Hamnet: A Vida Antes de Hamlet (Hamnet, 2025)

Considerado um dos maiores nomes da historiografia da arte, Giorgio Vasari (1511-1574) defendia que conhecer a biografia de um artista é fundamental para se compreender sua obra; ele acreditava que o “gênio” artístico se manifesta ao longo da vida, sendo esta inseparável de sua obra: a biografia (formação, experiências pessoais, caráter) não é apenas um mero “contexto”, mas, sobretudo, uma chave interpretativa da produção humana. Embora sua teoria tenha sido questionada posteriormente por outros de seus pares, novas perspectivas surgem, de fato, quando entendemos as condições que circundam o autor e sua criação. Hamnet, de Chloé Zhao (vencedora do Oscar por Nomadland), se insere nesta zona de tensão entre vida e obra, neste intervalo entre o que foi vivido e o que (supostamente ou não) nasce daí. Ao revisitar a morte precoce de Hamnet, filho de William Shakespeare, a cineasta foge da cinebiografia convencional, explorando a maneira pela qual as experiências da vida (neste caso, o luto) atravessam a arte.

Com roteiro escrito a partir do romance de Maggie O’Farrell (que narra a origem daquele que é considerado o texto mais importante de Shakespeare), Hamnet não é um filme sobre o dramaturgo inglês, nem mesmo busca explica-lo; sob um novo prisma, a história desloca o foco do gênio e sua obra para o trauma que a antecede, construindo o percurso doloroso que pauta o relacionamento entre William (Paul Mescal) e Agnes (Jessie Buckley). Cada um deles lida com as obrigações familiares à sua forma: enquanto William passa temporadas inteiras em Londres cuidando de sua carreira no teatro, Agnes (caracterizada aqui como uma mulher mais ligada à natureza e à ancestralidade) permanece no espaço doméstico, assumindo a responsabilidade pela criação dos filhos e os cuidados da casa – movimento que dialoga com o texto de Linda Nochlin, “Why Have There Been No Great Women Artists?”, ao evidenciar que a figura do gênio comumente não se sustenta por si própria, mas também sobre uma rede de apoio afetivo e material que foi historicamente atribuída às mulheres.

Agnes é o centro afetivo do filme; seu conflito maior, no entanto, não é externo, mas emocional, aproximando Hamnet do melodrama – não o gênero clássico hollywoodiano, mas um melodrama contido, sensorial – algo já próximo ao cinema de Zhao. Ao concentrar-se na maternidade e, essencialmente, no luto, Hamnet traz a dor como instrumento dramático central – potencializado por dois elementos principais: o primeiro, a atuação intensa de Jessie Buckley, excessiva em seus gestos e gritos, é verdade, mas no ponto exato que amplia o alcance de sua performance sem cair no caricatural. A fotografia do polonês Łukasz Żal (de Ida, de 2014) é o segundo elemento que, por sua vez, reafirma a carga dramática e emocional de Hamnet ao estabelecer um contraste entre os espaços: enquanto os ambientes internos, mais sombrios e obscuros, destacam a melancolia e a estagnação do luto, os exteriores, com sua luz mais natural, se tornam (ainda que provisoriamente) uma zona de refúgio, um local de fuga daquela dor.

Chloé Zhao é ousada, sim, em suas escolhas – e todas elas miram um mesmo objetivo: atingir o espectador, quase o sufocando com tamanho apelo emocional (principalmente a partir da morte do garoto), o que é notório no excesso de recursos que a cineasta explora em mais de duas horas de filme. Em alguns momentos, a aposta funciona; em outros, ela é tão descarada que o espectador se sobrecarrega, se sente pressionado. É o que acontece, por exemplo, na parte final de Hamnet: com ares de clímax, a encenação de Hamlet nunca parece atingir seu ápice, mesmo com os visíveis esforços de diretora. Ainda assim, mesmo atravessado por essa irregularidade, Hamnet legitima Chloé Zhao como realizadora disposta a arriscar e interessada na construção de um cinema que coloca as emoções como motor narrativo (mesmo que isso tensione os limites da própria encenação). Hamnet remete, em certa medida, a Shakespeare Apaixonado, porém com maior densidade emocional e menor interesse na mitificação do gênio inglês.

Criaturas do Senhor (God’s Creatures)

Quando Brian (Paul Mescal) retorna ao pequeno vilarejo irlandês à beira-mar onde vive sua família (após passar uma longa temporada na Austrália), um mal-estar é causado. Além de chegar em meio ao enterro de um morador local, percebemos de início que algo não está totalmente resolvido entre aqueles familiares. A única a reagir com certo entusiasmo é Aileen (Emily Watson), sua mãe – enquanto os demais demonstram total desconforto com o rapaz. A própria relação com o pai, por exemplo, é nitidamente problemática.

Criaturas do Senhor, dirigida pela dupla Anna Rose Holmer e Saela Davis, é um drama psicológico cujo enredo trata sobre nossas escolhas e seus impactos a nossa volta, nos fazendo questionar nosso próprio senso de certo ou errado. O filme (que caminha a passos lentos em sua primeira parte, quase insuportáveis) sofre uma reviravolta quando Brian é acusado de um crime – e a mãe, para acobertar o filho, cria um falso álibi. Entretanto, essa mentira causa uma ruptura naquela família – e um estrago ainda maior naquela comunidade.

O filme possui uma atmosfera bucólica, ressaltada tanto por sua fotografia (predominantemente em tons terrosos, com alguns traços mais frios – especialmente azulados) quanto por sua trilha sonora – dissonante, é verdade, mas curiosamente bem adequada à proposta. Abusando de longas notas executadas em cordas, em inúmeros momentos ela complementa o próprio som ambiente, como se quase uma extensão dele.

Infelizmente, Criaturas do Senhor é prejudicado por seu ritmo arrastado: nada relevante acontece até a metade da obra – o que vemos são apenas pequenas cenas individuais que compõe aquele cenário familiar, mas que não ajudam a elucidar qualquer fato (por exemplo, nunca sabemos ao certo quais os motivos levaram Brian a sair da cidade e o porquê do desprezo de sua família). Quando a história começa a se desenrolar, a estrutura narrativa busca algumas soluções fáceis, quase flertando com um suspense, mas sem profundidade para ir além de sua superfície. Aos poucos, Aileen se dá conta de que o filho não demonstra qualquer arrependimento por seus atos. É aí que o roteiro aposta em um desfecho drástico, quase destoando de tudo o que tivemos até então. A cena final é repleta de simbolismo: soa como uma libertação de Aileen de algo muito maior, mas que infelizmente não consegue ser bem desenvolvido ao longo da história.