O Ônibus Perdido (The Lost Bus, 2025)

Se o cinema possui diversos gêneros, multiplicam-se os subgêneros – entre eles, os filmes de desastres que, em geral, seguem algumas regras já comumente estabelecidas (ou, simplesmente, nossos bons e velhos ‘clichês’). Não que isso – como sempre defendo – seja necessariamente um problema: se o clichê faz sentido dentro daquela proposta, ele se torna um agente poderoso a contribuir com a experiência fílmica. É o que, felizmente, acontece com O Ônibus Perdido, que se aproxima dessas convenções sem se limitar a elas, mas inserindo-as como elemento de reforço dramático.

Dirigido por Paul Greengrass (cuja filmografia inclui os títulos da franquia Bourne e um ótimo Capitão Phillips) e adaptado do livro Paradise: One Town’s Struggle to Survive an American Wildfire, de Lizzie Johnson, O Ônibus Perdido acompanha a história real de um motorista de ônibus e uma professora que lutam para salvar um grupo de crianças que precisa ser conduzido a uma zona de segurança durante o devastador incêndio de Camp Fire, na Califórnia, em 2018. Ao optar por um recorte íntimo de um evento de proporções avassaladoras, protagonizado por figuras anônimas em um gesto de sobrevivência coletiva, o cineasta explora o desastre menos como espetáculo (embora isso esteja presente na narrativa) e mais como experiência humana traumatizante.

Greengrass, conhecido por seu cinema de tensão quase documental, recria com precisão aquele cenário de aniquilação, muito favorecido pela fotografia de Pål Ulvik Rokseth. Embora a câmera na mão possa parecer estranha de início, conforme a narrativa avança ela se torna fundamental para a construção de um desespero constante, juntamente com a edição ágil que reforça a urgência da situação. Nos momentos de maior tensão, as imagens mais granuladas e o uso de pouca luz acentuam a aflição daqueles personagens, especialmente nas sequências em que o fogo (resultado de um incrível trabalho da equipe de efeitos visuais) os rodeia, enclausurando o grupo no pequeno espaço do veículo. O fogo, por si só, é praticamente um personagem do filme pela força e violência com que consome tudo a seu redor, sem recorrer a cenas desnecessariamente explícitas.

Os dilemas pessoais do protagonista vivido por Matthew McConaughey – explorados à exaustão nos primeiros instantes do filme e, felizmente, abandonados rapidamente – funcionam, por sua vez, como justificativa para sua constante sensação de incapacidade: ele sabe que falhou no casamento, no relacionamento com o filho adolescente, nos cuidados com a mãe, no novo emprego que lhe paga uma ninharia. Esse acúmulo de frustrações não aprofunda o personagem em seu aspecto psicológico, já que o que interessa à história não é o seu drama íntimo, mas sua condição de deslocamento, de estar à beira do colapso – o que potencializa a pressão contínua imposta pelo desastre. Não à toa, O Ônibus Perdido não parece interessado em dissecar seus personagens, mas em encenar o caos: o drama existe, mas é constantemente engolido pela ameaça real que se avizinha, reafirmando a força do filme justamente quando se mantém fiel ao gênero que abraça. Ao estabelecer que, diante de uma situação de desastre tão desafiadora, somos definidos mais por aquilo que fazemos e menos por aquilo que sentimos, o cineasta entrega um filme absolutamente tenso e consciente de suas próprias convenções, transformando-as em uma imersão cinematográfica intensa e fazendo do caos seu principal propulsor dramático.