Legalmente Loira (Legally Blonde, 2001)

E lá se vão mais de duas décadas desde a estreia de Legalmente Loira. A comédia, que marcou o início dos anos 2000, acompanha Elle Woods (Reese Witherspoon), uma patricinha fútil que, após levar um pé na bunda do namorado Warner (Matthew Davis), decide ingressar no curso de direito de uma prestigiada universidade norte-americana para reconquistar o amado.

Há quem afirme, não por acaso, que o longa dirigido por Robert Luketic (posteriormente responsável por títulos como A Sogra, de 2005, e Quebrando a Banca, de 2008) tenha envelhecido mal: de fato, a produção de 2001 possui abordagens em seu argumento que, sob um olhar contemporâneo mais crítico, podem parecer datadas, como a insistência inicial na imagem caricatural da “loira burra”, uma motivação romântica que limita as ambições da protagonista ao seu desejo de agradar o sexo masculino e as piadas que reforçam inúmeros estereótipos. Mas analisar a obra sob as lentes contemporâneas, convenhamos, é puro exercício anacrônico – seria o mesmo que esperar correção moral retroativa de uma comédia de Ernst Lubitsch ou de um texto de Veríssimo.

Portanto, reduzir o filme a esses aspectos narrativos é ignorar seu contexto histórico (indispensável), mas principalmente o modo como, gradualmente, a história subverte as próprias premissas que levanta – e este é um dos maiores trunfos de Legalmente Loira. A busca pelo homem se converte em uma jornada de autoconhecimento e o roteiro acerta em cheio ao abandonar o viés romântico e concentrar-se na reconfiguração da imagem de Elle. Não que as caricaturas deixem de existir, mas elas se tornam ferramentas para o humor – você não ri delas, mas através delas e de seus mecanismos de desconstrução: a loira supostamente ‘burra’ possui outros conhecimentos além do “juridiquês”, a rivalidade feminina perde espaço quando a “inimiga” se transforma em aliada e o homem que antes era prêmio vira um obstáculo. Ao deslocar o conflito do eixo amoroso para o profissional (expondo o machismo institucionalizado que sufoca a personagem, mesmo que inicialmente ela não tenha essa consciência), Legalmente Loira encontra uma inesperada maturidade.

No fim, Legalmente Loira é puro entretenimento – e não há nenhum demérito nisso. Seu humor acessível permite que a narrativa ofereça, de forma despretensiosa, uma leve trama de superação, valendo-se muito do carisma incontornável de Reese Witherspoon, que, com sua presença cênica e timing cômico, confere a Elle Woods uma rara combinação de ingenuidade, inteligência e determinação – provando que competência e feminilidade nunca foram excludentes. Longe de ser uma obra revolucionária, Legalmente Loira segue sendo lembrado como uma das comédias mais interessantes do início do século, não apenas por divertir, mas principalmente por mostrar que a inteligência nunca precisou abrir mão do salto alto, do blazer rosa ou das madeixas loiras.

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