Pode-se conjecturar duas possíveis interpretações para o título Blue Jean. A mais óbvia: em inglês, ‘blue’ representa a cor azul – predominante, inclusive, na paleta de cores do filme da estreante Georgia Oakley. Mas a palavra também pode exprimir um sentido mais profundo: triste, melancólico, deprimido – assim como pode ser a vida daqueles que precisam, de alguma forma, se esconder ou negar o que se é. É o caso da Jean, uma mulher lésbica em plena Inglaterra ao final da década de 80 (quando a conservadora Margaret Thatcher assumiu uma verdadeira batalha contra os homossexuais através da chamada Section 28): sem o apoio da família, escondendo sua condição no colégio em que dá aulas de educação física, sua sexualidade se limita a sua residência e, no máximo, ao bar que frequenta com a namorada e algumas poucas amigas.

Esse cenário conservador à sua volta sufoca a protagonista de Blue Jean. Se viver no armário não é fácil, não se aceitar é ainda mais difícil. Neste aspecto, o longa inicialmente nos dá a impressão de ser mais um drama gay fadado ao final sofrido de suas personagens. Seja pelas escolhas do roteiro; os enquadramentos que expressam a sensação de claustrofobia de Jean; a fotografia que ajuda a traduzir em imagens as emoções da professora; o filtro de câmera quase granulado; ou o excelente design de produção que reproduz em detalhes o ambiente opressor em que a trama se desenrola: tudo parece convergir para uma abordagem mais soturna, marcada pela melancolia, desesperança e desgosto.
A sutil reviravolta (ainda que demore) surge a partir da segunda metade do filme, quando floresce uma relação entre Jean e sua aluna abertamente lésbica. Embora o relacionamento entre elas pudesse ter sido melhor explorado, é nítido que ele agrega uma nova perspectiva à história, mas dessa vez muito mais otimista. Se de início Jean se recusava a afirmar sua real identidade (quase como uma homofobia ‘internalizada’), aos poucos o constante estado de tensão e medo vai se dissipando à medida que Jean toma consciência daquilo que é. Com isso, além de fugir do estereótipo ‘sofredor’ dos dramas gays convencionais, Blue Jean consegue se firmar como o estudo de um personagem rico em sua complexidade e palpável em suas intenções, um tipo real, muito favorecido pela performance de Rosy McEwen, que carrega no azul do olhar toda a humanidade de Jean. Felizmente, Blue Jean foge do óbvio – e nos mostra que, mesmo que o caminho seja árduo, é possível encontrar a felicidade sendo quem você é.