Costa-Gavras e o Cinema Sócio-Político de “Z”

Adaptação do livro homônimo de Vassilis Vassilikos, lançado em 1967, Z  é a obra-prima de Costa-Gavras, cineasta grego (naturalizado francês) cuja filmografia é caracterizada por uma visão sócio-política muito apurada – que, infelizmente, não é conhecida do grande público. A trama básica é inspirada no famoso caso Lambrakis, ocorrido na Grécia no início dos anos 60, e narra o brutal assassinato de um político liberal (Yves Montand) após um discurso em uma manifestação de paz, crime este considerado inicialmente um simples acidente. Ao investigar o caso, um magistrado (Jean-Louis Trintignant) revela um poderoso esquema escandalosamente acobertado por uma rede de corrupção e ilegalidade na polícia.

Se considerarmos o atual cenário mundial, podemos chegar à conclusão que Z  não é somente atemporal, como também profético, não apenas em seu contexto histórico mas também em sua cinematografia, marcada pela fotografia perspicaz de Raoul Coutard (expoente da nouvelle vague) e por uma edição descontínua, muito moderna para a época. Estamos diante de uma descrição em estilo semidocumental (dado a frieza e objetividade do relato) em um ritmo eletrizante, que “melhora” muito o roteiro – já que este não é totalmente isento de pequenas falhas, principalmente quanto à ambientação da narrativa que confunde o contexto histórico de início. Felizmente, Z  ultrapassa barreiras culturais: o filme já se inicia com a advertência de que os fatos ali são intencionais, não há coincidências. É essa ousadia que faz com que seja impossível falar de cinema político sem referenciar Z.

EDIT: produzido em 1969, Z  foi censurado no Brasil durante a ditadura militar, estreando por aqui 10 anos após seu lançamento original. Isso quer dizer alguma coisa?

“O Outro Lado da Esperança”: Uma Celebração à Humanidade

Wikhström é um senhor de meia idade que decide mudar de ramo profissional e gerenciar um restaurante, após deixar para trás um casamento fracassado. Seu caminho, no entanto, se cruza com o de Khaled, um jovem refugiado sírio que acabara de ter seu visto negado ao chegar (meio que por engano) à capital finlandesa. Mas será que existe um mesmo sentimento capaz de unir pessoas de mundos tão distintos?

O tema central de O Outro Lado da Esperança, novo filme de AKi Kaurismäki, é a situação dos refugiados sírios em uma Europa contaminada pelo preconceito. Através de um humor pontualíssimo e repleto de ironia, esta tragicomédia levanta questionamentos importantes e atuais, apresentando uma proposta bastante eficiente em sua simplicidade, peculiaridade e intimismo. E isso se dá tanto em seu viés artístico quanto politico: se por um lado a cinematografia de O Outro Lado da Esperança é competente (por exemplo, na fotografia com planos médios e cores vivas – como se pertencentes a um Wes Anderson finlandês – ou na charmosa trilha sonora), por outro lado sua temática politica é soberba ao utilizar o cinema como uma poderosa ferramenta de denúncia. Os problemas existem e estão diante dos nossos olhos – apenas evitamos encara-los. Mas a partir do momento em que tentamos olhar além do nosso quadrado (buscando ter uma empatia mínima pelo próximo) é possível enxergar o melhor do outro lado, como o próprio título parece nos sugerir.

O Outro Lado da Esperança é, acima de tudo, um filme que expõe a capacidade de o homem ser “humano”. Em tempos de discursos inflamados de ódio, em que as pessoas parecem pensar cada vez mais apenas em si mesmas e a sociedade parece trilhar um caminho de perdição sem volta, O Outro Lado da Esperança celebra a humanidade, a fé no homem e a solidariedade – sentimentos estes capazes, sim, de nos fazer viver em um mundo melhor.