De dentro de uma caverna repleta de morcegos, enquanto se protegia de um ataque armado em uma vila do norte do Irã, a mãe de Giwar Hajabi jamais imaginou o que o futuro reservaria a seu primogênito. Filho de pais curdos (músicos fugindo do decreto religioso do aiatolá Khomeini – líder supremo da Revolução Islâmica do Irã, ao final da década de 80), anos depois Giwar ficaria conhecido como Xatar – um dos rappers alemães mais famosos de todos os tempos. Sua trajetória – de jovem imigrante curdo-iraniano na Alemanha à estrela do hip-hop – é narrada em Rheingold: O Roubo do Sucesso, novo longa-metragem dirigido por Fatih Akin.
Inspirado na autobiografia Alles Oder Nix: Bei Uns Sagt Man, Die Welt Gehört Dir, de 2015, Rheingold acompanha a vida agitada de Giwar: sua infância tumultuada em meio aos conflitos do Oriente Médio; sua adolescência, marcada pela separação dos pais e pequenos delitos; e sua incursão definitiva no mundo do crime, traficando drogas ou participando de outros esquemas ilícitos pela Europa. Tempos mais tarde, de dentro da prisão onde cumpre pena por seu envolvimento em um dos maiores roubos de ouro da história, Giwar ascende na cena do rap alemão ao gravar (clandestinamente) seu primeiro álbum de sucesso – tornando-se, assim, Xatar.

Alemão de origem turca, Fatih Akin aparenta desde o início ser o nome ideal para este projeto. Personagens problemáticos e com caráter dúbio parecem fazer parte de sua filmografia, incluindo aqui os mais recentes (e excelentes) Em Pedaços e O Bar Luva Dourada. Diferentemente do que acontece neste último (onde a violência gráfica catapultava na tela sem qualquer pudor), Rheingold é mais tímido no uso da brutalidade em cena – muito embora o roteiro seja competente ao pontuar a presença da violência na vida de seu protagonista desde criança. Giwar vive em um círculo vicioso: não importa o que ele faça ou pra onde ele vá; todos os caminhos o levam para o mesmo lugar: a criminalidade. Emilio Sakraya, em performance exuberante, transforma-se na tela, crescendo à medida que seu personagem percorre a espiral do crime.
É nítida, porém, a inconsistência na transposição das linhas temporais da história, como se fôssemos apresentados a filmes distintos. Fatih demonstra domínio fílmico quando o enredo se concentra nos episódios de Giwar e família enquanto refugiados de guerra, da saída de sua terra natal até seus primeiros passos na criminalidade. Alguns clichês são observados, entretanto, quando o cineasta abandona essa fenda e passa a tratar os feitos delinquentes do protagonista. Não que esse ponto atrapalhe o conjunto da obra, mas é perceptível que algumas situações ali carecem de acabamento (o próprio Giwar age de forma quase amadora em alguns momentos, custando nos fazer crer em seu potencial transgressor). Curiosamente, giwar significa “nascido no sofrimento”. Coincidência ou não, Rheingold é mais eficiente ao tratar o lado “humano” de Xatar do que necessariamente seu aspecto marginal e cínico.