Voz de Aluguel (Le Répondeur, 2025)

Baptiste é um talentoso artista, porém não consegue viver exclusivamente de sua arte – quando muito, realiza apresentações esporádicas no pequeno teatro de um amigo. Para ganhar a vida, ele atua como atendente de telemarketing, função que desempenha sem muito entusiasmo e que claramente contrasta com todo o seu potencial criativo – até o dia em que é surpreendido por uma proposta um tanto inusitada. Pierre Chozène, um consagrado romancista incapaz de se dedicar à escrita de seu novo livro devido às inúmeras ligações de amigos e familiares, lhe oferece um emprego singular: tornar-se sua ‘voz de aluguel’, atendendo suas chamadas e passando-se pelo próprio escritor.

Nos últimos anos, o cinema francês recorreu – à exaustão, diga-se de passagem – à “dramédia”, gênero que combina elementos de drama e comédia de forma equilibrada. É o tipo de narrativa onde o riso e a tensão dramática coexistem, buscando tratar temas sérios com mais leveza – não se limitando simplesmente a dramas com eventuais gags cômicos ou comédias com momentos mais emocionais. Dentro dessa tendência observada no cenário fílmico francês contemporâneo, Voz de Aluguel ocupa uma posição ambivalente: embora parta de uma premissa potencialmente cômica (a “terceirização” da própria voz), o filme de Fabienne Godet desloca seu eixo narrativo, de forma mais contida, para uma investigação de temas como identidade, solidão e a fragilidade das relações, recorrendo ao humor como uma camada superficial para o tratamento desses conflitos existenciais.

Esse plano temático encontra, no campo formal, inquietação equivalente – ou melhor, a ausência dela: enquanto a direção de Godet não ultrapassa os registros convencionais (embora funcional, é verdade), a fotografia mais sóbria, com iluminação naturalista, reforça o realismo da trama – embora não construa momentos que potencialize os conflitos internos de seus personagens. A montagem linear, por sua vez, garante clareza narrativa ao privilegiar a fluidez clássica, mas também produz uma atmosfera de monotonia, não exigindo sequer muita atenção do espectador. Em suma, não há qualquer risco estético ou soluções visuais que produzam tensionamento narrativo.

Voz de Aluguel apoia-se, então, no carisma de seu elenco: um simpático Salif Cissé, que performa um Baptiste afetuoso em todas as suas fragilidades, e um veterano Denis Podalydès, que carrega na face todo o esgotamento de um intelectual em crise criativa. À medida que a história avança e Baptiste se vê mais absorto na personalidade de Pierre, identidade e performance passam a se confundir, promovendo desdobramentos interessantes, porém pobremente explorados. Voz de Aluguel parece sugerir muito: a dependência cada vez mais constante de elementos virtuais, a interação fragmentada entre indivíduos em um mundo digital, os privilégios das classes dominantes ou mesmo a linha tênue que separa a imitação da atuação; decide, no entanto, manter-se como um entretenimento leve, óbvio e comedido, o que o limita a um filme agradável e bem acabado, porém inevitavelmente esquecível.