A Procura de Martina (A Procura de Martina, 2024)

Durante a ditadura militar argentina (de meados da década de 70 até 1983), milhares de pessoas foram presas ilegalmente, torturadas ou simplesmente desapareceram. Muitas dessas vítimas eram jovens grávidas ou puérperas, cujas crianças eram tiradas das mães (geralmente assassinadas) e entregues clandestinamente a outras famílias, muitas vezes ligadas ao próprio regime. Neste contexto, surge a organização civil ‘Avós da Praça de Maio’ (Abuelas de Plaza de Mayo), formada pelas avós dessas crianças desaparecidas que passaram a se reunir na Praça de Maio, em Buenos Aires, para investigar o paradeiro dos netos, denunciar os crimes da ditadura e lutar por justiça. Uma dessas mulheres é Martina, a protagonista de A Procura de Martina, uma viúva argentina que procura pelo neto há mais de 30 anos e cuja busca se torna mais urgente após um diagnóstico de Alzheimer.

Embora parta de uma dimensão histórica para a realização de seu filme, a cineasta Márcia Faria opta por um caminho mais íntimo, ao acompanhar a experiência subjetiva de Martina, marcada pela tensão entre a lembrança e o esquecimento. O diagnóstico de Alzheimer não opera apenas como um elemento dramático, mas principalmente como dispositivo narrativo que tensiona a própria possibilidade de reconstrução do passado. Essa procura, assim, ultrapassa o âmbito familiar e se afirma como gesto político – como a própria diretora sugere em entrevista, parte-se do individual para o coletivo: a memória individual se entrelaça à memória coletiva de um país ainda atravessado pelos traumas da ditadura (estabelecendo um diálogo direto com o cenário brasileiro).

O longa é ambientado, sobretudo, no Rio de Janeiro, local para onde Martina viaja à procura do neto, enfrentando inúmeras dificuldades – não apenas os sintomas da doença, mas também o idioma e a experiência de deslocar-se sozinha em um espaço que lhe é desconhecido. O ambiente urbano, nesse sentido, não funciona somente como espaço geográfico, mas como um agente ativo na construção dessa narrativa, à medida que reforça o estado de desorientação dessa personagem, tensionando seu percurso. Nesse trajeto, a inserção de figuras secundárias (como suas amigas argentinas ou uma funcionária do hotel) desempenha um papel fundamental, tanto do ponto de vista dramático, ao oferecer pontos de apoio que permitem que Martina avance em sua investigação, quanto no plano simbólico: a memória, ainda que fragmentada, sustenta-se nas relações com os outros e a busca individual de nossa heroína revela-se também uma jornada coletiva.

Todavia, é no protagonismo de Mercedes Morán (uma das maiores intérpretes argentinas da atualidade, de O Pântano e Diários de Motocicleta) que o filme encontra seu maior mérito: atriz de método, ela sustenta com delicadeza e rigor todas as complexidades de uma personagem atravessada pelo tempo, pelas perdas e pela persistência, sem resvalar no melodrama. Não por acaso, o elenco é majoritariamente feminino: são mulheres que vivem e resistem (ainda que o motor da história seja a busca por uma figura masculina ausente), ecoando a própria história das avós da Praça de Maio – em que a resistência se dá, sobretudo, na recusa ao esquecimento e na insistência em continuar lutando, mesmo diante de condições adversas. A metáfora da rã, evocada ao final de A Procura de Martina, condensa essa dimensão: vence aquele que persiste. Ao abrir mão de um desfecho tradicional e genérico, A Procura de Martina reafirma seu compromisso com uma cinematografia que valoriza não apenas a preservação da memória, mas também a reflexão sobre a capacidade de resistência em termos difíceis.