A Dualidade do Indivíduo em “O Duplo”

Simon é um rapaz tímido e recatado, sem muitas aspirações e cuja existência se resume apenas a… existir. Trabalha há anos na mesma empresa, mas apesar de ser um bom funcionário, pouco é notado. Não leva muito jeito com as mulheres e mal sabe agir quando está diante da garota de seus sonhos, a inconstante Hannah. Mora sozinho, já que a mãe está internada em uma espécie de sanatório e pouco o reconhece. Sua rotina é perturbada com a chegada de um novo colega de trabalho, James, fisicamente idêntico a Simon, mas com personalidade completamente diferente: dinâmico, confiante, carismático, sedutor – enfim, tudo aquilo que Simon não é e pouco faz questão de ser. Aos poucos, James se aproxima de Simon e passa a invadir sua vida, assumindo o papel do nosso protagonista.

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O Duplo, que chega aos cinemas brasileiros daqui a algumas semanas, parte de uma premissa que já foi abordada em outras ocasiões – recentemente, por exemplo, uma sinopse bastante similar pode ser conferida em O Homem Duplicado, filme estrelado por Jake Gyllenhaal baseado na obra de José Saramago. O Duplo, por sua vez, busca inspiração no texto de Dostoievski, publicado originalmente em 1846, que trata sobre a dualidade do indivíduo: afinal, o ser humano é único e especial ou existe realmente seu duplo?

Particularmente, devo confessar que gostei muito mais de O Duplo do que O Homem Duplicado e a razão é simples: a fita de Denis Villeneuve se debruça sobre várias teorias e referências, despejando uma enxurrada de informações que muitas vezes são desnecessárias e abrindo espaço para inúmeras interpretações, claramente querendo parecer um longa “difícil”. O Duplo também tem lá suas teorias, porem ele flerta diretamente com o suspense, o que colabora para construir uma narrativa muito mais rápida (o que alguns críticos dizem que prejudicou o produto final, mas a meu ver contribui muito para não deixar a trama cansativa, já que o tema não é tão fácil). O roteiro, ainda que meio perdido em alguns momentos, apresenta alguns lampejos de humor negro, que muitas vezes aliviam a tensão dos fatos e rendem boas e singelas risadas.

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No entanto, é tecnicamente que o longa de Richard Ayoade mais pode nos impressionar. A paleta de cores e o trabalho de iluminação (com seu uso constante de sombras, abusando do contraste claro-escuro) formam uma ótima fotografia, ajudando muito na recriação de ambientes sombrios e claustrofóbicos. A trilha sonora de Andrew Hewitt é assustadoramente desconcertante, capaz de deixar o espectador inquieto durante as sequências mais explosivas. O diretor recorre também a canções japonesas que, em conjunto com a música incidental, provocam uma interessante experiência. Quanto às atuações, o destaque curiosamente fica por conta da cada vez mais à vontade Mia Wasikowska, que empresta toda sua esquisitice a Hannah (e que com seus cabelos claros e roupas com cores vivas, destoa completamente do restante dos objetos de cena). Já o protagonista vivido por Jesse Eisenberg é até passível de certa compaixão – apesar de Jesse aparentar ter uma metralhadora no lugar da língua, o que deve ser um problema para qualquer dublador. Jesse parece sempre interpretar a si próprio em todos os filmes em que atua – e aqui não é diferente. No entanto, é até mesmo estranho argumentar que sua versão tímida e opressiva é muito mais carismática do que seu duplo, o que justamente deveria ser o contrário. Ou seja, reforça-se a tese de que Jesse é ator de um único tipo. Mas ele até que faz este único tipo muito bem, então vamos em frente…

03Muito mais pelo suspense e pelos alívios cômicos do que por todas as discussões que possa criar, O Duplo é um filme que surpreende e é muito agradável de acompanhar. O diretor visivelmente não procura se aprofundar em inúmeras teorias ou inovar na técnica, mas contenta-se em montar sua história dentro de um universo sufocante e que é capaz de prender o espectador. Não é uma obra que pode te fazer pensar por muito tempo, até mesmo pela rapidez da narrativa que não te deixa concluir muitos pensamentos ou levantar quaisquer questões, mas funciona como um bom entretenimento, apesar das deficiências de seu roteiro. Resumindo, é um filme que poderia ser muito mais do que é, mas contenta-se em ficar como sua personagem central: em um status quo, que o impede de ser uma grande obra.

