Sorrentino Faz Ode à Vida e ao Tempo em “A Juventude”

O tempo passa para todos e o que fica são as lembranças. Esta afirmação pode parecer um tanto óbvia, é verdade, e está intimamente ligada ao conceito de “idade” – que, para muitos, é bem particular: nada impede uma pessoa idosa de ser jovem, como é possível que um adolescente carregue a exaustão que esperaríamos de alguém na terceira idade. A Juventude, do italiano Paolo Sorrentino (de A Grande Beleza, vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro em 2013) é uma reflexão sobre os dias e, principalmente, a passagem do tempo – criando, a partir dela, uma ode à juventude e à vida.

01Em um requintado hotel situado nos Alpes, dois amigos na casa dos 80 anos passam suas férias. Fred Ballinger (Michael Caine) é um maestro e compositor aposentado desde que sua esposa passou a viver em um asilo, após ser diagnosticada com Alzheimer. Mick Boyle (Harvey Keitel), por sua vez, é um cineasta em atividade, porém em crise após uma série de trabalhos criativamente fracassados. Juntos, eles confrontam o passado e relembram suas histórias de vida, das aspirações da infância às paixões da juventude – enquanto lutam cada um contra os fantasmas do presente que os atormenta: Mick tenta finalizar aquele que será seu último roteiro e Fred resiste em retornar aos palcos para executar sua obra-prima, a convite da rainha.

Esteticamente impecável, A Juventude não é um filme tradicional, com começo, meio e fim muito bem definidos; A Juventude é feito de sequências que se completam – imperfeitas até certo ponto, mas que por isso mesmo torna esse panorama tão humano. É a típica produção que, ao final de sua projeção, o público não sabe exatamente o que pensar: há inúmeras perspectivas que podem ser contempladas e isso enriquece muito o trabalho de seu idealizador. Para além desse fato, tem-se um elenco que engrandece a obra. Caine e Keitel conferem bastante competência a seus respectivos papéis, seja lado a lado ou em cenas individuais. Por outro lado, Jane Fonda surge em um único momento da trama, mas reproduz aquele que é um dos melhores diálogos da narrativa – promovendo um debate inquietante sobre a “morte” da sétima arte e o crescimento da TV no futuro.

É irônico que em A Juventude a palavra “youth” apareça sobre as imagens de corpos enrugados e é ainda mais curioso que ela ressurja nos instantes finais, na gloriosa sequência musical onde ouvimos um número da majestosa The Simple Songs (que concorreu ao Oscar de melhor canção original, perdendo para a insossa música de Sam Smith para 007 Contra Spectre) – aliás, a trilha sonora de David Lang é um item à parte, bem como a impressionante fotografia de Luca Bigazzi, que unidos criam um balé estético que merece ser contemplado. Dividindo opiniões (em Cannes, o longa foi aplaudido e também vaiado), A Juventude foi considerado o melhor filme europeu pela Academia Europeia de Cinema, em 2015. Inspirador, A Juventude é rico na magnitude de seu tema, cumprindo sua proposta de saudar a vida como ela é.

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