Mercato – Os Donos da Bola (Mercato, 2025)

Na contramão das narrativas esportivas mais tradicionais do cinema (comumente focadas nas histórias de superação dos atletas), Mercato – Os Donos da Bola explora um lado menos conhecido de um dos esportes mais populares: os bastidores do futebol, acompanhando de perto os esforços de Driss Berzane (Jamel Debbouze), um empresário de jogadores, para fechar um grande negócio e salvar sua carreira (e também a própria vida) antes do fim da janela de transferências. Ao expor as desventuras desse (anti)herói que tenta equilibrar ambição, sobrevivência e algum resquício de ética em um ambiente altamente competitivo e movido a cifras milionárias, o filme instaura uma verdadeira corrida contra o tempo – em que cada ligação pode significar êxito ou ruína total.

Mercato é narrativamente dinâmico: enquanto a montagem privilegia cortes ágeis e alterna espaços e personagens com fluidez, a fotografia reforça a atmosfera de tensão ao combinar ambientes corporativos frios (sublinhando o caráter implacável das negociações envolvidas) com espaços luxuosos (afirmando o glamour que envolve este universo), além de contrastes luminosos e tonalidades mais sóbrias que comprimem os personagens em um senso de permanente pressão. Esses elementos trazem agilidade ao roteiro, ainda que por vezes ele ande em círculos: de tempos em tempos, Driss se depara com um desafio, logo seguido de uma frustração, recomeçando um novo ciclo de tentativas e tropeços. Nesse movimento, o filme convenientemente introduz e retira personagens secundários, como o filho adolescente e politicamente correto do empresário, um jovem talento incapaz de suportar a pressão (sob a tutela de uma mãe protetora) ou o jogador indisciplinado envolvido em sucessivos escândalos.

Nessas idas e vindas, o diretor Tristan Séguéla entrega uma obra que entretém e sustenta o suspense, mesmo em suas previsibilidades. Ao deslocar seu enfoque do tratamento do futebol como espetáculo, o filme retira o espectador da posição de ‘torcida’ e nos insere como cúmplices de acordos silenciosos, alianças convenientes e decisões tomadas longe das arquibancadas. Somos participantes (involuntários) de um jogo em que as regras não são ditadas apenas pelo talento esportivo, mas também pelo poder econômico – um tabuleiro no qual jogadores se tornam peças importantes de toda uma estrutura financeira e mercadológica que determina quem está dentro ou fora de campo. No fim, o que está em jogo não é apenas a carreira de um empresário ou o destino de um atleta, mas a constatação de que a lógica do capital é o que dita as regras neste esporte – o que nos lembra que, antes de ser paixão, o futebol contemporâneo é também um grande negócio.