Confesso que fui assistir à pré-estreia de Cássia Eller com um certo receio. Primeiro, por se tratar de um documentário. Não que eu esperasse uma obra de ficção pura (até mesmo porque eu não enxergo nenhum ser humano capaz de viver o furacão Cássia Eller nos palcos ou à frente das câmeras), mas porque eu não sou um grande admirador desse gênero de narrativa cinematográfica. Segundo, me deparei com a longa duração do projeto. Eu estou em uma fase com pouca paciência para filmes muito extensos – e pensei o quanto seria difícil aturar duas horas de um tipo de cinema da qual não sou muito fã. Mas admito: fiquei com um nó na garganta ao final da exibição.
Dirigido por Paulo Henrique Fontenelle, Cássia Eller retrata a trajetória pessoal e artística de uma das maiores intérpretes da música brasileira da década de 90, até sua precoce morte, em 2001. O cineasta trata questões polêmicas sobre a cantora, como sua sexualidade, o uso abusivo de álcool e drogas e a relação com sua companheira de anos, Maria Eugênia, e o filho, Chicão – aliás, spoiler: o garoto faz um belo depoimento nos minutos finais do longa. A abordagem natural do documentário é imprescindível para tornar Cássia uma homenagem devida a esta grande artista, que durante muitos anos foi uma vítima da imprensa – mesmo após seu falecimento, as notícias sobre ela pipocavam nas mídias e quase sempre eram de extrema maldade e desrespeito.
O roteiro segue uma linha temporal bem definida, com uma seleção de material impecável – incluindo trechos sonoros inseridos no decorrer da fita e que servem de trilha para o ótimo conteúdo. Os depoimentos de familiares e amigos são honestos, sem pudor: tudo é tratado às claras. O filme já se inicia com declarações expressivas de que sim, Cássia era homossexual, sim, ela usava drogas, sim, ela mantinha casos extraconjugais com outras mulheres . Em outras palavras, o documentário é sem rodeios, expondo tudo de forma direta ao público. No entanto, apesar de todos esses prós, Cássia Eller possui uma montagem bastante fraca e efeitos especiais que soam tão artificiais quanto vinhetas de programas globais. Além disso, muitas vezes o que se via na tela servia apenas para preencher o áudio – o que a estendeu muito e fez parecer que a película foi feita não para cinema, mas para a televisão (inclui-se ainda a narração de Malu Mader em algumas sequências).
Cássia Eller, visto como obra de cinema, talvez tenha lá seus defeitos e não seja tecnicamente impecável. Cássia Eller é muito mais interessante por conta de sua própria protagonista. Por essa razão, as duas horas do documentário passarão em dez minutos para os fãs da cantora, que encontrarão aqui um excelente canal para matar as saudades da artista e conhecer o lado humano a qual poucos tinham acesso. Cássia Eller é esclarecedor como poucas produções do tipo, mas é muito mais apaixonante por conta de seu objeto de estudo do que como cinema.
