Ewan McGregor Revive as Tentações de Jesus Cristo em “Últimos Dias no Deserto”

Livremente inspirado em uma passagem do Velho Testamento, Últimos Dias no Deserto acompanha Jesus Cristo (Ewan McGregor) em sua peregrinação de 40 dias de jejum e oração pelo deserto. Nessa jornada, além de enfrentar as provações impostas pela personificação do Diabo, Yeshua (nome do filho de Deus em hebraico) encontra uma família que, apesar da aparente tranquilidade, vive em crise: um pai (Ciarán Hinds), que insiste que eles devem permanecer naquele ambiente hostil e ali sobreviver; a mãe (Ayelet Zurer), que está à beira da morte; e o filho (Tye Sheridan), cuja maior ambição é partir rumo a Jerusalém.

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Foram muitas as obras que revisitaram a vida de Cristo ao longo dos anos, desde seu nascimento até a sua morte e posterior ressurreição. Todavia, poucas produções se concentram em um texto tão específico quanto Últimos Dias No Deserto. As citações bíblicas referentes a este capítulo, entretanto, são pequenas – ou pelo menos não são suficientes para sustentar uma película como esta, mesmo que sua duração seja razoavelmente curta. Logo, para “compensar” a história, para além da introdução de prováveis personagens, a narrativa nos brinda com um espetáculo visual amparado pela fotografia ímpar do mexicano Emmanuel Lubezki. Assim como fez em O Regresso, Lubezki faz uso exclusivo da luz natural da Califórnia (onde o filme foi rodado) – e este é, de longe, o ponto mais favorável do longa, ajudando a criar uma identidade poética bem interessante. Além disso, Jesus Cristo é retratado como um ser humano “comum”. Essa visão mais humanizada, sem a roupagem “cristã” com a qual estamos acostumados, de certa forma aproxima o espectador: é como se o filme contasse a trajetória de um homem qualquer, que vaga naquele cenário desértico em busca de um encontro consigo mesmo e não simplesmente um teste de sua fé e amor a Deus.

Contando com atuações competentes por parte de todo elenco, infelizmente Últimos Dias no Deserto se arrasta demais. Embora seja tecnicamente impecável, falta provocação à fita – e mesmo oferecendo quadros de tirar o fôlego como se para promover algum tipo de reflexão (coisa que Lubezki sabe fazer como ninguém), o público não é capaz de se sensibilizar tanto com a trama quanto ela pretende. A direção e o argumento de Rodrigo Garcia nos entrega, portanto, um produto que é visualmente atraente, mas com uma proposta e conteúdo confusos independente de qualquer religiosidade.

“Como Sobreviver a um Ataque Zumbi”: é Ruim, Você Sabe, Mas Você Gosta

Costumo dizer que, para mim, uma das melhores coisas após um longo período assistindo filmes “sérios” é embarcar em alguma produção sem nenhum compromisso e que não me exija muito – justamente para não ter que me doar e para até, quem sabe, ser surpreendido. Chega até a ser prazeroso – não à toa, o termo guilty pleasure é comumente associado a esse tipo de filme “ruim” mas que, por algum motivo, acaba nos agradando. Como Sobreviver a um Ataque Zumbi se encaixa perfeitamente nessa categoria.

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A trama gira em torno de três amigos adolescentes, escoteiros desde crianças, que estão passando pela difícil fase do “amadurecimento” – e aqui, já encontramos os estereótipos mais comuns nessas comédias: o garoto que só pensa em mulher e sexo; o gordinho desajeitado que parece não amadurecer jamais; e um jovem tímido apaixonado pela irmã do outro companheiro. Enquanto dois deles já se cansaram do escotismo e pensam em abandonar a atividade, o outro se sente traído – e, é claro: a amizade do trio fica abalada. No entanto, as diferenças entre eles são postas de lado quando a cidade em que vivem é infestada por uma epidemia zumbi.

Sim, Como Sobreviver a um Ataque Zumbi é um típico besteirol norte-americano, mas está longe de ser assim tão péssimo quanto pode parecer à primeira vista. Para começar, um ponto que favorece muito o longa de Christopher Landon é o fato de a projeção não ser extensa: apenas uma hora e meia é o bastante para o desenrolar da história. Está certo que o roteiro recorre a um punhado de clichês narrativos e tenha inúmeros “furos”; entretanto, há alguns momentos que valem o ingresso e é possível até esboçar algumas boas risadas (por exemplo, você conseguiria imaginar um morto-vivo cantando Britney Spears? Pois é, isso acontece aqui!).

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Também temos que entender que a trama não exige atuações espetaculares. Na verdade, ela até sobrevive de performances bizarras que dão todo o tom de “insanidade” que é a proposta da fita. Nesse ponto, vale a pena observar o carisma e a boa química do elenco formado por Tye Sheridan, Logan Miller e Joey Morgan (ainda que, individualmente, os atores não sejam mais do que suficientes). De resto, tirando o uso abusivo de piadas de caráter sexual ou escatológico (às vezes desnecessárias), Como Sobreviver a um Ataque Zumbi é o tipo de filme que centraliza sua força justamente ao abordar o grotesco, o bizarro, o escroto. Então, se você for ao cinema com alguma pretensão, esqueça: não é indicado para você. Do contrário, não tem jeito: embarque no absurdo e tenha alguns instantes de risadas garantidas com um filme que é ruim – e por isso mesmo, a gente gosta…