Erotismo à Flor da Pele de Vênus

Gosto muito de filmes com diálogos rápidos, inteligentes e longas sequências, pois acredito que é justamente ali que um cineasta pode demonstrar ao público uma das habilidades que mais admiro no ofício da direção: dirigir pessoas. Redundante? Talvez, mas dirigir atores não é uma tarefa fácil. O consagrado Roman Polanski já havia mostrado que sabe bem como fazer isso em Deus da Carnificina, de 2011, quando colocou dois casais dentro de um apartamento e os fizeram trocar acusações até os ânimos se alterarem. Com A Pele de Vênus, seu último longa, Polanski demonstra que, ainda que esteja um pouco longe dos holofotes, é merecidamente um dos diretores mais celebrados do cinema mundial.

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Assim como Deus da Carnificina, A Pele de Vênus também é a adaptação de uma peça teatral homônima, apresentando a história de Thomas (Mathieu Amalric), um jovem dramaturgo que está à beira dos nervos por não conseguir encontrar uma atriz principal para sua nova peça – uma adaptação do livro La Venus à La Fourrure, de 1870 (um clássico da literatura mundial). Prestes a sair do teatro após uma série de audições fracassadas, Thomas recebe Vanda (Emmanuelle Seigner), uma bela atriz com quem o dramaturgo se envolve em um relacionamento de submissão, dominação e perversão.

Polanski repete aqui o esquema “teatro filmado”, conseguindo arrancar ótimas atuações de seu pequeno elenco. Mathieu (substituindo Louis Garrel, ator fetiche francês que abandonou o projeto devido sua agenda) e Emmanuelle dão um show à parte. A dupla, que já havia se encontrado no elogiado O Escafandro e a Borboleta, tem uma química incrível ao longo de mais de noventa minutos de película, apesar do longa ser praticamente uma ode ao trabalho do cineasta e sua musa, Emmanuelle, esposa do diretor que, aos 46 anos, consegue ser incrivelmente atraente e deslumbrante em cena. A sexualidade que Emmanuelle exprime é o que faz com que ela roube o filme para si, tornando sua personagem quase uma extensão (com um nível de maturidade acima) de seu papel em Lua de Fel, de 1992.

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Apesar de ter sua atuação bastante questionada na época, Emmanuelle protagonizou ali uma das cenas mais eróticas do cinema de Polanski. Hoje, mais de vinte anos depois, Emmanuelle é uma atriz muito mais madura e se nunca teve a oportunidade de receber um personagem mais marcante, sua Vanda é a chance. Sob a direção do marido, Seigner tem nas mãos o papel de sua vida – ainda que o filme não tenha tido um apelo popular tão grande. Vanda é misteriosa e dosa bem o papel de vítima e algoz, invertendo o papel com um tragicômico Thomas. E Polanski, que não é bobo e sabe como provocar, usa bem o talento da esposa. Com sua câmera excepcional (que coloca o espectador sob o ponto de vista praticamente de um voyeur), Polanski usa e abusa de tudo o que Seigner pode oferecer, quase jogando em nossas caras “Esta é minha mulher, toda minha, veja o quanto ela é divina…”. Prova disto é a sequência final onde Emmanuelle provoca os mais altos índices de nossas libidos.

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Com um roteiro primoroso, recheado de referências à cultura clássica, a fita é verborrágica – e por tal razão pode parecer um pouco cansativa em diversos momentos. No entanto, os diálogos rápidos e inteligentes velam uma crítica ainda implícita ao papel da mulher na sociedade, à sua verdadeira atribuição como “fêmea”, em um mundo ainda machista. É a inversão de papeis entre Thomas e Vanda que vai dando mais paixão ao filme, à medida que o dramaturgo se vê cada vez mais ligado à sua musa inspiradora – uma atriz aparentemente sem cultura e conhecimento, mas que aos poucos se mostra uma verdadeira femme fatale. A variação entre realidade e fantasia, que se misturam ao longo da projeção, dá o tom cômico e nos fazem questionar se Thomas está atuando ou realmente se tornou um escravo de Vanda.

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Há quem possa se incomodar com o estilo “teatral” com que Polanski filmou A Pele de Vênus. Não que essa seja a primeira incursão do diretor no gênero (aliás, Roman tem no currículo, além de Deus da Carnificina, o despercebido A Morte e a Donzela, de 1994, quando Polanski já flertava com o gênero), mas este não é um tipo fácil de filme. É necessária um pouco de cultura para entender os diálogos e seus significados nas entrelinhas – e claro, uma pequena dose de paciência. Mas não se deve esquecer que, antes de tudo, é cinema e, como tal, o trabalho de Polanski como cineasta é louvável. Da belíssima locação, iluminação e figurino à inspirada e delicada trilha do francês Alexandre Desplat, tudo se encaixa perfeitamente para criar uma obra irresistivelmente atraente, com um “quê” de erotismo que cai perfeitamente à proposta do longa. A Pele de Vênus é Polanski retornando às suas origens – tem todos os elementos que Polanski já utilizava em sua filmografia (erotismo, submissão, homoerotismo – aliás, em uma das cenas finais, temos Mathieu travestido com salto alto e batom, nos remetendo instantaneamente a Polanski vestido de mulher em O Inquilino, de 1976). A Pele de Vênus é muito mais requintado, culto e crítico do que Deus da Carnificina, que já era excelente – o que, certamente, representa um nível acima no trabalho do cineasta.

