Adaptado do romance homônimo do italiano Paolo Cognetti, As Oito Montanhas relata os encontros (e desencontros) de Pietro e Bruno: o primeiro, um pré-adolescente cuja família decide passar as férias longe da agitação da cidade grande; o segundo, a única criança vivendo em um remoto vilarejo à beira dos Alpes Italianos. Quando os pais de Pietro alugam uma casa na pequena comunidade, cria-se uma intensa amizade entre os garotos, fortalecida a cada verão. Em determinado momento, seus destinos assumem rotas distintas: Bruno acompanha o pai em seu trabalho de operário em outra cidade, enquanto Pietro segue com os estudos. Ambos crescem espelhando as escolhas que fizeram (ou as possibilidades que surgiram): Bruno, fincado às tradições de sua terra, vive sem muitas ambições, apenas aceitando as condições que aquele ambiente inóspito lhe impôs, ao passo que Pietro parece ainda não ter encontrado seu lugar no mundo.

Instrumentalizando via imagem e fala (através do uso de voz-off, sob uma perspectiva em primeira pessoa – Pietro) uma síntese dos acontecimentos que marcariam as vidas de seus protagonistas, As Oito Montanhas é, sobretudo, uma história de amor – felizmente, não do amor físico, carnal ou da paixão avassaladora entre duas pessoas. Embora alguns possam (ou queiram) enxergar doses de homoerotismo (que, felizmente, é inexistente), o vínculo entre Pietro e Bruno transcende convenções, foge de definições, estabelece-se como uma conexão quase espiritual entre dois seres que se completam. Suas ações gritam mais alto do que as palavras que são incapazes de dizer – e, talvez, eles mesmos nem saibam muito bem como lidar com isso justamente pelos rumos que suas vidas tomaram. Como um deles conclui em um trecho, é uma amizade que não precisa de “manutenção”; precisamente por isso, não há cobranças, julgamentos ou obrigações – tudo o que fazem um pelo outro nasce de modo orgânico, como se por uma necessidade de se “nutrirem” um do outro, de ciclos em ciclos. É como se não importasse o que aconteça: tudo os leva de volta aos braços um ao outro.
Dirigido e roteirizado pela dupla Charlotte Vandermeersch e Felix van Groeningen (este último, responsável por títulos como Querido Menino e o elogiado Alabama Monroe), As Oito Montanhas é uma súmula da vida como ela é: os caminhos nem sempre são lineares; há percalços, desvios, ganhos, perdas; há altos e baixos; pessoas que chegam e ficam, outras que vem e vão. A vida é constituída por uma série de eventos, em geral, inesperados – assim como acontece com esses personagens que, anos mais tarde, já adultos, se reencontram para realizar o último desejo do pai de um deles que acabara de falecer: a reconstrução de uma casa em ruínas aos pés da montanha, que a partir daí se torna não apenas um ponto de encontro, mas essencialmente, um mundo particular daqueles dois amantes. Esse pedaço de universo é edificado na intimidade desses dois homens, que transborda em cena através das entregas de Luca Marinelli e Alessandro Borghi (respectivamente Pietro e Bruno), intérpretes que doam tudo de si na troca de olhares e gestos; é reforçado pela fotografia gélida que traduz em imagens a ausência das palavras entre eles, mas expressam a força arrebatadora dessa relação; e é aprimorado pela competente direção, que abandona qualquer conotação (homos)sexual para explorar a beleza do amor real – esse sim (e somente ele) capaz de nos inteirar e, semelhantemente, nos esvaziar quando se vai.