Quebrando a Cabeça com “O Homem Duplicado”

O que você faria se descobrisse ao acaso que existe uma pessoa em algum lugar do mundo fisicamente idêntica a você? Tal situação pode parecer, de fato, estranha. Mas qual seria sua reação ao enxergar a si mesmo no corpo de outro ser? Muito mais do que simples aspectos físicos, há questões comportamentais e psicológicas que fatalmente seriam discutidas – e são essas últimas que o canadense Denis Villeneuve tenta conduzir em seu filme O Homem Duplicado.

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Baseado no livro homônimo do português José Saramago, O Homem Duplicado (título brasileiro para Enemy) nos apresenta a Adam, um professor de história com evidente propensão à depressão que descobre, ao assistir a um filme indicado por um amigo, que existe outro homem, não muito distante, fisicamente idêntico a si mesmo. Atordoado com a situação, ele procura seu suposto sósia – um ator com temperamento e personalidade bastante opostos ao de Adam. Aos poucos, se desenvolve uma relação obsessiva de perseguição entre os dois homens, com um querendo roubar a vida do outro e, principalmente, tentando achar uma resposta ou significado para todo este enredo.

Com um início que causa certo estranhamento, O Homem Duplicado tem um clima sufocante. Talvez o mérito por isso seja da excelente trilha sonora, que ajuda a acentuar a atmosfera de suspense do longa. É como se a qualquer momento alguma coisa fosse acontecer – e isso faz com que o espectador não desgrude os olhos da tela. Ponto também para a boa direção de Villeneuve, que valoriza o tema proposto por Saramago e conduz bem a narrativa, de forma que o público a todo momento tem a sensação de que tudo não passa de um suspense comum – quando na verdade, a proposta é muito mais subjetiva.

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A atuação de Jake Gyllenhaal também favorece muito o andamento da narrativa. Vivendo os dois personagens principais do filme, Jake consegue desenvolver ambas as personagens com nuanças sutis que fazem com que os dois homens sejam bem diferentes. Jake oscila com total controle de cena as diferenças psicológicas, comportamentais e emocionais de Adam e Anthony (o segundo homem) – o que é uma surpresa boa, vindo de um artista até hoje mediano. Nitidamente, vemos o amadurecimento do artista – que acompanhado de boas escolhas, certamente o tornarão um bom ator no futuro. A francesa Mélanie Laurent também tem uma atuação concisa, assim como Sarah Gandon, com quem forma praticamente o núcleo feminino da produção.

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Finalmente, mas não menos importante, há de se dizer que O Homem Duplicado não é fácil. A história é intrigante, mas suas inúmeras teorias, referências e críticas implícitas fazem com que, ao final de seus noventa minutos, o espectador fique com a sensação de que não entendeu absolutamente nada – sendo indispensável uma segunda sessão de cinema ou uma visita a fóruns na Internet para se pesquisar a respeito. O cineasta claramente nos despeja um monte de informações, sem nenhum significado para o público ou mesmo para seu protagonista e, apesar da cena improvável, caminha para um final obscuro e surreal, assim como seu início. Não que isso atrapalhe o produto final. Na verdade, O Homem Duplicado é uma daquelas histórias que não fazem questionamentos e onde tudo é metafórico – o que abre margens para diversas interpretações. Ou talvez, como alguns possam alegar, tudo não passa de alegoria do cineasta que acabou sendo mal explicada e prejudicando o filme. De qualquer forma, para os menos “intelectuais”, O Homem Duplicado vale como suspense. Para os que curtem quebrar a cabeça, vale levantar as milhares de hipóteses que o filme proporciona – ainda que você nunca vá saber qual o sentido de todas elas.