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“Tom à La Ferme”: Os Altos e Baixos do Novo Filme de Xavier Dolan

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Xavier Dolan é um dos poucos cineastas que tiveram uma ascensão na carreira de forma tão precoce. Quando estreou, em 2009, com J’ai Tué ma Mère (“Eu Matei Minha Mãe”), o ator foi ovacionado pela crítica e público, se tornando o novo menino prodígio do cinema. Agora, aos 24 anos de idade, Dolan assina o seu quarto filme, Tom à La Ferme (que corre o risco de vir para o Brasil como “Tom Na Fazenda” – esta aí um caso de título que poderia ser mudado…), atestando definitivamente seu talento como cineasta e futuro promissor na indústria cinematográfica.

Baseada na peça de Michel Marc Bouchard (que divide os créditos do roteiro com o próprio Dolan), Tom à La Ferme acompanha o jovem publicitário Tom, profundamente abalado com a perda do companheiro, Guillaume. O jovem, então, decide viajar ao campo para o funeral do parceiro e lá descobre que a família de Guillaume ignora sua existência e a sexualidade do garoto – com exceção do irmão mais velho do rapaz, Frances, que tenta a todo custo esconder a verdade da família, obrigando Tom a se passar por outra pessoa para não causar mais sofrimentos à mãe – que, ignorante quanto ao relacionamento entre Tom e Guillaume, acredita que o filho tenha uma namorada e aguarda a chegada de sua suposta nora. Aos poucos, no entanto, Frances e Tom se veem em uma espécie de jogo que envolve ameaças e mentiras – e um pouquinho de perversão, como poderá se notar.

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A ideia, em si, já é boa. Nas mãos de um bom diretor, então, fica ainda melhor. É isso que Dolan tenta fazer, mas não consegue por completo: de fato, Tom à La Ferme consegue ser um filme que prende o espectador na poltrona sem precisar de muito esforço, sem precisar reinventar a roda. O filme não traz praticamente nenhuma inovação, sendo, até mesmo, menos estilizado que seu antecessor, Lawrence Anyways (que, apesar das boas críticas, não me convenceu por completo). No entanto, o roteiro percorre por diversos gêneros (ora drama familiar, ora suspense e terror psicológico) – mas sem um rumo definido. Isso faz com que Dolan perca um pouco a mão na direção e, assim, as passagens de um gênero ao outro são frequentes, rápidas e diretas – nos dando a sensação de que alguma coisa ficou faltando e de que o filme não está muito estruturado (ou mesmo que Dolan está dirigindo dois filmes distintos e juntando partes dos dois em uma única fita).

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Anos luz da estilização exagerada de Lawrence Anyways e da poesia de Les Amours Imaginaires, o ponto forte do filme é a interação entre Tom e Francis, o irmão mais velho de seu parceiro (muito menos “heterossexual” do que demonstrava ser) – que dá todo o sabor à trama. Francis é, claramente, um objeto de desejo homoerótico – e as cenas entre eles são carregadas de erotismo, mesmo as mais tensas. A cena dos dois no campo (onde ocorre uma espécie de briga) é totalmente erotizada, apesar de todo o teor violento da sequência. Isso acentua o suspense da trama e a complexidade de seus personagens, evidenciando uma tensão que deixa o espectador atordoado – afinal, Dolan deixe o espectador livre para tirar suas conclusões sobre os personagens e suas situações.

A falha nas passagens entre os gêneros, no entanto, não tira o mérito de Dolan quanto cineasta. O jovem diretor ainda consegue trazer ótimas sequências e criar um clima de tensão alucinante ao longo da trama. Há diversos pontos que devem ser considerados, como a fotografia ímpar (que já é uma constante na filmografia de Dolan) e a ótima trilha de Gabriel Yared, ligada no modo “suspense clássico” (claramente inspirada nas trilhas do mestre Bernard Herrmann – que, entre outras, só criou as faixas de Psicose, se você acha que é pouco). Isso ajuda ainda mais a criar uma atmosfera meio hitchcockiana que eleva o status do filme e nos faz até mesmo esquecer de suas deficiências.


Tom à La Ferme é, segundo alguns, um dos mais fortes indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro no próximo ano. Particularmente, acho que as chances são boas. Apesar do desfecho um tanto quanto fraco, o filme se torna uma bela surpresa ao espectador, apesar de ser meio perdido em sua jornada. É um filme onde tudo é muito bonito – exceto o próprio Dolan que, com aqueles cabelos, é personagem propício para histórias na fazenda. Talvez pelo currículo do diretor, muita gente possa até ignorar os poucos erros e exaltar apenas as muitas qualidades do filme – que, em conjunto, contribuem para a produção de um filme muito bom, mas sem um rumo definido. No final, Dolan faz, definitivamente, seu melhor filme como “obra” – ainda que seu coração não esteja tão vivo quanto em seus trabalhos anteriores. Tom à La Ferme é, definitivamente, um filme para se apreciar. Cativar é outra história…