“Caminhos da Floresta”: Musical Disney Com Visual Charmoso Mas Que Perde o Interesse

O império de Walt Disney foi construído ao longo dos anos a partir de suas histórias baseadas em diversos contos de fadas. Os maiores clássicos do estúdio provêm deste tipo de narrativa – e, queira você ou não, estes filmes mudaram a forma de se fazer “animação” no cinema. Mas, é claro: o público mudou. Hoje, Branca de Neve e os Sete Anões não teria o mesmo impacto que em 1937; tampouco Pinóquio seria o herói ideal dos meninos como o foi em 1940. Muito esperta, a Disney sacou isso há alguns anos – e começou-se um processo de desconstrução dessas grandes tramas, através de refilmagens, adaptações e outras firulas com a intenção explicita de trazer o espectador ao cinema. Caminhos da Floresta é mais uma produção dessa leva.

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Caminhos da Floresta (Into The Woods) é o aguardado musical Disney, baseado na homônima peça da Broadway que faz sucesso desde a década de 80. A proposta aqui é bem simples: reunir os mais diversos personagens de contos de fadas em uma mesma trama. Dirigido por Rob Marshall (do oscarizado Chicago e também do último filme da franquia Piratas do Caribe), o fio central de Caminhos da Floresta é o drama do casal formado por um padeiro e sua esposa que, por conta de uma antiga maldição, não pode ter filhos. Desesperados, eles aceitam a ajuda de uma bruxa e partem floresta adentro em busca dos ingredientes para a poção capaz de quebrar o feitiço. A partir daí, personagens de diferentes fábulas são inseridos na trama, como Cinderela, Rapunzel, Chapeuzinho Vermelho e o tal João (aquele do pé de feijão).

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É desnecessário falar que, assim como todas as produções Disney, Caminhos da Floresta é um espetáculo que no que se refere aos aspectos técnicos – desde o figurino (assinado por Colleen Atwood) até sua ótima fotografia, abusando de cores frias para criar uma atmosfera sombria. Outro ponto fortíssimo aqui são suas músicas e a forma como são conduzidas (que me lembrou à primeira audição trechos do gênero Sweeney Todd ou mesmo sucessos da Disney, como A Bela e a Fera), que valorizam o trabalho de um elenco que está afiado e em boa sintonia. Meryl Streep, que há muito tempo já não precisa provar mais nada, está absurdamente bem caracterizada como a bruxa má – e, olha, no início achei que não mas sua indicação ao Oscar de melhor coadjuvante é válida. James Corden e Emily Blunt também demonstram boa química – o primeiro surpreendendo na cantoria. Outro que aparece rapidamente mas o suficiente para apresentar um número divertido é Johnny Depp, caracterizado como o Lobo; além de Chris Pine e Billy Magnussen, os dois príncipes que performam uma das cenas mais hilárias do filme.

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Caminhos da Floresta poderia ter sido um grande momento na carreira de Rob Marshall e seus atores. Apesar de ser um filme tecnicamente atraente, o maior pecado (talvez o único) da produção é a quebra brusca no roteiro, que praticamente divide o musical em dois atos distintos e estende em demasia a película. Assim, Caminhos da Floresta perde sua consistência e acaba sendo um tanto cansativo, fazendo com que o espectador perca o interesse pela história. Caminhos da Floresta poderia ter sido uma ótima experiência, mas é incapaz de seduzir totalmente seu público e acaba se tornando apenas um ótimo entretenimento visual.

Realização de um Sonho em “Apenas Uma Chance”

Histórias de superação costumam comover. Trata-se de um recurso até mesmo batido na ficção, mas que pode render algumas boas surpresas – como é o caso de Apenas Uma Chance, novo filme dirigido por David Frankel (de O Diabo Veste Prada e Marley e Eu), que conta a incrível jornada de Paul Potts rumo à realização de seu sonho e seu consequente estrelato em 2007, quando se tornou o primeiro vencedor do programa Britain’s Got Talent.

