“Lolo”: Complexo de Édipo em Linguagem Pop

Você certamente já viu essa história no cinema: um personagem se sente ameaçado com a relação entre duas pessoas e faz de tudo para destruir o relacionamento. Vamos mais além: um filho que não suporta o namorado da mãe e quer a todo custo afugentar o rapaz. No caso de Lolo, novo filme de Julie Delpy, é o tal Lolo do título quem fica incomodado com o namoro da mãe Violette, uma moderna parisiense produtora de eventos de moda, e Jean René, um pacato programador de sistemas que acaba de se mudar para a capital francesa.

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Um filho (com evidente Complexo de Édipo) tentando sabotar a relação da mãe, como já dito, não é algo original. O que falta em Lolo, no entanto, é profundidade para se tratar este tema – que tem grande potencial a ser explorado, diga-se de passagem. Talvez este seja o “problema” que dificulte a criação de uma proximidade do público com o longa. Mas, ainda assim, há de se elogiar Lolo em um aspecto: seu visível caráter “comercial”. Lolo é uma comédia que foge dos padrões franceses do estilo, se assemelhando muito ao gênero cômico norte-americano, porém com um toque de extravagância que acaba tornando o filme um tanto quanto “estranho”, mas interessante. Ou seja, Lolo é uma produção com forte apelo para o público que espera uma comédia despretensiosa – por vezes vazia, sim, mas com capacidade para divertir o espectador que se propõe a assisti-la (ainda que algumas piadas sejam vulgares, fáceis ou recheada de clichês e sem o menor requinte).

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Delpy é quase neurótica na pele de Violette, mesmo que sua personagem seja inconstante: uma mulher confiante e firme, mas que ao mesmo tempo se mostra totalmente ingênua e imatura diante do filho mimado. Dany Boon é o tipo mais equilibrado da fita, praticamente o único ser “normal” em uma trama repleta de loucos. Já Vincent Lacoste é quem rouba a cena a cada aparição. Ele faz de Lolo um sociopata incrível, um aspirante a artista com o ego lá no alto para quem o mundo deve girar ao seu redor – e isso inclui a exclusividade quando se trata da mãe. Lacoste é, definitivamente, o alívio de um filme que não tenta inovar em nada e veste a camisa de ser uma comédia que busca o riso fácil e rápido. Há quem possa se incomodar ou sentir culpa? Sim, de fato. Lolo não tem impacto emocional algum, mas não deixa de ser agradável devido à sua despretensão – e isso é o que muitos procuram no cinema.

“Amor ao Primeiro Filho”: Comédia Francesa Como Tantas Outras

Ange é um arquiteto bem-sucedido e mulherengo inveterado, que no passado se recusou a assumir uma criança. Anos depois, ele está tranquilo em seu escritório quando recebe a visita de Gabrielle, uma mãe solteira cuja filha acabara de engravidar do namorado – o tal bastardo de Ange. Para evitar que a garota passe pelo mesmo destino, Gabrielle pede a Ange que convença o seu suposto filho a assumir a paternidade do bebê que vai nascer. Mas a situação, é claro, vai um pouco mais além e o quarentão Ange precisará amadurecer para poder acertar as contas com seu passado.

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Amor ao Primeiro Filho é mais uma comédia francesa feita a rodo nos últimos anos – e que, para muitos, coloca em dúvida a qualidade do cinema deste país. Típico título de Sessão da Tarde, o longa estrelado pelos astros Patrick Bruel e Isabelle Carré é uma daquelas produções despretensiosas, leves e por vezes rasas, que não chega a chamar muita atenção do público cinéfilo. Apesar de possuir momentos agradáveis e alguns diálogos interessantes, falta profundidade na história e isso afasta um pouco o espectador. O filme até ganha bastante a partir de sua segunda metade, quando ocorre uma boa virada na trama e os protagonistas ficam mais próximos (na melhor sequência, pai e filho cuidam do bebê, em uma cena que, apesar de nada original, promove alguns risos). Dirigido e roteirizado por Anne Giafferi, Amor ao Primeiro Filho peca por ser tão igual a tantos outros filmes do gênero. Ao menos, seu caráter um tanto moralista nos ensina que somos livres para fazer nossas próprias escolhas – mas também para recebermos suas devidas consequências.

