O título Se eu tivesse pernas, eu te chutaria (e, claro, a sinopse que o acompanha) me remeteu imediatamente ao artigo Women who refuse to mother: complicating the ideology of motherhood in Northern European Art, 1400-1600, de Diane Wolfthal. No texto, a autora demonstra que, mesmo na Idade Média, a ideologia da maternidade – essa crença de que toda mulher nasce para ser mãe, sendo naturalmente amorosa e vocacionada ao cuidado – nunca foi absoluta, embora ampla e historicamente reforçada pela cultura visual e religiosa. Wolfthal não nega a maternidade enquanto experiência, mas expõe a fragilidade de sua idealização como um destino irrevogável. É justamente essa operação – não a recusa da maternidade em si, mas sua romantização – que parece ser um dos gestos mais provocativos da obra de Mary Bronstein.
Linda é uma mulher à beira do colapso total; ao longo do filme, a psicóloga precisa lidar com uma sucessão de problemas que se acumulam: o tratamento da filha (cuja doença nunca chega a ser devidamente esclarecida), um vazamento que destrói o teto de seu apartamento, os cuidados para com seus pacientes. Por sua vez, os homens à sua volta não parecem nem um pouco dispostos a ajudá-la, seja o chefe, o manobrista do colégio da filha ou o esposo ausente. Sua vida está de pernas para o ar e não há qualquer rede de apoio que se sustente: tudo depende de Linda, tudo recai sobre ela e sua (in)capacidade de lidar com o caos.
Esse sentimento sufocante é amplificado pela fotografia de Christopher Messina, constantemente em plano fechado, que persegue Linda tal qual a rotina que a atormenta. Como Woody Allen o fizera com Cate Blanchett em Blue Jasmine, por exemplo, a câmera acentua um intenso clima de claustrofobia, não apenas espacial, mas principalmente existencial: ao manter esta distância desconfortável do rosto da protagonista, o enquadramento se torna ele próprio um mecanismo de aprisionamento, como se a imagem fosse uma extensão da pressão ininterrupta que atravessa sua trajetória. A câmera é cruel ao visualizar todo o desgaste da personagem, transformando o espaço ao seu redor em um território hostil, mais um agente de violência – onde não há refúgio possível, não há acolhimento, apenas a repetição (e deterioração) de experiências que a oprimem até o fim.
Moralmente ambígua, Linda não é vítima de julgamentos; o roteiro (também de Bronstein) não busca absolvições ou condenações simplistas: as ações indevidas e os gestos agressivos de Linda são apresentados mais como sintomas de um esgotamento estrutural, e não meramente atos isolados. Se eu tivesse pernas, eu te chutaria parece mais interessado em expor um sistema (falido) que coloca sua protagonista nessa posição, um modelo que insiste em naturalizar a sobrecarga feminina como uma virtude. Assim como nas imagens analisadas por Diane Wolfthal, o desconforto provocado aqui reside menos no comportamento dessa mulher e mais na ameaça que ela pode representar a esse ideal de maternidade – que, nos nossos dias, já não é mais sustentável. O mal-estar que o filme causa (e que nos é latente diante da atuação visceral de Rose Byrne, até aqui no papel de sua carreira) nasce justamente do confronto entre essa construção perpetuada por séculos e uma experiência atual incapaz de sustentá-lo. Assim, o filme se revela um retrato incômodo e indigesto do preço cobrado às mulheres para a manutenção de um regime já em ruínas.
