“Os Fantasmas de Ismael”: Um Filme Ruim Dentro de um Pior

Estava pesquisando sobre Arnaud Desplechin e não fiquei surpreendido ao ler que o cineasta é considerado o Woody Allen francês – seja nos diálogos do cotidiano ou mesmo nas reviravoltas de suas narrativas. Claro: Desplechin não tem a mesma popularidade (muito menos a vasta filmografia) de Allen, mas tem lá seu talento – que, infelizmente, passa longe em seu novo filme, Os Fantasmas de Ismael.

Os Fantasmas de Ismael tinha tudo para dar certo: um realizador competente, uma sinopse intrigante e curiosa (um diretor prestes a finalizar seu novo longa é surpreendido com o retorno de sua esposa dada como morta, após 20 anos de desaparecimento),  um elenco estelar  e um plus: o filme abriu a última edição de Cannes, em 2017. Mas não foi desta vez: Desplechin entrega um título enfadonho, praticamente um exercício próprio, que trafega em vários gêneros e linhas temporais sem um fio narrativo consistente.

Em seu acabamento, Os Fantasmas de Ismael se mostra uma grande confusão: inicia-se como um thriller, vai para uma espécie de policial, tem umas pitadas de comédia, aposta no drama familiar… é tanto tiro sem nexo que tudo soa um tumulto só. O espectador sai do cinema com a sensação de que assistiu pelo menos uns três filmes diferentes – todos eles regulares, desperdiçando um time incrível e de uma história com grande potencial. De fato, há um “filme dentro do filme”, que até mesmo se confunde à trama principal (mas seja como for, dentro ou fora, nada funciona).

A resposta para esta quimera pode ser a pretensão de Desplechin em criar, como ele mesmo  adverte, “um ensaio fílmico sob o olhar atento à natureza do pintor Jackson Pollock” (ele, Pollock, uma referência no expressionismo abstrato – um movimento que, por si, já é difícil de definir). Assim é Os Fantasmas de Ismael : impossível de se definir. Até mesmo porque é tanta confusão que a gente nem sabe por onde começar…

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Desplechin Revela Novos Talentos do Cinema Francês em “Três Lembranças da Minha Juventude”

O título Três Lembranças da Minha Juventude já entrega muito sobre o filme. De fato, o drama de Arnaud Desplechin é, antes de tudo, um apanhado de memórias do personagem principal Paul Dédalus, que relembra ao longo da projeção seus anos de formação – e possibilita ao espectador acompanhar, de forma bastante intimista, a transformação de um menino em homem.

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Paul é um antropólogo que está retornando à França após trabalhar durante anos para o governo francês na Rússia. A partir daí, o filme é dividido em três episódios: o primeiro deles (“Infância”) é, provavelmente, o período mais difícil da vida do protagonista. Sofrendo com a ausência do pai e os problemas mentais da mãe, Paul acaba por morar com uma tia lésbica que vive com a companheira. No segundo capítulo (“Rússia”), Paul é detido no aeroporto após seu “duplo” ser encontrado como residente em outro país. É quando descobrimos que, quando adolescente, Paul viajara para a então União Soviética para ajudar uma família judia a desertar, cedendo seu passaporte a um rapaz de sua idade. Na última parte (“Esther”) e a que toma o maior tempo da fita, observamos a tórrida relação de Paul com a jovem e ambígua Esther.

Segmentado assim, dá-se a impressão de que, na verdade, Desplechin fez dois curtas e um média-metragem e os juntou, formando uma película única. Não é o caso, sabemos, mas essa sensação fica mais latente por conta da irregularidade do filme: “Infância” passa rápido, como se o protagonista (que é o narrador da história) não quisesse se estender muito nela. “Rússia” já apresenta um ritmo mais rápido, praticamente uma pequena obra de aventura, mas que não chega a ser de todo envolvente. “Esther”, por sua vez, é onde se concentra mais oscilações: caindo no drama, há sequências excessivamente arrastadas e outras que parecem meio atropeladas. Essa inconstância está longe de prejudicar o filme, talvez até crie um “charme” com o desenrolar das ações, mas é fato que pode cansar um expectador menos acostumado.

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O bom roteiro de Desplechin e Julie Peyr é, então, ideal para as atuações dos estreantes Quentin Dolmaire e Lou Roy Lecollinet. Ambos estão muito bem em cena. Dolmaire, apesar da visível timidez em alguns momentos, é encantador e se sai muito bem no primeiro título de sua filmografia. Com ótima presença, o garoto lembra, vagamente, Louis Garrel quando mais jovem – até aparece nu, então já começamos bem. Já Lecollinet é quem realmente brilha com seu tipo manipulador e sedutor, mas totalmente ambíguo. Seguindo a tradição das grandes damas do cinema francês, a bela é um nome a ser observado de perto nos próximos anos (arriscaria dizer que ela pode tomar o posto que hoje é de Léa Seydoux).

Com uma primorosa direção de arte (elogiada em grandes premiações, inclusive) e uma trilha sonora pontual, Três Lembranças da Minha Juventude não dá para passar despercebido. Embora não seja inteiramente “redondo” (apesar de a narrativa fluir em alguns instantes de maneira elíptica), o longa de Desplechin é intimista, repleto de lirismo e com um tom memorialístico ainda mais pulsante por conta da narração em primeira pessoa de Paul – que impede que o público conheça o ponto de vista dos demais personagens e coloca em cheque sua confiabilidade. Certamente, um trabalho que revela dois grandes talentos do cinema na França atual e, ainda assim, tem seus méritos próprios como obra individual.