“O Que as Mulheres Querem”: Um Filme Que Você Não Vai Querer Ver

“O que as mulheres querem?” – está aí uma pergunta que você já deve ter ouvido centenas de vezes. A verdade é que esta é uma dúvida que nos aflige desde os primórdios da humanidade e já foi abordada em diversas situações na ficção, tornando-se um tema quase trivial. Pois é exatamente isto que a cineasta Audrey Dana tenta responder em seu filme de estréia – e, levando em consideração que se trata de uma obra dirigida por uma mulher, poderíamos pensar que a forma como a questão foi explorada seria um pouco diferente. Engano o nosso…

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O Que as Mulheres Querem segue 11 mulheres parisienses buscando aquilo que desejam: amar e serem amadas. Os problemas, entretanto, se apresentam logo no início: uma repetição dos mesmos tipos já estereotipados em outras produções do gênero. Mas com um agravante: as mulheres de Audrey Dana não se bastam, necessitando sempre da figura masculina (nem que refletida em uma lésbica, para você ter noção do absurdo) para serem felizes e se realizarem por completo. Essa banalização do feminino se debruça sobre personagens superficialmente desenvolvidos, que por sua vez transitam um roteiro excessivamente caricatural que além de recorrer aos já citados estereótipos (a esposa infeliz que se apaixona por uma babá, a executiva que não tem vida social, a traída que inferniza o esposo e etc.) utiliza inúmeros clichês e fórmulas batidas com o intuito de produzir humor onde não há. Para piorar, este excesso de personagens acaba prejudicando também as narrativas individuais, com tramas que deixam pontas e desfechos indefinidos.

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A diretora (que também atua) errou feio na condução de seu longa, entregando uma das piores produções francesas nos últimos anos. Na ânsia de fazer sucesso, a cineasta não mudou a receita: apostou mais em elementos utilizados à exaustão no cinema, nos mesmos tipos e na velha abordagem que vulgariza a mulher. Com isso, nem o bom elenco (que conta com a participação da premiada Isabelle Adjani e a ex de Johnny Depp, Vanessa Paradis) e a trilha sonora empolgante são capazes de fazer com que O Que as Mulheres Querem realmente valha a pena. Com pouca graça e um final pra lá de nonsense, O Que as Mulheres Querem é uma triste prova de que as mulheres no cinema ainda ficam um pouco perdidas quando o assunto são elas mesmas.

“Beijei Uma Garota”: Comédia Francesa Aborda a Heterossexualidade de Personagem Gay

Tudo ia bem na vida de Jeremie. Aos 34 anos, bonito, saudável e financeiramente bem sucedido, o rapaz mantém uma relação perfeita com Antoine, com quem já divide um apartamento. O que falta para eles? Apenas oficializar a união. Quando pensa estar completamente seguro de sua decisão, Jeremie se vê diante do improvável: ele conhece uma bela mulher – e tem sua primeira relação sexual com o sexo oposto. Com isso, as dúvidas começam a surgir, abalando o relacionamento entre o casal às vésperas da cerimônia.

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Uma das premissas mais clichês do cinema é o cara que não consegue contar a verdade para a pessoa que ama com medo de machuca-la. Beijei Uma Garota parte dessa ideia para construir e desenvolver sua narrativa, mas consegue ser mais interessante do que outros argumentos pois envolve diretamente a questão da sexualidade de seu personagem principal (afinal, é possível deixar de ser “homossexual”?). O filme traz à luz uma discussão que gera polêmica e já foi abordada em outras produções, como no também francês Eu, Mamãe e os Meninos. Vale pontuar que os protagonistas de ambos os longas “lutam” pelo direito de definir sua sexualidade quando todos à sua volta parecem já ter a determinado. Jeremie, por exemplo, é abertamente gay e tem o apoio incondicional de seus colegas e familiares – quando conta sobre a traição, por exemplo, o pai tem uma reação que seria difícil de se imaginar.

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A construção das personagens também “favorece” o universo gay da história. O núcleo formado por homossexuais é até mais “simpático” do que o grupo de heterossexuais. O próprio Antoine, o noivo de Jeremie interpretado por Lannick Gautry, é muito mais carismático do que Adna – a bela loura que, mesmo sem intenção, acaba causando toda a confusão. Pio Marmaï, por sua vez, é bastante competente em sua performance como Jeremie (com direito a cena de nudez e pegação no chuveiro), fazendo alguns trejeitos que tornam seu tipo atrapalhado um ótimo protagonista. Outro que também merece seu reconhecimento é Franck Gastambide, o amigo heterossexual que é o grande alívio cômico da trama. A interação entre esses atores é visível, como se todos estivessem muito à vontade em cena e sabendo exatamente seus respectivos papeis, sem estrelismo ou coisa parecida.

