A Esposa de Tchaikovsky (Zhena Chaikovskogo)

“Ah, não é nada, acontece…”, diz o clérigo quando a chama da vela do noivo se apaga durante o casamento. “Esse jantar pareceu um enterro…”, revela a irmã da noiva pouco após a cerimônia. “Fuja dele”, adverte um amigo ao saber da união. Tudo indicava que o matrimônio de Antonina e Pyotr Tchaikovsky, compositor russo mais prestigiado de todos os tempos, estava fadado ao fracasso desde o início. Mas nada fora tão claro quanto as próprias palavras do gênio da música ao receber a proposta: o amor entre eles seria apenas fraterno.

O título “A Esposa de Tchaikovsky” não é à toa: o filme de Kirill Serebrennikov concentra sua narrativa no tumultuado relacionamento do casal, limitando sua protagonista feminina, porém, ao status único de esposa do compositor. Pouco sabemos sobre sua vida pregressa, sua família, sua formação, sua história; como espectadores, só temos acesso a essa personagem a partir do momento em que esta conhece o artista e se apaixona por ele (de forma quase irracional). Isto se evidencia na câmera do cineasta, cujo foco primordial é a atriz Alyona Mikhailova (excepcional em sua performance): ela domina o frame, o que inevitavelmente faz com que vejamos a história a partir de seu ponto de vista. Tchaikovsky, por sua vez, quase sempre está fora do quadro, de costas ou em algum canto mais taciturno. É como se o diretor optasse por deixar sua genialidade de lado, inclusive dispensando qualquer obra completa do musicista em sua trilha (o que pode frustrar os fãs da música clássica que entrarem no cinema pensando tratar-se de uma cinebiografia do artista).

Ambientado na Rússia no último quarto do século XIX, “A Esposa de Tchaikovsky” possui uma belíssima fotografia predominantemente em tons escuros, recorrendo ao jogo de luzes e sombras mais difusas – e que representam o estado de espírito da protagonista. Além disso, há alguns planos mais longos, que captam das expressões mais pungentes de seus personagens aos cenários irretocáveis da película. Aliás, a cenografia reconstitui bem o período, com a recriação de espaços lúgubres e ruas infestadas de pedintes e doentes, todos abandonados à sua própria sorte. A trilha sonora, por sua vez, desempenha um papel importante com a constante tensão de cordas e pianos, acentuando a conturbada relação entre aqueles personagens. Essas características técnicas são, a meu ver, as mais relevantes na composição da história como um todo, já que são essenciais para a representação de uma Rússia mergulhada no obscurantismo e que reflete, sob certo aspecto, a conduta daqueles indivíduos.

O filme não se debruça exclusivamente sobre os fatos em si; pelo contrário, o roteiro trilha seu caminho com total liberdade poética, inclusive recorre a inúmeras metáforas para expressar as obsessões e delírios daquela mulher. Não há muitas explicações; apenas acompanhamos aqueles personagens rumo à decadência – o que corrobora ainda mais a ideia de que eles são produtos de seu meio, a sociedade mencionada anteriormente. O que não é muito difícil de se compreender: se em pleno século XXI, a Rússia ainda nos parece uma nação parada no tempo em seus aspectos sociológicos, imagine o caos social deste país naquele período tomado pela insatisfação e a melancolia.

Sem Amor (Nelyubov)

Uma das cenas mais angustiantes de Sem Amor (novo longa de Andrei Zvyagintsev, de Leviatã e Elena) traduz, literalmente, todo o sentido do filme: enquanto os pais trocam ofensas entre si, o pequeno Alyosha, de 12 anos, chora escondido em um canto do apartamento. O casal está em um complicado processo de separação: eles não se amam mais (se é que um dia se amaram), já estão em um novo relacionamento e agora decidem quem ficará com a guarda da criança, por quem não demonstram ter qualquer sentimento.

O cineasta russo se apropria desta pequena fábula familiar (tão comum nos nossos dias) para, ainda que não explicitamente, criticar a decadência da sociedade de seu país na contemporaneidade – embora o tema seja universal, é claro. Através da alternância entre diálogos profundos, silêncios incômodos e uma trilha sonora incrível, Zvyagintsev estrutura sua narrativa através de sequências que nos ajudam a compor cada uma de suas personagens. Em uma geração individualista, a preocupação pelo outro se esvaece: valorizamos nossos corpos na academia, rimos nos salões de beleza, sorrimos ao tirar a selfie nas redes sociais – mas somos incapazes de demonstrar afeto pelo próximo. Estamos cada vez mais distantes uns dos outros (a cena do interrogatório com um grupo de resgate reflete bem essa afirmação), criamos barreiras intransponíveis e vivemos mais fechados em nossa bolha particular.

A negligência dos pais para com o filho é avassaladora. Vemos uma criança à beira do colapso diante de dois progenitores que, definitivamente, não o amam. O filme, no entanto, estabelece seu principal conflito quando Alyosha some misteriosamente, sem deixar vestígios. A partir daí, o casal sai em busca do filho desaparecido. Nesta odisseia, cada um se esquiva das culpas e aponta o dedo para o outro, já que não há entendimento eles. Ninguém baixa a guarda, todos querem dar a última palavra. Não temos pista sobre o paradeiro da criança: ela entra e sai do filme sem qualquer referência e não sabemos ao certo se ela fugiu, se foi raptada ou o que quer que seja.

Se em Leviatã havia um certo alívio cômico no decorrer da fita, Sem Amoré um drama realístico, cruel e indigesto, daqueles que realmente machucam. Enxergamos, ainda que nas entrelinhas, um possível questionamento a respeito do aborto: se existem mulheres sem vocação para a maternidade, por que “força-las” a assumir esta responsabilidade? Mas este é só um detalhe. Há uma atmosfera de melancolia que permeia a história, muito acentuada pela excepcional fotografia da fita. Os frames de abertura são um prenúncio do que está por vir: a frieza da paisagem russa é estendida na relação de suas personagens e também nos seus sentimentos (ou na falta deles). Fica-se, assim, uma reflexão: se é inverno lá fora, faz muito mais frio no coração de cada um.