Mathias Mlekuz e Philippe Rebbot cultivam uma amizade de longa data e decidem empreender uma ambiciosa travessia de bicicleta em memória do jovem Youri, filho de Mathias, que se suicidara pouco tempo antes. O roteiro da viagem – literal e simbolicamente – é um livro escrito pelo rapaz, no qual registrara o trajeto de uma jornada realizada anteriormente por diversas cidades da Europa. Assim, na companhia de um simpático cachorro, os dois amigos se lançam a uma experiência que busca transformar o peso do luto em uma celebração da vida e da própria amizade.
Uma Jornada de Bicicleta é o resultado desse processo docuficcional: o que se vê na tela é a condensação de cerca de 150 horas de filmagens, gravadas sem um roteiro predefinido e construídas a partir da improvisação – dos diálogos, dos gestos e dos percalços enfrentados pela dupla. A proposta inicial envolvia apenas o desejo de repetir os passos de Youri, tendo partido de Philippe Rebbot a ideia de prestar essa homenagem artística ao filho do amigo. Desse modo, Mathias e Philippe seguem estrada afora acompanhados por uma equipe de cinco pessoas e, ao longo de um mês, revisitam lugares, pessoas e vivências para manter viva a presença de Youri. Sem indicações prévias, foi na montagem que se definiram as escolhas daquilo que permanece (e do que se ausenta), preocupando-se em preservar o que fosse narrativamente essencial.
O filme preserva uma notável sensação de espontaneidade, muito ressaltada por seu viés documental: a câmera, por vezes, assume uma postura observacional, como na sequência em que o grupo reencontra uma antiga namorada de Youri – trecho que se aproxima do registro direto de um documentário, quase como se estivéssemos diante do fragmento de algum título do gênero. Em outros momentos, essa naturalidade é levemente questionada – como na cena em que a dupla sai ao encontro de Josef, filho de Mathias que se junta à viagem, e esquece as chaves do quarto em que estavam hospedados. Há elementos que corroboram para tensionar essa naturalidade, especialmente a trilha sonora, muito precisa e emocionalmente conduzida, mas cujo tom remete discretamente à ficção, em especial, à comédia.
Todavia, essa fricção não enfraquece o conjunto da obra; pelo contrário, a tensão entre o registro mais cru e a elaboração ficcional reforça o caráter híbrido do filme, situado na zona tênue entre o documentário e a ficção. Não por acaso, o espectador só apreende plenamente essa posição narrativa quando conhece previamente a história ou quando, ao final, os créditos sobem juntamente com as fotografias do grupo. Assim, mais do que um mero relato do deslocamento físico – que poderia reduzir o longa a um road movie genérico sob duas rodas –, o filme parece propor não apenas uma reflexão sobre a memória, mas também um exercício de cinema sobre os limites da representação: entre a vida vivida e a vida encenada, Uma Jornada de Bicicleta afirma a docuficção não como uma indecisão formal, mas como uma escolha consciente de recriação da experiência real por meio da linguagem cinematográfica.
