que Toque de Mestre seja ruim – porém sua previsibilidade atrapalha seu desenvolvimento. O que era para ser um excelente roteiro acaba se tornando um suspense rotineiro, sem muito a oferecer. O filme foca sua narrativa na personagem de Elijah, um pianista que pouco se sabe a respeito e o assassino (vivido por John Cusack – que, ultimamente, aceita o que vier, contanto que lhe paguem…) aparece apenas nos minutos finais do longa, quando a sequência já perdeu quase toda sua força. O personagem de Cusack é escondido durante quase toda a sequência, pois o recurso de voz off aqui é utilizado com excesso – o que aumenta a curiosidade sobre o assassino, apesar de todas as inverossimilhanças quanto à sua real motivação (totalmente implausível).

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Para completar, o elenco foi mal escalado. Elijah Wood (cujo trabalho realmente me agrada) até tentou, mas é um fato: não era a pessoa certa para o personagem. Conhecendo a biografia do protagonista, é difícil para o público associar a imagem de Wood a Tom. Isso fica ainda mais evidente quando Elijah aparece ao lado de Kerry Bishé, a mocinha da trama, insossa e protagonista de uma cena vergonhosa (quando a esposa de Tom canta em meio ao teatro lotado). É difícil enxergar Elijah e Kerry como um casal apaixonado, como sugere o longa; a química entre os dois não rola. Sobre o elenco ainda vale destacar as atuações de Alex Winter e Tamsin Egerton (respectivamente, o assistente do assassino e a amiga chata do casal), recheadas de trejeitos que tornam os personagens apáticos e exagerados. OBS.: Elijah ainda tem aquela mesma cara de pânico de todos seus personagens (ressaltada por seu belo par de grandes olhos azuis) que, me desculpem, já está incomodando.

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Toque de Mestre é um suspense que funciona como suspense – e nada alem disso. Puro exercício de estilo, o filme consegue chamar a atenção do espectador, mas não consegue prendê-la devido à sua previsibilidade. Longe de ser um fiasco, Toque de Mestre possui ainda um final digno de clássicos do estilo hitchcock – mas que não é o suficiente para fazê-lo uma obra-prima. Uma grande pena. Toque de Mestre é um clássico exemplo de filme que se perde dentro de sua previsibilidade e com o excesso de elementos de um gênero.