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Dirigido pela dupla Maxime Govare e Noémie Saglio, Beijei Uma Garota começa empolgante, perde o fôlego ao longo da fita e traz um desfecho que, particularmente, não me agradou por completo (tanto na concepção quanto na execução, que me pareceu meio nonsense, mas enfim…). Ainda assim, é um filme que merece ser conferido devido ao seu humor pontual, às atuações convincentes do elenco e também pelas polêmicas que pode gerar devido à sua proposta. Agradável de se assistir, Beijei Uma Garota diverte, sim, e poderia ser infinitamente melhor – pena que sua visão sobre o tema talvez não tenha sido a mais “honesta”. Porque, cá entre nós, se um rapaz gay beijar uma garota, ele vai realmente gostar?

“Que Mal Fiz Eu a Deus?”: Xenofobia em Debate

O casal Claude e Marie Verneuil tem quatro filhas e, como todos os pais, eles sempre desejaram o melhor para elas – inclusive um bom casamento (que para eles está intimamente ligado à união com parceiros franceses e católicos, assim como o restante da família). Mas nem tudo é perfeito e o que mais se teme é geralmente o que acontece: as três primeiras meninas casam-se com homens de diferentes etnias. E como tudo sempre pode piorar um pouco, a caçula (e última esperança) decide se unir a um jovem que também não possui o perfil idealizado pelos pais. Não resta muitas opções a Claude e Marie: alem de suportar os genros, eles se veem obrigados a tentar restabelecer a paz familiar.

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Que Mal Fiz eu a Deus? foi um sucesso na França em 2014. Comédia deliciosa, o humor da fita é quase todo feito a partir da xenofobia do cidadão francês com relação aos estrangeiros, como o filme sugere. No entanto, é interessante analisar que isto não é uma condição restrita exclusivamente à população francesa. Se de fato muitos veem os franceses como pessoas antipáticas, orgulhosas e pouco abertas às amizades, o longa propõe na verdade que todos nós, em menor ou maior ponto, somos da mesma forma. Todos nós mantemos certa aversão ao novo, ao desconhecido – e os conflitos causados por diferenças sociais e culturais comprovam isso.

Philippe de Chauveron, em seu segundo trabalho como diretor, nos entrega um filme redondo. Que Mal Fiz eu a Deus?, apesar de até recorrer a alguns poucos clichês e soluções fáceis, nunca cai no ridículo e o humor é refinado, pautado com muita inteligência, oscilando momentos mais sutis (onde você pode até perder a piada, caso pisque) com sequências mais escrachadas. O roteiro abusa das questões culturais para provocar o cômico: as diferentes formas de pensar, as tradições (a sequência da circuncisão de um menino é, no mínimo, hilária), as religiões, as culinárias e até mesmo os estereótipos – inclusive o possível estereótipo francês, totalmente averso à nova realidade de nossa sociedade multicultural.

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Simplesmente imperdível, Que Mal Fiz eu a Deus? é uma prova de que o gênero comédia pode ser excelente, sim. Com muita inteligência, o longa diverte como poucos, apostando em um narrativa irreverente, atuações convincentes e um argumento que, além de fazer rir, faz também pensar e refletir: até que ponto as diferenças são capazes de gerar conflitos? Que Mal Fiz Eu a Deus? é, sem sombra de dúvidas, um grande filme e uma das melhores comédias francesas nos últimos anos.

“Eu, Mamãe e os Meninos”: Será Que Ele É?

A primeira lembrança que tenho de minha mãe é de quando eu tinha uns quatro ou cinco anos. Ela chamou os filhos para o jantar, dizendo: “Meninos e Guillaume, na mesa!”.

É com esta frase arrebatadora que Guillaume Gallienne introduz seu filme autobiográfico Eu, Mamãe e os Meninos – considerado a comédia francesa do ano e que foi o grande vencedor do César 2014 (o Oscar francês), incluindo melhor filme e melhor ator – desbancando títulos como Azul é a Cor Mais Quente, O Passado e A Pele de Vênus, último trabalho de Roman Polanski.

