Anêmona (Anemone, 2025)

O ano era 2017: aos sessenta anos, um dos maiores astros hollywoodianos de todos os tempos anunciava sua aposentadoria – Daniel Day-Lewis, durante a promoção de (até então) seu último filme, Trama Fantasma, de Paul Thomas Anderson. Menos de uma década depois, Day-Lewis “abandona” o recesso para estrelar Anêmona, drama dirigido e coescrito por seu filho, Ronan Day-Lewis. No longa, Day-Lewis (pai) dá vida a Ray, um homem recluso em uma cabana no meio da floresta, cuja rotina é interrompida pela inesperada visita de seu irmão Jem (Sean Bean). Aos poucos, eles revisitam seu passado turbulento, marcado por eventos traumáticos que jamais foram plenamente resolvidos e que se acumularam no silêncio ao longo dos anos. O reencontro os obriga a confrontar ressentimentos, culpas e memórias, expondo feridas antigas que ainda permanecem abertas.

Anêmona não é um filme fácil. Em sua estreia como cineasta, Ronan entrega um projeto que carrega visualmente (e com muito rigor) toda a carga dramática de sua história – seja na fotografia que adota tons frios, como o cinza e o azul, e privilegia contrastes; na montagem vagarosa, com intervalos mais longos que exigem maior disposição do espectador à contemplação; e ainda na iluminação, por vezes rarefeita, que trabalha com fontes de luz natural que parecem adentrar timidamente os ambientes, criando espaços lúgubres e soturnos que refletem o estado emocional daqueles personagens. Esse uso da luz encontra equivalente na própria construção narrativa: assim como nada é plenamente iluminado, nada é entregue de imediato. É um longa que tem o seu próprio “tempo”: o diretor não se apressa em revelar os conflitos, preferindo instaurar uma atmosfera mais introspectiva e quase silenciosa, em que o drama se desenvolve nos gestos mínimos e nas poucas (ou na total ausência de) palavras. Uma das cenas que melhor traduz essa propensão à recusa do excesso é quando Ray ouve um barulho do lado de fora de sua cabana e pega um machado: com a câmera fechada no objeto, a mão firme do protagonista relaxa aos poucos ao perceber quem está do outro lado.

No cinema, todavia, algumas histórias exigem que o espectador seja conduzido pela mão – ou, ao menos, minimamente orientado. Ao se concentrar na forma (que permite a Ronan revelar, em seu debut, uma identidade visual forte e promissora), o conteúdo acaba, por vezes, em segundo plano, como se todo o impacto emocional preparado pela competente mise-en-scène fosse diluído em uma narrativa mais econômica, na qual os conflitos se desenvolvem lentamente, raramente explicitados com clareza ou delineados por completo. É uma escolha arriscada, pois pode agradar alguns espectadores, mas afastar outros – a depender de seu envolvimento com aqueles personagens. Tampouco há um clímax decisivo ao longo de suas duas horas: é como se o filme insinuasse um desfecho dramático que, ao fim, nunca se concretiza.

Assim, Anêmona se apresenta como uma obra bem executada, sim – porém muito ancorada naquilo que poderia ser e menos naquilo que realmente é. Traz uma cinematografia elogiável, mas peca na construção de seu argumento que custa a se desenvolver e, quando o faz, causa estranheza. Em seu terceiro ato, por exemplo, o longa se perde em abstrações, com cenas cuja simbologia soa mais confusa do que necessariamente instigante (particularmente, um momento específico me pareceu quebrar a arquitetura realista de Anêmona ao adotar uma atmosfera de viés surrealista – e, para mim, desnecessária). É válido – obviamente e sem surpresa alguma – por trazer um Daniel Day-Lewis em plena forma (o intérprete entrega um monólogo irretocável, um dos raros momentos em que é impossível tirar os olhos da tela), dividindo o quadro com um Sean Bean que funciona quase como um ouvinte atento, cujas intervenções pontuais sustentam a tensão silenciosa (mas nem sempre) entre os irmãos. Ao final, Anêmona parece confirmar aquilo que seu próprio título indica: como a flor homônima sensível ao vento, há beleza em sua delicadeza e rigor em sua construção, mas também uma fragilidade em sua estrutura que o impede de florescer por completo. Como a anêmona que depende do ambiente para se revelar, o filme de Ronan exige um grau mínimo de entrega do espectador – do contrário, Anêmona corre o risco de permanecer apenas como um exercício esteticamente atraente, porém de conteúdo fragilizado.

Deixe um comentário

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.