Diretor do célebre Cabra Marcado Para Morrer, de 1984, Eduardo Coutinho publicou um anúncio de jornal em 2006 onde convidava mulheres a contarem suas histórias em um filme documentário. Das mais de 80 pessoas que atenderam a esse chamado, 23 foram selecionadas e, diante de uma câmera e em meio a um teatro vazio, dividiram seus relatos com o cineasta e sua equipe, produzindo o repertório explorado em Jogo de Cena.
O documentário é um gênero cinematográfico onde a realidade assume o protagonismo – muito embora a narrativa dessa realidade possa ser ‘manipulada’ pelas lentes do cineasta, é verdade, a matéria-prima de um documentário competente é aquilo que, de fato, existe. A obra de Coutinho, no entanto, parece trazer uma metalinguagem dentro do próprio projeto documental, como se quisesse explorar os limites que separam o real e o encenado dentro deste gênero. Para tal façanha, o autor convoca atrizes (conhecidas ou não) para reproduzir os depoimentos daquelas mulheres, como se transformando-as em personagens dentro da estrutura documental. À medida que intercala os relatos e suas respectivas encenações, temos a condição, enquanto espectadores, de refletir sobre nossas próprias ‘personas’: afinal, todos nós assumimos papéis em nossas vidas – seja como filhos, mães, funcionários, alunos. Sejamos atores ou não, todos nós representamos papéis, criamos máscaras – e muitas vezes é impossível distinguir o que é verdade ou não. Essa reflexão (muito pertinente em uma sociedade contemporânea onde somos julgados a todo instante) é explicitada, por exemplo, quando as atrizes também reaparecem com suas próprias histórias e processos criativos, onde perdemos a noção se o que vemos na tela é a mimese ou o real – o que, invariavelmente, nos leva a alguns questionamentos: afinal, seria o cinema uma não-realidade? A imagem é realidade ou uma representação dela?
A matéria-prima do cinema é a imagem, indiscutivelmente; mas até que ponto ela representa a realidade? Se ao final dos anos 20, Magritte nos fazia pensar sobre o objeto e sua representação através da revolucionária “Ceci n’est pas une pipe“, ao colocar no mesmo patamar o real e sua representação, Coutinho escancara a capacidade única do cinema de iludir o espectador. Aos possibilitar que aquelas histórias sejam narradas por suas personagens reais e intérpretes distintas, o cineasta trafega o limite entre ficção e realidade, ignorando a quem pertence a verdade – afinal, ao cinema pertence essa verdade e só essa verdade importa. A escolha pelo formato de entrevista não foi à toa: esse é um dos elementos mais comuns nos filmes do gênero e, aqui, ele conduz praticamente toda a narrativa. Mas ao permitir que essas experiências diversas possam ser vivenciadas por personagens quaisquer, Jogo de Cena potencializa a mimese, o falso, a representação e, consequentemente, o próprio conceito de cinema.