02Galliene, elogiado comediante francês, é o diretor, roteirista e protagonista desta incrível comédia – praticamente um grito de libertação de todos os traumas e questões mal resolvidas da infância e adolescência do artista. Desde cedo, o jovem nutre uma admiração incomum pela figura feminina – especialmente, por sua mãe, por quem tem verdadeira adoração e devoção –, chegando ao ponto até mesmo de referir a si mesmo como um ser feminino, uma mulher (em determinado momento, o protagonista aparentemente se descobre apaixonado por um colega do colégio e afirma a mãe “não ser homossexual, pois é sua filha”). Isso leva sua família a acreditar firmemente que Guillaume é homossexual e mais do que isso: a encorajar o garoto a se afirmar como tal.

O grande trunfo de Eu, Mamãe e os Meninos está na inovação de sua estrutura narrativa. De início, somos apresentados a um Guillaume nos palcos, se preparando para sua grande encenação teatral. Seu monólogo, no entanto, é entrecortado pela constituição dos episódios que o jovem narra. Dessa forma, o espectador está diante de duas narrativas que se completam: na primeira, nosso protagonista conta sua história; na segunda, Guillaume vive o que narra. Essa inovação ganha força através da utilização de um elemento já conhecido nas comédias escrachadas norte-americanas: a interpretação de vários papéis. Guillaume vive a si mesmo e também sua mãe – e, travestido como tal, é tão impagável quanto vestido de menininho que quer ser menininha (nos remetendo, erroneamente, à comédia brasileira Minha Mãe é Uma Peça – e digo “erroneamente” porque a produção de Paulo Gustavo é infinitamente inferior à obra de Guillaume).

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Mas não é apenas isso que torna Eu, Mamãe e os Meninos um ótimo filme. O longa é um estudo analítico sobre o desenvolvimento sexual, um tema que ainda é clichê. Na verdade, pouco se discute a respeito do homossexualismo em si – o que vemos é um protagonista que enfrenta suas questões sexuais sem, necessariamente, se preocupar em descobrir-se homossexual ou não. Já de início, Guillaume percebe que não apenas é ligado à figura materna, mas também é parecido com ela – e cada vez mais tenta emular a mãe. Isso o leva a se enxergar menina e buscar imitar as demais mulheres à sua volta – mas não apenas porque deseja “ser uma mulher”, mas também porque admira o sexo oposto. Isto fica explícito no certo “receio” que tem do sexo masculino – chegando a abandonar uma orgia gay ou mesmo dispensar uma transa por se assustar com o tamanho do pênis do indivíduo.

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Na visão de Guillaume, sua feminilidade advém não de um possível homossexualismo – mas simplesmente da admiração que mantém pelo sexo oposto. Ou seja, sua feminilidade não o torna homossexual (olha a quebra do estereótipo!) – apesar de, ao que tudo indica, estar preparado para aceitar esta condição caso se confirme. Aqui, nosso protagonista não luta para assumir sua sexualidade – e, consequentemente, sofrer com todos os problemas decorrentes de tal ação (como as brincadeiras dos irmãos ou o desprezo do pai). Contrariando o que se podia esperar de um filme com esta temática, a luta de Guillaume não é para sair do “armário” – mas sim para mostrar quem realmente é, mesmo quando todos dizem o contrário. E ele só consegue isso quando, finalmente, encara sua mãe: é justamente aí que ele descobre que o grande problema de sua progenitora foi transferir seus medos, suas angustias, ansiedades e insegurança para ele.

Comédia deliciosa (ainda que recorra a alguns momentos pastelões para fazer chegar ao riso), Eu, Mamãe e os Meninos também apresenta um excelente trabalho estético em sua direção de arte – o que torna o filme visualmente impecável. Ainda aproveita praticamente cada locação, recorrendo a uma vasta paleta de cores em sua fotografia (ora fria, nos momentos introspectivos do personagem; ora quente, nos demais). De longe, Guillaume consegue criar uma obra à altura de sua bela história – que nos faz pensar que o medo é o que nos impede, na maior parte das vezes, de nos aceitarmos como realmente somos, independente do que somos. Eu, Mamãe e os Meninos trata seu tema com a honestidade que é totalmente condizente à necessidade dele. Assim sendo, palmas para o cinema francês.