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Paul teve um único desejo durante toda sua vida: ser um cantor de ópera. Quando pequeno, o galês cantava no coral da igreja local e se destacava facilmente dos outros garotos – mas sofria também com alguns problemas de saúde que o impediam de investir mais na profissão. Acabou se tornando um vendedor de celulares na loja de um amigo de infância, mas sempre mantendo a chama de seu sonho acesa. Ainda adulto, era constantemente agredido física e verbalmente por antigos “parceiros” do colégio – o que lhe rendeu um dente quebrado, deixando sua fisionomia ainda mais “prejudicada” e, consequentemente, sua autoestima. Alem disso, Paul não recebia o devido incentivo do pai – fazendo com que o jovem se sentisse um peixe fora d’água. Após uma temporada estudando ópera na Itália (período no qual se apresentou diretamente para o tenor Luciano Pavarotti), entre altos e (muitos) baixos, Paul tem a possibilidade de realizar seu sonho, ao emocionar milhares de pessoas com sua apresentação da ária “Nessun Dorma”, de Puccini, na primeira edição de um programa que se tornaria uma febre mundial.

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Ainda que o diretor recorra a alguns inevitáveis clichês para contar essa história real, Apenas Uma Chance é um filme redondo, onde tudo funciona bem e em seu devido lugar. O roteiro tem de tudo um pouco: humor, drama, romance, música – mas todos estes elementos são utilizados na dose certa. Alem disso, há se mencionar a boa fotografia do longa (especialmente nas cenas rodadas em Veneza – apesar de ser a sequência menos inspiradora da trama) e, obviamente, a belíssima trilha sonora – melódica em alguns momentos, mas que mescla também trechos de várias árias e alguns hits de décadas anteriores. Aliás, se falamos de trilha musical, vale ainda destacar o trabalho de edição e mixagem de som – o que, em uma produção deste tipo, é fundamental para o sucesso da obra.

Vivendo o protagonista, James Corden tem uma excelente atuação – talvez só inferior à sua caracterização (afinal, Corden é muito mais bonito do que o Paul Potts original, convenhamos). O ator (que está confirmado no elenco do aguardado musical Into The Woods) oscila bem as cargas dramáticas e cômicas de sua personagem e forma uma dupla “fofa” com Alexandra Roach, na pele de Julz – paquera de internet que mais tarde se tornaria o grande amor da vida de Paul. Outras boas atuações ficam por conta de Julie Waters e Colm Meaney, os pais do artista – ela, a mãe que sempre esteve ao lado do filho; ele, o pai que nunca apoiou e achava que o garoto deveria ter uma profissão “séria”.

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Apenas Uma Chance (ironicamente ou não, produzido por Simon Cowell – jurado da atração que consagrou Paul) é uma cinebiografia cujo maior êxito está em transcrever tanto as conquistas quanto os fracassos de seu protagonista de forma equilibrada – o que, de certa maneira, ajuda o telespectador a se sensibilizar com a história e se aproximar dos dramas de seus personagens. Na cena em que Paul tem um péssimo êxito ao se apresentar para Pavarotti, por exemplo, o público sente aquele aperto no peito ao observar o cantor derrotado em cima do palco – mas também brota um sorriso no rosto de cada um ao ver Paul se desvencilhando das dificuldades que tanto o rodeiam, como o desprezo de alguns, os problemas de saúde, o bullying, a desmotivação do pai e, principalmente, sua própria insegurança e baixa estima (alcançando a maior de todas as superações). Ao final, é difícil segurar o choro ao ver o artista tendo seu momento de glória. Apesar de soar em alguns momentos como um dramalhão de estilo “auto ajuda”, Apenas Uma Chance é um filme que consegue emocionar sem forçar a barra, nos dando a certeza de que todo e qualquer sonho pode se tornar realidade, ainda que tardiamente.

Musical Agridoce em “Mesmo Se Nada Der Certo”

Mesmo Se Nada Der Certo (Begin Again, péssimo título e tradução pior) não é um musical no sentido clássico da palavra. Trata-se de uma variação do estilo, uma vez que a música no filme de John Carney (assim como em seu trabalho anterior, o elogiado Apenas Uma Vez) não é o principal, mas sim um elemento que auxilia no desenvolvimento narrativo – e Carney dosa com inteligência a utilização dos números musicais (algo surpreendente para um diretor com o currículo tão modesto).

