Transformar o sagrado em profano não é um argumento relativamente novo em filmes de terror. A bem da verdade, a religião é um terreno fértil para o gênero, muito embora poucas produções consigam tratar essa temática de forma verdadeiramente provocativa. O Convento é mais um desses exemplares que, embora parta de uma premissa interessante, não vai além de uma obra facilmente esquecível.
A história acompanha a oftalmologista Grace que, após receber a notícia da morte de seu irmão, um padre, viaja para um convento à beira-mar na Escócia. As circunstâncias que envolvem o evento são misteriosas: enquanto a polícia local supõe que o jovem pároco tenha simplesmente se suicidado, a madre superiora acredita que o rapaz estivera possuído por forças demoníacas.

O argumento de O Convento acerta em seu flerte com o fanatismo religioso, já que a narrativa não se debruça sobre a velha disputa entre bem e mal, mas sim em como a Igreja supostamente exerce controle sobre essas forças. É válido ainda mencionar o quanto somos imersos na trama em sua primeira parte: o filme cria uma atmosfera de estranheza, de desconforto, como se, assim como a protagonista, não pertencêssemos àquele lugar. Infelizmente, o roteiro não consegue estruturar de maneira coesa as ideias que propõem, recorrendo a soluções fáceis (como o uso excessivo de flashbacks, extremamente mal inseridos) que praticamente entregam os mistérios de graça ao espectador – muito embora, a história possa parecer sem pé nem cabeça.
O desenvolvimento das personagens também se mostra deficitário, começando pela protagonista Grace (vivida por uma apática Jena Malone). No início, ela procura explicações não apenas para a morte do irmão, mas também respostas sobre si mesma. Todas essas buscas, no entanto, se mostram infrutíferas. A figura da madre superiora (Janet Suzman) é a que melhor se insere dentro daquele ambiente hostil; sua excentricidade gera atenção, mas aos poucos ela é sumariamente abandonada. Já o Padre Romero de Danny Huston surge de forma promissora, mas se esvai até chegar a nível quase zero de relevância.
A impressão que se tem é a de tenha faltado um melhor ‘acabamento’ a O Convento. De fato, sua primeira metade é capaz de despertar, no mínimo, curiosidade. Lamentavelmente, o filme se arrasta nitidamente em sua segunda metade, seja na obviedade do roteiro, nas cenas de violência que não causam qualquer impacto, no desprezo por personagens com grande potencial e, principalmente, em sua incoerência temática. Falta um rumo. Talvez como boa parte de seus personagens, O Convento esteja pra lá de perdido…