Em uma rave isolada nas montanhas do sul do Marrocos, dois rostos se distinguem na massa de corpos entregues à incessante música eletrônica: claramente isolados, atentos a tudo e a todos que veem, Luis e seu filho procuram por Mar, filha e irmã que desaparecera meses antes em uma festa semelhante. Enquanto circulam naquele ambiente que lhes é visivelmente estranho, a dupla distribui as fotos da garota perdida, buscando qualquer informação que possa leva-los ao seu paradeiro – mas todo o esforço parece ser em vão. Uma nova esperança surge, no entanto, quando eles descobrem a existência de uma última festa, mais afastada, em meio ao deserto marroquino e decidem seguir um grupo de figuras alternativas, cujas formas de vida parecem tão instáveis quanto o território hostil pelo qual irão se aventurar.
“O fim do mundo já está acontecendo há alguns anos…”, diz um personagem ao ouvir um relato no rádio – frase que, sob certa perspectiva, pode indicar o ponto de partida alegórico de Sirât, novo filme de Oliver Laxe (e cuja produção envolve nomes como os irmãos Agustín e Pedro Almodóvar). O “sirat” é um conceito central do Islã: segundo a tradição, trata-se da ponte que todos os seres humanos deverão atravessar no dia do Juízo Final; estendida sobre o inferno, ela conduz ao paraíso e, naturalmente, atravessá-la com sucesso depende unicamente das ações da pessoa em vida (os justos chegam ao seu destino, enquanto os ímpios tropeçam e caem no inferno).
Sirât foge da narrativa comum, estando muito mais preocupado em trazer perguntas do que sugerir respostas. Pouco sabemos, de fato, sobre seus personagens, suas motivações (à exceção óbvia de Luis, para quem a busca da filha torna-se uma obsessão) ou mesmo sobre aquilo que exatamente os move a seguir em frente mesmo diante do desgaste físico, dos riscos da empreitada e, principalmente, da desesperança que se avizinha a cada passo. Ao se recusar a oferecer explicações, o filme desloca seu interesse para a experiência da travessia, especialmente a partir da segunda metade do filme, quando o espectador é convidado a acompanhar um percurso (moral, físico e simbólico) que os sentencia a todo instante, rumo a uma absolvição que não se sabe ao certo se virá ou não.
A aridez do deserto, filmada com rigor pelas lentes do diretor de fotografia Mauro Herce, não funciona apenas como cenário; ela é uma extensão do estado interno daqueles personagens, intensificando o silêncio, o vazio e a exaustão daqueles seres. À medida que o roteiro se despe de justificativas, qualquer expectativa de redenção se dissolve e o que resta é apenas a travessia em si, com toda sua ambiguidade. Não há consolo – e, por vezes, o filme parece até desafiar seu público, proporcionando-lhe momentos de tensão que podem até mesmo soar gratuitos. Ao final, Sirât evidencia-se menos para uma narrativa de resoluções, sem fechamento: é um filme que abandona o conforto do destino final, mas insiste nos desafios do caminho, sugerindo justamente que, entre a perdição e a salvação, o que nos restar é arcar com o peso dessa travessia.