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Estamos em Nova Iorque, uma cidade viva, por vezes melancólica, que recebe gente de todos os lugares do mundo em busca de oportunidades. Nesse cenário, conhecemos Gretta (Keira Knightley), uma compositora sem muitas ambições cujo namorado Dave (Adam Levine) tem uma carreira de cantor pop em ascensão. Não demora muito para que o novo estilo do rapaz suba à cabeça e ele abandone Gretta – que alem de namorada é sua parceira constante nas composições de suas músicas (e fonte de inspiração, claro). Desiludida, ela deixa o apartamento do casal e sai a procura de seu velho amigo Steve (James Corden) – um músico de rua que sobrevive com o pouco que ganha nas apresentações que faz em pequenos bares da cidade. Em um desses shows, Gretta sobe ao palco para uma participação especial (muito contrariada) e acaba chamando a atenção de Dan (Mark Ruffalo), um produtor musical que já viveu momentos de glória na carreira, mas hoje está falido, separado e mal amado.

É difícil encaixar Mesmo Se Nada Der Certo dentro de um gênero definido. Não é propriamente um musical, nem mesmo uma comédia ou um romance muito bem estruturado. Talvez fique melhor se encarado como um drama – e nesse quesito, o filme se sai bem, pois ele deixa de lado todos os clichês característicos do estilo (e de todos os outros citados). Suas personagens estão passando, todos eles, sem exceção, por aquela determinada fase da vida em que tudo parece perdido e sem solução – todos, a seu modo, são fracassados. Mas ao mesmo tempo percebe-se uma ponta de esperança, uma nota de otimismo em relação à vida. Eles não querem ganhar dinheiro, fazer sucesso e se tornar celebridades da indústria fonográfica: eles desejam ser felizes fazendo aquilo que amam, mesmo que isso não traga o retorno tão esperado.

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Através de uma série de baladas pop-folk, John Carney acompanha seus personagens enquanto tentam superar seus medos e fracassos – alem de criticar abertamente a posição da indústria fonográfica no mercado atual. A figura de Dave – que deixa de lado tudo aquilo em que acredita para criar canções pop e vender discos – evidencia uma tendência atual, onde artistas se preocupam muito mais em gerar lucros para as gravadoras do que necessariamente criar uma “boa música”, que atinja diretamente o ouvinte, que passe uma mensagem, que se torne especial na vida de alguém. Chega até a ser cômico o fato de este personagem ser representado por Adam Levine – tudo bem, é “O” Adam Levine, produto da mídia, que cria baladinhas pegajosas de gosto duvidoso, mas tem uma aparência invejável (e sabe muito bem como utiliza-la, claro).

Não que ele esteja mal. A bem da verdade, Adam é até charmoso em cena (e olha que eu, particularmente, tenho certa aversão a cantores (as) que atuam) – mas isso pode ser resultado da incrível química existente entre todo o elenco. Todos parecem estar muito a vontade (sugerindo até mesmo alguns momentos de improvisação), com um evidente destaque para Mark Ruffalo – que foge do padrão “mocinho e galã” dos dramas convencionais e consegue transparecer bem a gradativa transformação pela qual ser personagem passa ao longo da trama. Talvez a única atuação questionável é a de Hailee Steinfeld – a jovem de dezessete anos que já foi indicada ao Oscar e hoje parece colecionar os mesmos tipos (Hailee recentemente participou do longa 3 Dias Para Matar e suas duas personagens são praticamente idênticas).

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O desfecho da trama foge também do padrão. O tão esperado happy ending não ocorre – ou pelo menos, não no sentido mais tradicional. Cada um termina da maneira como queria, da forma como esperava – e isto distancia ainda mais Mesmo Se Nada Der Certo de qualquer gênero específico. Com uma única exceção: o romance – mas não entre duas pessoas, mas entre a música e a cidade de Nova Iorque. Ciente de seus poucos recursos e sem um tostão no bolso, Dan e Gretta decidem gravar seu álbum em diferentes pontos da cidade – e graças a isso, somos levados a vários cantos de uma Nova Iorque iluminada e cheia de vida. Mesmo Se Nada Der Certo acerta em cheio ao tratar as reviravoltas pelas quais, inevitavelmente, todos passamos na vida – sem estereótipos e com muita delicadeza, fugindo do final previsível e das músicas pop açucaradas dos musicais convencionais.

Ah, momento tietagem: mesmo se nada desse certo (trocadilho previsível), ainda teríamos Adam Levine com e sem barba, com bigode, com toca, com o cabelo bagunçado… E, olha, vai por mim: compensa!