Versos de um Crime (Kill Your Darlings)

Ao que parece, a geração beat nunca esteve tão em alta no meio artístico desde seu surgimento. Seja na literatura, na música ou no cinema – só nos últimos anos, tivemos filmes como Uivo (2010), Na Estrada (2012) e Big Sur (2013) –, a contracultura repercutida por nomes como Allen Ginsberg e Jack Kerouac virou uma espécie de tendência (ou talvez, mera casualidade), sendo revisitada em diversas obras. Versos de um Crime, do novato John Krokidas, nos traz um pouco do universo beatnik, em um filme que flerta com o suspense e biografias não muito bem construídas daqueles que foram os precursores de um movimento que influenciou toda uma geração.

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O filme acompanha o jovem Allen Ginsberg (Daniel Radcliffe) a partir de seu ingresso na Columbia University, em 1944, quando conhece Lucien Carr – um simpático e misterioso colega de universidade por quem Allen fica deslumbrado. Lucien é quem apresenta Ginsberg a William Burroughs e Jack Kerouac, dois jovens aspirantes a escritores. O assassinato do amante de Lucien, no entanto, acaba impactando a amizade do grupo – mas dando início a geração beat, do qual Ginsberg, Burroughs e Kerouac foram os principais expoentes.

Boa parte do roteiro do longa se dedica à construção de suas personagens através de situações avulsas e, em muitos momentos, desconexas. Em uma época marcada pelo conservadorismo, os personagens principais são mostrados como um grupo de adolescentes mimados sem nenhuma motivação para seus atos. O próprio Ginsberg é retratado na maior parte do filme como um jovem altamente influenciável – ao ponto de abandonar a mãe em troca de uma noite de farra com o amigo de sexualidade “duvidosa”. O grupo, aparentemente comandado pelo carismático Lucien, é retratado como a versão imatura de uma geração que luta pelo fim de tabus, pela queda do conservadorismo – mas não sabe o porquê de tudo isso.

Ainda que o roteiro sofra com algumas falhas, Versos de um Crime proporciona ótimas atuações, com um elenco jovem e carismático que revive com competência esses grandes nomes da contracultura. Daniel Radcliffe, numa tentativa visível de se libertar de seu Harry Potter (personagem teen que marcou sua carreira) tem aqui ótimos momentos na pele de Allen Ginsberg. O próprio Radcliffe já havia declarado inclusive que pela primeira vez se sentiu satisfeito e orgulhoso ao se ver na tela – mérito do ator e também do diretor que, além da boa escolhe de elenco, orientou o grupo em todas as cenas. Protagonizando uma modesta sequência de sexo gay (sob orientação de Krokidas, homossexual assumido, para que a cena parecesse ainda mais real), Daniel só não consegue ser mais intenso do que Dane DeHaan, excelente como o jovem Lucien – a mais grata surpresa no longa. DeHaan, talento em ascensão, e Radcliffe mostram uma química adorável durante o filme, fazendo quase com que o espectador torça pela união dos dois (ainda que Lucien seja volúvel e seu caráter altamente reprovável).

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A bela fotografia em sépia ajuda na reconstituição de época, trazendo certo estilo ao filme. Com a trilha sonora assinada pelo jovem Nico Muhly (de O Leitor, de Stephen Daldry), Versos de um Crime é um filme que talvez, em mãos mais experientes, poderia ter tido seu bom material melhor aproveitado – o que fica evidente na falta de ritmo da narrativa. Versos de um Crime é incapaz de agradar a todo tipo de público, devido sua temática deveras complicada, sua falta de apelo comercial e por retratar um movimento de contracultura que não é conhecido por todos. Entretanto, os bons aspectos técnicos e as atuações inspiradas do elenco (incluindo Radcliffe sem os trajes de bruxo) são motivos suficientes para se assistir ao longa – ainda que lhe falte uma abordagem que seja digna dos personagens envolvidos e de toda sua contribuição às gerações seguintes.

A Mulher de Preto (The Woman in Black)

A Mulher de Preto conta a história de Arthur Kipps, um jovem advogado e pai viúvo, desestabilizado emocionalmente desde a morte de sua esposa, que viaja para uma cidade do interior da Inglaterra para cuidar dos papéis de um cliente falecido recentemente, dono de uma mansão. Lá, ele descobre que há o espírito de uma mulher que toda vez que é visto causa a morte trágica de uma criança da cidade. Mais tarde, Arthur descobre que o espírito apenas deseja vingança por conta da morte de seu filho, cujo corpo nunca fora encontrado.

O filme tem todos os elementos próprios deste tipo de película. Vamos lá: homem da cidade que não acredita nas crendices de pessoas simples do campo, confere; atmosfera sinistra, confere; história envolvendo o sobrenatural, confere; cenário do interior de uma Inglaterra no início do século XX, confere. Entretanto, nem mesmo estes elementos são capazes de impedir que A Mulher de Preto deslize e se torne uma quase furada.

A princípio, já somos apresentados claramente a uma falha na escolha do ator principal. Apesar do roteiro destacar a juventude de Kepps, Daniel Radcliffe é absolutamente muito jovem para o papel – além do fato de Radcliffe ainda estar muito vivo na memória dos fãs como o bruxinho Harry Potter, personagem principal de uma das maiores franquias do cinema. Radcliffe faz um tremendo esforço para o papel que, definitivamente, não foi feito para ele. Afinal, Daniel em nada se parece com um viúvo que tem um filho de cinco anos. A sensação é a de que estamos em uma montagem de teatro escolar, onde crianças e adolescentes fazem personagens adultos. Além disso, o rosto assustado de Radcliffe a todo instante é irritante – e essa foi a única expressão que o ator conseguiu fazer durante todo o filme.

Depois, o filme tropeça – e muito – no roteiro. A história em si tem um grande potencial, pois é um legítimo conto de fantasmas. O que acontece é que ela não decola: as sequências são longas e cansativas, com pouquíssimos sustos. sustos. Alem disso, a lógica com que Kepps descobre o “grande” mistério do fantasma é, sob certo aspecto, duvidosa (confesso que ri com a facilidade com que o advogado encontra o corpo do filho do fantasma), o que faz com que o filme caminhe para um final bem diferente daquilo que se espera – e que não deixa de ser decepcionante para o espectador.

Mas tudo isso pode ser, talvez, creditado à falta de uma direção madura: percebe-se que o diretor James Watkins não teve pulso forte para conduzir sua obra e não aproveitou o potencial da trama. Parece que não é apenas uma história sobre fantasmas. A direção, ao que tudo indica, também é difícil de enxergar.