Toda a Memória do Mundo (Toute la Mémoire du Monde)

Antes de conceber Hiroshima, Meu Amor – aquela que, sem dúvidas, é a obra-prima de sua filmografia – ao final dos anos 50, Alain Resnais dirigiu uma série de curtas-metragens ao longo de pouco mais de uma década. Propositalmente ou não, sob certo aspecto esses trabalhos dialogavam com temas vinculados, sobretudo, à memória (como Noite e Neblina e As Estátuas Também Morrem ou pequenas biografias de pintores como Van Gogh ou Paul Gauguin); coincidentemente ou não, Resnais seria um dos expoentes da nouvelle vague francesa – uma vanguarda cinematográfica revolucionária que, como diria Alfredo Manevy anos mais tarde, seria o primeiro movimento com profundo interesse pela memória do cinema. Toda a Memória do Mundo, lançado em 1956, é o exemplar desse período que mais coaduna com essas duas perspectivas.

Em Toda a Memória do Mundo, Resnais instrumentaliza via imagem e som (através do uso de um narrador em voz over e uma trilha sonora presente em toda sua projeção) os bastidores da Biblioteca Nacional da França (“a biblioteca mais moderna do mundo”, como dito no curta), em Paris, e as atividades nela desenvolvidas que possibilitam transformar esse local praticamente em um ‘templo sagrado’, responsável por guardar ‘toda a memória da sociedade francesa e mundial”. Apostando na estrutura de um documentário quase institucional (principalmente devido à narração masculina em tom grave e sério), Resnais é minucioso ao explorar os principais espaços daquele ambiente, fazendo-o protagonista da história – uma fortaleza que, contraditoriamente, é construída para garantir a liberdade, já que as palavras podem ‘engolir’ o homem.

Rodado quase que exclusivamente dentro da própria biblioteca, há raríssimos planos externos a ela: um primeiro onde visualiza-se o teto da biblioteca e um segundo plano que captura a biblioteca e suas redondezas. Os demais planos que compõe o filme estão, em sua grande maioria, em movimento, o que agrega certo dinamismo à narrativa (restrita inteiramente à biblioteca). Através de imagens em travelling ou panorâmicas, acompanhamos com detalhes o processo de preservação de memórias através de um objeto importante: o livro. “Porque tem uma memória curta, o homem acumula incontáveis auxílios para memória”, diz o narrador nos instantes iniciais do vídeo – daí a necessidade de cuidados seja na conservação do acervo, em sua catalogação (sem um catálogo, tudo ali seria um labirinto, dizem no filme), localização, etc.

Mas ao colocar uma biblioteca como personagem central de Toda a Memória do Mundo através das lentes do cinema, Resnais também nos faz refletir sobre o papel do próprio cinema: se é importante que a memória seja preservada para a compreensão da sociedade, o cinema (enquanto ‘depósito de imagens’) também é um instrumento indispensável neste processo. Assim como uma biblioteca (que concentra em suas entranhas o conhecimento e saber da humanidade ao longo de sua existência), o cinema também tem essa capacidade de preservar memórias através de suas imagens (seja no documentário – através de material de arquivo, por exemplo – ou na ficção – ao manter vivas histórias de outros tempos). O cinema é um dos incontáveis auxílios à memória, assim como uma biblioteca – analogamente, ele ‘aprisiona’ em si imagens (sua principal matéria-prima), perpetuando e criando memórias que são indispensáveis à construção do conhecimento humano.

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